21 de maio de 2026

Escolas cívico-militares: reflexões sobre disciplina e liberdade, por Eduardo Blanco Cardoso

A militarização das escolas reforça um sistema de poder onde alunos são submetidos a uma estrutura que tenta mudar seus corpos e mentes.
Marcelo Camargo - Agência Brasil

Escolas cívico-militares: reflexões sobre disciplina e liberdade

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por Eduardo Blanco Cardoso

O filósofo francês Michel Foucault, crítico literário e historiador, entre outras erudições, referência intelectual do século passado, argumentou que a sociedade moderna desenvolveu mecanismos de poder que visam controlar e normatizar os indivíduos, moldando seus corpos, comportamentos e pensamentos de acordo com certos padrões considerados “desejáveis, produtivos ou socialmente aceitáveis”.

Transportando esta concepção às escolas cívico-militares hoje presentes no Brasil, pode-se afirmar que o poder disciplinar é a chave central para a organização e funcionamento das instituições identificadas com esse modelo educacional. A aplicação de regras rígidas, hierarquias, baseadas no controle estrito são características comuns, que buscam criar um ambiente voltado para a obediência e a ordem disciplinar, tendo por objetivo produzir sujeitos dóceis e docilizados, que internalizam as normas e valores dominantes, facilmente controlados e aceitos. A militarização dos espaços escolares reforça um sistema de poder que é essencialmente centralizado, autoritário e hierárquico, onde os indivíduos são submetidos a uma estrutura disciplinar que tenta mudar seus corpos e mentes. Neste contexto, resulta impossível prever o impacto dessa “disciplina” na liberdade individual e no desenvolvimento de capacidades criativas
e autônomas, assim como, sua projeção no exercício da diversidade de opinião, experimentação e resistência.

Portanto, é necessário refletir sobre a importância de espaços educacionais que promovam a liberdade, a diversidade e o pensamento crítico, em contraposição à rigidez e ao controle militarizado e repressivo defendido por alguns grupos. Um outro aspecto a ser considerado, consiste em que a militarização das escolas se direciona a comunidades e centros com poucos recursos, perpetuando desigualdades estruturais e injustiças sociais, em vez de ajudar a reduzi-las. Deve-se lembrar que nem todas as escolas funcionam da mesma forma e que existem muitos fatores que influenciam o comportamento dos alunos, como o ambiente familiar, a cultura e as expectativas da comunidade local, que não podem ser avassaladas ou excluídas de uma hora para outra.

Embora seja arguido que elas podem trazer benefícios, como promover um ambiente de aprendizado mais tranquilo e focado, ensinar responsabilidade e autodisciplina aos alunos, e prepará-los para lidar com situações desafiadoras na vida, permanece a preocupação de que um “ambiente excessivamente disciplinado” e “excludente” possa suprimir a criatividade e a individualidade dos alunos, causando ansiedade e estresse emocional, e até mesmo levando ao abuso de poder por parte dos responsáveis pela administração e corpo docente.

Está existindo uma relação desigual de poder onde o educador passa a legitimar o modo de pensar e de agir do educando. Por conseguinte, devem-se considerar cuidadosamente os prós e contras desse modelo de escolas e avaliar como ele se alinha aos valores e objetivos individuais perseguidos pelos progenitores. Além disso, é relevante ter em mente que não existe uma abordagem única que respeite padrões estéticos e comportamentais baseados na cultura militar que funcione para todos os alunos, e que diferentes abordagens podem funcionar melhor para diferentes indivíduos e contextos sociais.

Eduardo Blanco Cardoso, Pós-Doutorados em Medicina, Psicologia e Educação pela USP

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepauta@jornalggn.com.br. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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