5 de junho de 2026

POR QUE A MÍDIA E AS ELITES NÃO VÃO APOIAR MARINA ATÉ O FIM

Por Renato Santos de Souza

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Minha aposta, embora reconhecidamente precipitada, contraria muito do que eu tenho lido e ouvido por aí (e por aqui) sobre o tal “fator Marina”.

Tem muita gente achando que a grande mídia e as elites brasileiras já desistiram de Aécio depois da entrevista dele no JN e da morte de Campos; acham que agora a aposta é em Marina para derrotar Dilma.

Devagar com o andor que o santo é de barro! Acho que os meios que a grande mídia e as elites utilizam para atingir seus fins são bem mais complexos do que se imagina, e para quem não tem preocupação com coerência ideológica ou ética para além dos seus interesses, o tabuleiro político permite movimentos em várias direções até o xeque mate.

Creio, sim, que eles (a elite e a grande mídia) se “arrependeram” de terem escolhido Aécio, sobretudo depois que o injustificável e inexplicável caso dos aeroportos construídos com dinheiro público para beneficiar familiares, corroeu de uma só vez tanto o seu discurso de eficiência gerencial quanto de retidão ética. De um momento para outro, Aécio ficou sem o seu discurso favorito e que supostamente o distanciava do PT, o que explica sua repentina gagueira em entrevistas e pronunciamentos públicos.

Mas, se por um lado eles se arrependeram do escolhido, não creio que “desistiram” dele ainda, porque não há como voltar atrás na sua escolha, e porque Aécio ainda é quem melhor representa o seu projeto de poder.

Marina não me parece uma aposta duradoura neste pleito eleitoral, tanto para a grande mídia quanto para as elites, por algumas razões:

– Primeiro, ela é uma aventura irresponsável, tanto à direita quanto à esquerda. Não tem nenhuma experiência administrativa nem habilidades políticas, seja para a concertação ou para o confronto (Lula, por exemplo, se ressentia da primeira, mas era mestre na segunda, o que de certa forma compensava; Dilma patinava na segunda, mas se saia bem na primeira); além disso, seu discurso ambientalista é ótimo para fomentar consciências, para instigar a crítica às mazelas da ciranda produtivista-consumista em que vivemos, mas, convenhamos, não tem nenhuma viabilidade enquanto programa de governo. É um bom discurso de Congresso, e ela é uma boa figura para o parlamento (necessária, até), mas não é um discurso de governo, o que faz dela um grande risco no Executivo.

O perigo, aqui, é geralmente conhecido: quando o discurso do governante é utópico demais e encontra demandas de governo que são pragmáticas, a tendência é que o tal governante flane sobre o próprio discurso para manter a coerência, o interesse e a coalizão com seus correligionários, enquanto os tecnocratas e oportunistas de plantão surfam nas políticas públicas e ações administrativas, sem que o Governo possa controlá-las com um Plano de Governo coerente e factível. O resultado é geralmente uma degeneração política e administrativa do próprio Governo.

– Segundo, não há nenhuma garantia de que Marina possa ser controlada pela mídia ou pelas elites. Ao contrário, ela parece uma figura incontrolável, centralizadora, que não arreda de suas convicções, que mesmo depois de filiar-se ao PSB para ser lançada Vice, por exemplo, já anunciava para o futuro a criação da Rede e marcava data para a saída do partido que a acolheu, chamando a sua filiação de transitória. Assim mesmo, sem sequer tergiversar, fingir conformidade ou respeitar o partido que ofereceu a ela uma vaga de Vice, mesmo depois de sua atrapalhada tentativa de criar um partido que pudesse chamar de seu. E uma Marina assim, incontrolável, convicta de si e com aquelas ideias todas à frente, pode ser um grande perigo, não só para as elites ou para os interesses da grande mídia, mas para o Brasil.

– Terceiro, não tenho dúvidas de que um eventual governo de Marina teria grandes chances de fracassar. Se tentasse implementar seu discurso utópico e inviável para o horizonte temporal e as possibilidades de um governo, provavelmente desestruturaria boa parte da produção industrial e agrícola do Brasil. Se não tentasse, seu governo tenderia à fragmentação, inconsistência e ineficácia, quadro típico daqueles governos que não tem um projeto aglutinador para orientar suas políticas e ações, e sucumbem às inúmeras pressões corporativas e à instabilidade dos interesses políticos de uma democracia esquizofrênica como a nossa.

