Argentina: indefinição do governo sobre candidaturas presidenciais e aumento da certeza da extrema-direita como terceira força nas eleições
por Maíra Vasconcelos
Chovia intermitentemente em Buenos Aires e a umidade do ar era superior a 95%. A Praça de Maio, às 15h30, estava repleta por uma multidão que esperava o discurso da vice-presidente Cristina Fernández de Kirchner. Mais uma vez, a épica e a liturgia peronistas estiveram presentes, no último 25 de maio, pelo aniversário de 20 anos de governo do ex-presidente Néstor Kirchner, falecido em 2010. Mais uma vez, Kirchner reafirmou que não será candidata a presidente, mas também, sequer, mencionou sobre as pré-candidaturas da coalizão de governo, “Frente de Todos”, que permanecem indefinidas para as disputas internas partidárias nas eleições Primárias do dia 13 agosto, para logo irem às urnas em outubro. Já que essa decisão partirá de uma condução interna da vice-presidente. E, como se sabe, as jogadas políticas estratégicas de Cristina Kirchner são “sempre rodeadas de mistério, sigilo e efeitos surpresas e geralmente difíceis de entender em toda sua dimensão”, escreveu Pablo Stefanoni, Doutor em História pela Universidade de Buenos Aires, no artigo, “Quem chorará pela Argentina? Eleições no meio da crise”.
Na Praça de Maio, que também é a praça onde desde 1977 o movimento das “Mães da Praça de Maio”, todas as quintas-feiras, pede por memória e justiça aos seus filhos desaparecidos pela ditadura militar argentina (1976-1983), Fernández de Kirchner apontou contra o discurso de ódio de parte da oposição e dos chamados anti-kirchnerista. “Temos que renovar esse pacto (democrático). Quando ouço as pessoas dizerem que temos que acabar com o peronismo ou com o kirchnerismo… por favor… se ganhar é suficiente, por que temos que exterminar o outro, e digo isso como parte de uma geração que foi devorada”, disse a vice-presidente ao lembrar do genocídeo de Estado implementado pela ditadura cívico-militar no país. O movimento kirchnerista tem conseguido se manter como uma ala dentro do peronismo, o que outros movimentos não conseguiram, como, por exemplo, o menemismo do ex-presidente Carlos Menem (1930-2021).
Como costuma acontecer, todo discurso público e entrevista de Cristina Kirchner não passam, jamais, desapercebidos no cenário político nacional. Ela voltou a repetir, como fez em recente entrevista este mês para o programa “Duro de Domar”, do canal local de televisão C5N – desde 2017, não concedia entrevista a um meio televisivo – que mesmo com suas diferenças em relação ao atual governo, “é infinitamente melhor do que teria sido um outro governo Macri (ex-presidente, 2015-2019), não tenho dúvidas”. No entanto, praticamente, a vice-presidente tem atuado como oposição dentro do próprio governo de Alberto Fernández. Ambos não mantêm uma comunicação fluida, quase não se falam e têm se mostrado juntos em escassos atos oficiais, ao menos, desde o ano passado. Fernández de Kirchner critica veementemente o acordo do governo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), para pagamento da maior dívida contraída na história do país, durante o governo de Mauricio Macri. “Se não conseguirmos que o programa do FMI seja deixado de lado, não conseguiremos pagá-lo”, proferiu na Praça de Maio frente a multidão que clamava por sua candidatura à presidente para as eleições de outubro deste ano.
Diferente das eleições de 2019, onde estavam em jogo as duas tradicionais forças políticas, o peronismo e a clássica direita de Macri, este ano, a Argentina possivelmente contará com a entrada do candidato Javier Milei, de extrema-direita, da coalizão “A liberdade avança”. Se antes não se previa que a extrema-direita poderia chegar a incomodar a coalizão de direita, “Juntos pela mudança”, hoje, fala-se ainda da possibilidade de o peronismo ficar de fora de um segundo turno. Cristina Kircher, em entrevista para o “Duro de domar” (C5N), comentou: “Estamos em um momento difícil, mas acredito que essas serão eleições atípicas, de terços. Assim como a eleição de 2019 foi uma eleição de teto (de votos), porque havia apenas dois partidos, agora estamos enfrentando uma eleição de terços, em que o importante, mais do que o teto, é o piso. O importante é chegar às urnas”.
