5 de junho de 2026

A viagem de Zuca da Pé de Bode, mestre da sanfona de 8 baixos, por Eduardo Pontin

Tocador piauiense era exímio instrumentista e artesão da sanfona Pé de Bode. -- Mais um artigo da Série Piauí Cultura Regional
Com cerca de 100 anos, Mestre Zuca da Pé de Bode ainda dominava a arte de seu instrumento

Série PIAUÍ CULTURA REGIONAL (XI)

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A viagem de Zuca da Pé de Bode, mestre da sanfona de 8 baixos

por Eduardo Pontin

Nos deixou no dia 25 de julho o grande sanfoneiro piauiense Zuca Tocador, também tratado por Zuca da Pé de Bode (José Moreira da Silva, 1924-2023), do município de Avelino Lopes, Sul do estado, bem perto da divisa com a Bahia. Próximo de inteirar 100 anos de idade, Seu Zuca acompanhou à distância a evolução do Baião, que dos sertões nordestinos conquistou o mundo. Pé de Bode nada mais é que a sanfona de 8 baixos, um dos primeiros modelos existentes deste instrumento. Seu Zuca além de exímio instrumentista era também artesão, pois com as próprias mãos confeccionava a sanfona Pé de Bode. Por isso, era conhecido em sua cidade e em sua região como Mestre Zuca da Pé de Bode.

Segundo o IBGE, a cidade de Avelino Lopes fica localizada no Sudoeste do estado. Terra da minha amiga Cremisia, Embaixadora da Academia Piauiense de Letras em Teresina. Um dos poucos municípios do Brasil onde ainda hoje se cultiva o Lundu, tipo de Batuque que influenciou diretamente na criação do Samba no Rio de Janeiro do início do século XX. Terra também do grande Zuca da Pé de Bode, sanfoneiro e artesão deste instrumento musical que persiste ao tempo e a chamada evolução.

Agenor Abreu, Mestre de Cultura Patrimônio Vivo do Estado do Piauí, igualmente sanfoneiro, exalta a arte de Zuca Tocador em depoimento emocionado:

“Além de tocar esse instrumento muito difícil, também fabricava seu próprio instrumento, eu mesmo tenho uma Pé de Bode fabricada por ele. Esse grande Mestre nunca foi valorizado em sua cidade. Visitei Avelino Lopes alguns anos atrás, falei para as autoridades daquela cidade sobre a importância de manter a arte de tocar a Pé de Bode e mesmo tendo secretaria de cultura no município, Mestre Zuca nunca foi valorizado. O Piauí é que perde porque um saber desse não se aprende em escola. Um abraço Mestre, eu reconheço seu talento”.

– Agenor Abreu, Mestre de Cultura Patrimônio Vivo do Piauí

Mestre Agenor Abreu empunha a sanfona Pé de Bode confeccionada por Zuca Tocador

Embora não alcancem fama para além de sua região, os tocadores de sanfona são pessoas de prestígio no sertão nordestino. Pelo dom que Deus lhes concede, passam a ser reconhecidos pelo restante da população local com o distinto sobrenome de Tocador. E com Seu Zuca não foi diferente, já que poucos o conhecem por seu nome de batismo, mas basta perguntar por Seu Zuca Tocador que todos dão notícia. Uma característica comum aos tocadores de sanfona Pé de Bode é que a maior parte deles é apenas instrumentista, ou seja, não cantam, como era o caso de Seu Zuca.

Pé de Bode é como a sanfona de 8 baixos é apelidada, recebendo também os nomes de harmônica, fole, fole de 8 baixos e monca. A sanfona Pé de Bode foi um dos modelos utilizados pelos primeiros sanfoneiros do Brasil e rapidamente se popularizou, principalmente na região Nordeste.

Zuca Tocador (1º da esq.) ao lado de Anjo Abreu, em encontro de Sanfoneiros Pé de Bode em Avelino Lopes (PI)

Talvez o instrumento musical mais popular do Brasil colonial tenha sido a viola, que por sua vez já vinha substituindo a Rabeca, espécie de violino artesanal. Mas foi provavelmente a partir da imigração alemã nas primeiras décadas do século XIX que o fole invadiu os sertões e conquistou a alma nordestina. Nessa época já havia a função chamada de Baião, ao som de violas, pandeiros e ocasionalmente outros instrumentos percussivos, como gafanhotos (tipo de castanhola artesanal).