– E quarto, em decorrência disto, o seu governo se inferiorizaria em relação aos 12 anos do PT – tanto para o povo quanto para as elites produtivas -, Marina não faria seu sucessor, e deixaria o caminho mais fácil ainda para a volta de Lula ou mesmo da Dilma em 2018. A estas alturas, o PSDB já seria coisa do passado: a comparação em 2018 seria entre Marina e os governos do PT que a antecederam. 

E não tenho dúvidas, mais oito anos para Lula a partir de 2018, precedidos por fracassados quatro anos de Marina, devem tirar mais o sono das elites e da grande mídia, que suportar mais quatro da Dilma, podendo sangrá-la lentamente e fazer a imagem do seu governo definhar até 2018 (e é isto que a mídia sabe fazer bem). Neste caso, em 2018 Lula teria que responder não só por si, mas pelos oito anos de Dilma, o que seria bem mais difícil que enfrentar o provável fiasco administrativo e político em que pode se transformar um eventual governo de Marina Silva.

É por isto que eu acho que nem a grande mídia nem as elites vão abraçar Marina até o final do segundo turno.

Minha aposta é de que a “cobertura” midiática do “fator Marina” terá dois momentos. 

Num primeiro, turbinar o seu nome como tem feito até aqui, naturalizando, muito antes da sua escolha, a candidatura dela como sucessora de Campos e até, vejam só, comparando a sua trajetória com a de Lula, certamente para ver se ela herda um pouco da identificação que ele tem com o eleitorado popular. Isto visaria pressionar o PSB para que a escolhessem como candidata substituta de Campos, o que aconteceu, e também favorecer para que ela subisse nas pesquisas em relação a Campos, tornando sólido o que antes era improvável: o segundo turno. 
 

Num segundo momento, acho que vão tentar minar a sua candidatura aos poucos, para que ela chegue atrás de Aécio no primeiro turno, pois creio que ainda vão apostar num segundo turno entre ele e Dilma. Talvez seja uma disputa ombro a ombro, e a mídia estará do lado de Aécio. Lá no segundo turno é que a mídia vai jogar todas as suas fichas, vai para o tudo ou nada, rasgando de vez qualquer resto de decência que tentam aparentar.

Assim, os cenários de preferências no longo prazo que eles constroem, a meu ver, são os seguintes: 

– Primeiro, levar a eleição para o segundo turno, mas entre Dilma e Aécio, tentando desesperadamente emplacar o seu pupilo.

– Segundo, caso não emplaquem Aécio, Dilma se elege enfraquecida por enfrentar o segundo turno. Daí o plano será continuar a desgastar ela e a era PT no Governo até 2018, esperando tornar mais difícil a volta de Lula.

– Em último caso, eleger Marina e… “seja lá o que deus quiser, ou providenciar”. Afinal, segundo Marina mesma, Deus já providenciou para que ela fosse preservada do acidente; por certo Ele também tem interesse na sua eleição e no seu governo.

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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3 Comentários
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  1. Marx Carvalho

    20 de agosto de 2014 2:15 am

    ….nossa, este comentário
    ….nossa, este comentário faz juz, “Fora de Pauta” Fora da Realidade” Fora de Conhecimento…..”Dentro da realidade e bem partidária” Simplesmente fraco.

  2. Tom

    20 de agosto de 2014 6:50 am

    Fracasso, caos…

    Um governo fraco e caótico também pode interessar determinados segmentos da plutocracia. Parece que não são poucas as forças apostando no quanto pior melhor. De qualquer forma, a prioridade absoluta é retirada do controle do Estado, ou que ainda resta dele, das mãos do PT.

    Quanto mais caótico o cenario, mais viável a implantação de uma agenda “redentora”.

    Pode ser excesso de pessimismo de minha parte, mas da forma como discurso oposicionista está se radicalizando nos ultimos anos, acho prudente considerarmos até os cenarios mais improváveis.

  3. Red

    29 de agosto de 2014 6:40 pm

    Síntese perfeita, Renato!

    Síntese perfeita, Renato! Parabéns.

    Desde o texto sobre o enigma da classe média que procuro acompanhá-lo, sempre com boas surpresas.

    Continue escrevendo!

    Abraços

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