Tem dias que para 98,9% da população mundial – já que os outros 1,1% (2.668 bilionários e 56.084.000 milionários) estão com a vida ganha – o fim do dia lembra um verso da moda de viola: “E o cansaço me dominou. Minhas vistas se escureceram”.
Até os paulistanos da hora, ou seja, os tiozão e as tiazinhas da minha geração, têm uma parada sertaneja. Contrariados ou não, alguns cresceram ao som do repertório musical de domínio patriarcal, cujo riscado da agulha no vinil ecoava um sortilégio de duplas com nomes estranhos e divertidos: João Mineiro e Marciano, Tião Carreiro e Pardinho e Cascatinha e Inhana.
Era fácil decorar as letras repletas de todo tipo de tragédia, traição, odes para alguma espécie de pássaro e a boniteza que era se admirar vendo o céu estrelado.
Na Paulicéia Desvairada, bastava um golinho de bebida para que as longas e brutais jornadas na metalurgia vencidas apenas com uma marmita, transformasse um chefe de famĺia, em mais uma voz desafinada com Milionário e José Rico. Era poesia da roça, em plena Vila Olímpia.
Quando se tem lugar para sentar no transporte público é possível pensar na vida e imaginar que a luta de outrora ficou mais leve que o cansaço do agora. Os motoristas de ônibus das linhas de bairro conhecem seus passageiros e não é incomum lembrar os que adormecem ou os que ficam em devaneio, se querem perder o ponto. Rindo de nós, são solidários com nossas jornadas.
O sobressalto da parada quase mandou para fora do bolso, a chave de casa e um bilhete de loteria. Seria isto, um bom presságio?
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Melhor correr para casa, afinal hoje não era por medo, mas para abrir o aplicativo da Caixa e conferir o primeiro jogo na Lotofácil. A leitura feita mesmo sem óculos constata que todos os números eram de uma série premiada. Muita calma nessa hora. Melhor chamar a caçula que enxerga bem. A declamação numérica soava feito bossa nova e novamente todos os números naquele trapo de papel eram os sorteados.
As risadas e os pulinhos pouco antes da meia-noite, eram melhores que as de quem conseguiu ingressos da Taylor Swift. Representavam a materialidade do sonho unânime da classe trabalhadora: geladeira cheia, renovação do vestuário, eletrodomésticos que facilitam a vida, recursos para a educação, apoio para família e quitação de dívidas, fruto dos juros altos do banco que deveria ser central para o desenvolvimento do país e não responsável pelo endividamento do povo.
Um milhão e trezentos mil daria conta de muita coisa até do sonho da casa própria. Logo a racionalidade sobrepõe-se desconfiada, porque o bilhete da conferẽncia não parecia com um bilhete de loteria. Prontamente a fé respondeu: a Caixa mudou o formato.
De volta à internet foi possível descobrir que a moça da lotérica pode ter se atrapalhado na hora da venda, ou estava numa carência maior que a nossa, pois ficou com os dois e cinquenta da aposta e entregou como bilhete, um papel com o resultado do jogo vencedor de uma rodada anterior. Por quase dez minutos viramos a Milionária e a Mina Rica.
*Magali Romboli, jornalista e pesquisadora em Educação.
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AMBAR
25 de junho de 2023 3:27 pmDelícia de texto!