Durante muitos anos ainda o Baião prosseguiu sendo executado ao som de violas, mas cada vez mais crescia a predominância da presença da Sanfona Pé de Bode. A explicação para que isso tenha acontecido pode ir além da simples preferência de sonoridade entre uma e outra. Isso porque, naquela época não havia amplificação e os instrumentos eram executados à capela.

A sanfona Pé de Bode tinha maior alcance sonoro que a viola e numa festa repleta de pessoas dançando no terreiro devidamente aguado, o converseiro era grande. Nada como um instrumento que pudesse ser ouvido por todos, mesmo em meio a zoada, gaitadas e algazarras comuns a festas populares. Dessa maneira, muito possivelmente em razão de sua potência sonora, a sanfona foi pouco a pouco deixando a viola para trás e se firmando como instrumento preferido para as funções nordestinas.

Um dos mais célebres tocadores do instrumento de Zuca da Pé de Bode foi Januário José dos Santos do Nascimento (1888-1978), pai de ninguém menos que Luiz Gonzaga (1912-1989), o Rei do Baião. Por este motivo, Januário era também chamado de Vovô do Baião.

Januário dos 8 baixos, O Vovô do Baião

Porém, com a evolução do instrumento, os tocadores da sanfona Pé de Bode foram sendo deixados para trás e com Seu Zuca Tocador não foi diferente. Mestre Agenor Abreu explica:

“Depois que apareceu essa palheta, essa sanfona com teclado de piano, aí sanfona de 8 baixos foi desvalorizada. Aí os tocadores de Pé de Bode não tinham espaço, não eram contratados mais pra festa, porque achavam aquela música muito monótona. Com isso talvez o nome de Pé de Bode tenha nascido como um menosprezo, tocador Pé de Bode, tocador Rabo de Cabra, menosprezando. Seu Zuca me contou, as pessoas não valorizavam muito”.

Sempre com muita admiração e respeito, Agenor Abreu incluiu filmagens de Zuca da Pé de Bode em seu DVD “Projeto Candeeiro no Folclore – Piauiensidades” lançado em 2008, valorizando em vida a sua arte. No DVD, Mestre Zuca aparece tocando e ministrando curso sobre como produzir uma sanfona de 8 baixos, a popular Pé de Bode, numa ida a Teresina patrocinada pela Prefeitura da capital piauiense.

Mestre Zuca ministra curso em Teresina para jovens sobre como produzir a sanfona Pé de Bode

Com uma versão da sanfona mais evoluída, nas mãos de Luiz Gonzaga, o Baião Nordestino conquistou o Rio de Janeiro, capital federal de então, o Brasil e o mundo. Mas tudo começou com seu pai, Januário, que com a sua sanfona de 8 Baixos ensinou o filho a arte que ele iria aprimorar para apresentar aos brasileiros toda a riqueza do sertão nordestino.

Por isso, a partida de Zuca da Pé de Bode é uma perda inestimável nesse elo entre o Baião de viola do século XIX, o Baião dos sertões do início do Século XX e o Baião estilizado por Luiz Gonzaga no Rio na década de 1940. Seu Zuca da Pé de Bode era um importante representante do Baião do sertão Nordestino, feito de forma anônima, com repertório composto por cantigas folclóricas regionais.

Baião que não deu luxo e nem fama para a maior parte de seus tocadores, mas que alegrou muitos casamentos e festas nas quebradas do sertão, fazendo muitas pessoas felizes. E fazer os outros felizes talvez fosse o que mais deixava Seu Zuca da Pé de Bode feliz. Quem faz da vida uma grande dança e a encara com música não viaja sozinho, pois está sempre acompanhado da frequência sonora de sua alma. São Pedro já aguou o terreiro e o céu está em festa com Zuca da Pé de Bode, Januário e, claro, Luiz Gonzaga.

Paixão de toda uma vida: Sanfona Pé de Bode produzida por Mestre Zuca

Eduardo Pontin

Eduardo Pontin é filósofo e há mais de 10 anos desenvolve estudos e pesquisas de campo no universo do samba e da cultura popular brasileira. Produtor Cultural, vem trabalhando no processo de patrimonialização imaterial da Dança da Lezeira do Piauí, tendo atuado junto ao IPHAN para que esta expressão seja considerada Patrimônio Cultural Brasileiro. Recebeu 1ª Menção Honrosa no Prêmio Nacional Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular 2022, com o livro “Lezô, Lezá, Vamô Vadiá, Nesta Lezeira – Ancestralidade e Simbolismo na Dança da Lezeira do Sertão do Piauí”.

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