Por outro lado, persiste o crescimento da inflação na Argentina, índices que o “superministro” Sergio Massa não tem conseguido controlar. Em dezembro do ano passado, o ministro projetava para abril deste ano uma inflação de 3%, no entanto, o mês fechou em 8,4%, e março em 7,7%, o maior índice desde 2003. Em maio, o dólar paralelo, chamado de “dólar blue”, chegou a subir 5,4% de um dia para o outro. O ministro nega, frequentemente, que queira se candidatar a presidente, mas, alguns analistas locais entendem que Massa está, sim, buscando cavar a sua candidatura. O ministro figura na lista da coalizão de governo, “Frente de Todos”, entre os nomes de possíveis candidatos a presidente, como o atual governador da Província de Buenos Aires, Axel Kicillof, ex-ministro da Economia no governo de Cristina Kirchner, entre 2013 e 2015.
Sobre as recentes declarações de Alberto Fernández, em sua conta do Twitter, no dia 18 de maio, o presidente falou que o empréstimo contraído pelo governo de Mauricio Macri, junto ao FMI: “é um delito”. Alberto se referia a um relatório emitido pela Auditoria Geral da União (AGN), aprovado por quatro dos sete membros que compõem o órgão, que pretende levar o caso a ser investigado pela Justiça. É a primeira auditoria realizada sobre o acordo de empréstimo entre o FMI e a Argentina. “Além disso, o relatório argumenta que não foram realizadas avaliações técnicas adequadas de custos e riscos. Tampouco foi solicitada a opinião da Unidade de Auditoria Interna ou outra assessoria jurídica eficaz ao entrar em contato com o FMI”.

Enquanto isso, a oposição age segundo a urgência econômica e começa a preparar às pressas um plano econômico para apresentar à população e angariar os suficientes votos para as eleições presidenciais de outubro. Como dito anteriormente, diferentes alas da coalizão governista consideram que o peronismo poderia ficar fora de um segundo turno, decidido entre a direita clássica e a extrema-direita. Isso indica, ao menos, o reconhecimento de um avanço importante da direita na Argentina. Fato que não tem levado o peronismo a atuar com urgência e se unir em torno a uma candidatura.
Mas a indefinição do governo, que também tem exposto uma clara desunião, tem data marcada. Até 24 de junho devem ser apresentadas as listas dos pré-candidatos que disputarão as internas partidárias nas eleições primárias de agosto, que incluem, além do poder Executivo, também a eleição de governadores de 21 províncias e do prefeito da cidade de Buenos Aires.
Posturas políticas kirchneristas contra o governo
Em artigo para o jornal “El DiarioAR”, o jornalista Sebastián Lacunza, pondera sobre a postura de Cristina e seu filho Máximo Kirchner, hoje deputado nacional, frente às possibilidades de governabilidade que poderiam encontrar, caso consigam eleger um candidato nas eleições de outubro. “A unidade nem sequer está garantida, porque a vice-presidente e seu filho sugerem que é melhor que o próprio partido perca, do que ganhar sem a possibilidade de realizar a revolução que eles propõem intermitentemente”.
Prossegue Lacunza: “Em nome de um compromisso proclamado com a unidade do peronismo, Alberto permaneceu inerte a partir do momento em que Cristina e Máximo perceberam, no meio da jornada e contra tudo o que havia sido dito e feito, que era necessário declarar inadimplência perante o FMI. Os cristinistas deixaram o governo, mas, para desgosto coletivo, também ficaram. Deve ter sido um ponto limite. O presidente tolerou o desrespeito e os bloqueios de políticas em áreas cruciais. O não reconhecimento daqueles que agem como inimigos será o sinal de seu mandato”.
Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN, desde 2014. Cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina (Paraguai, Chile, Venezuela, Uruguai). Escreve crônicas para o GGN, desde 2014. Tem publicado um livro de poemas, “Um quarto que fala” (Urutau, 2018) e também a plaquete, “O livro dos outros – poemas dedicados à leitura” (Oficios Terrestres, 2021).
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