Série Piauí Cultura Regional (XII)
Roberto Sabóia e a Arte de Documentar Sonhos
por Eduardo Pontin
Quem anda pelos corredores da Secult em Teresina e se encontra com Roberto Sabóia no departamento Cultura Viva talvez não saiba que está diante de uma das pessoas mais importantes para a Cultura Popular do Piauí. Cearense de Crateús, mas piauiense por vocação, Sabóia é um autodidata que já foi de tudo um pouco nessa vida. Desde produtor técnico da lendária banda Onix até cameraman e iluminador de comerciais publicitários. Mas foi a partir de meados dos anos 2000 como documentarista de saberes regionais piauienses que Roberto Sabóia (Roberto Carlos Bonfim de Sabóia, 2/3/1960 – ) passou a gravar o seu nome na história.
Foi compondo a equipe do importante documentário “Anjos do Piauí, Arte Santeira – Mestres e Aprendizes” que Sabóia se encontrou. Sabóia havia sido contratado para intermediar a compra de peças em madeira de escultores da arte santeira que atuavam no Piauí. Essas obras tinham como destino uma exposição na Galeria HMR Studios, em Minneapolis, nos EUA.
Roberto mediou a feitura de 50 imagens de artesãos de Teresina e Parnaíba e, ao entrar em contato com os artistas, passou a filmá-los. Muitas dessas imagens aparecem no documentário “Anjos do Piauí”, feito em 2005 e lançado apenas em 2007, no qual Sabóia é creditado como produtor, fotógrafo still e câmera adicional.
Daí por diante a vida de Roberto Sabóia mudou por completo e o Piauí passou a viver um processo de maior valorização de suas culturas regionais, ganhando o seu mais significativo documentarista. Por volta de 2006, Sabóia foi convidado a ser o fundador da Associação Brasileira de Documentaristas Secção Piauí (ABD – PI). A ABD já existia em outros estados desde 1973, mas ainda não atuava no Piauí. É justamente quando os caminhos das tortuosas veredas e rodagens do sertão piauiense se cruzam com os de Sabóia.
Na ABD-PI, Sabóia realizou projeto que rodou parte do interior do Piauí oferecendo oficinas práticas que logo se transformaram em importante série de documentários que retratam pequenos municípios ou povoados do estado:
1) “Santa Luz – Câmera, Ação Comunitária” (2006);
2) “Colônia do Gurguéia” (2007);
3) “Liberdade Piauí” (2008);
4) “Divinópolis Piauí” (2008);
5) “David Caldas – PI” (2008);
6) “Altoense” (2014).
A equipe desses filmes era composta pela população local, que participava ativamente na elaboração do roteiro, indicando o que e quem havia de relevante em cada município que merecesse ser documentado.

Logo a ABD-PI foi convidada a realizar uma série histórica de documentários em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O primeiro deles foi “A Fábrica de Manteiga e Queijo das Fazendas Nacionais do Piauí”, de 2007. Este filme auxiliou no processo de tombamento desta edificação, localizada em Campinas do Piauí.
Porém, onde Roberto se encontrou mesmo foi na série de documentários do Iphan sobre os Batuques das Comunidades Quilombolas do sertão do Piauí. São eles:
1) “Cumbuca de Quilombo” (2007), sobre o Reis e o Samba de Cumbuca de Salinas (Campinas do Piauí), em codireção com Ricardo Augusto;
2) “Lá vem a barra do dia” (2008), sobre o Samba de Cumbuca da Volta do Campo Grande (Campinas do Piauí), também em codireção com Ricardo Augusto;
3) “Cabeça de Bale” (2013), sobre o Batuque do Curral Velho (São João do Piauí);
4) “Pagode do Mimbó” (2013), de Amarante;
5) “Batuque dos Reis” (2014), do Brejão dos Aipins (Redenção do Gurguéia);
6) “Tambor de Crioula – Região dos Cocais Piauiense” (2014).
Os filmes de Sabóia são retratos sensíveis de comunidades negras que muitas vezes vivem em dificuldades materiais. Assim, embora o enfoque seja a música secular praticada nesses redutos, a realidade simples do dia a dia não deixa de transparecer em sequências de imagens sensíveis acompanhadas de trilhas sonoras especialmente compostas para cada filme pelo talentoso músico Zé Piau.

Mas talvez a importância dessa série histórica de documentários sobre os Batuques das comunidades negras do Piauí ainda não tenha sido devidamente dimensionada. Há ao menos um século, os Batuques do Piauí são transmitidos de forma ancestral, de geração para geração. Isso significa que os seus valores, simbolismo, cancioneiro e fundamentos são ensinados por meio da oralidade e da prática de cada uma dessas expressões culturais. Ou seja, por meios não mecânicos.
Entretanto, o que temos visto nas últimas décadas é o recorrente desaparecimento de bens culturais como os Batuques piauienses. Infelizmente, a ancestralidade vem perdendo para a desleal luta com as mais diversas tentações do mundo considerado civilizado.
E nessa luta desigual, a utilização de meios mecânicos passa a ser uma alternativa viável para que o aprendizado permaneça acontecendo. É justamente nesse ponto onde repousa o maior mérito da obra cinematográfica de Roberto Sabóia: ela ensina.
Em conversa com o jovem sambador Renato, neto do grande sambista João de Hermenegildo, da Comunidade Quilombola Volta do Campo Grande, soube de fato que eleva a relevância da obra de Sabóia.
Renato me relatou que não teve o privilégio de alcançar mestres como Seu Mel, Seu Minga ou Ernestino, 3 dos maiores sambistas que o Piauí já conheceu, pois era muito jovem quando eles faleceram. Mas ao observar Seu Minga e Ernestino sambando no “DVD” feito por Roberto, assimilou os passos da dança e hoje compõe o Grupo Cultural Batuque da Volta do Campo Grande, que desde 2022 é Patrimônio Vivo do Piauí. Aliás, o documentário “Lá Vem a Barra do Dia” é uma obra-prima da filmografia piauiense e merece ser visto e escutado com fones de ouvido, tamanha a energia sonora ancestral captada.

Portanto, os filmes de Roberto Sabóia não são obras de arte que se encerram em si. São verdadeiros transmissores de ancestralidade, obras vivas, pulsantes, que pertencem de forma arraigada à terra onde foram filmadas.
Fora os batuques rurais do Piauí, a grande paixão da vida de Roberto é a Comunidade da Marmelada, em Gilbués, Sul do estado, lugar que conheceu no ano de 2008. O Quilombo da Marmelada passou a ser uma espécie de retiro espiritual de Sabóia, para onde religiosamente uma vez ao ano percorre mais de 800 km em 12h de viagem para encontrar os amigos que lá fez. A comunidade da Marmelada cultiva ao menos desde 1889 o Festejo do Divino Espírito Santo, que tem duração de 12 dias e se encerra no Domingo de Pentecostes. Sabóia documentou este festejo numa série de curtas-metragens, com destaque a “Festejo do Divino Espírito Santo – Comunidade Marmelada Gilbués Piauí”, de 2009. Inclusive, Sabóia é um dos idealizadores do pedido de registro junto ao Iphan para que o Festejo do Divino da Marmelada seja considerado Patrimônio Cultural Brasileiro.

Os documentários de Roberto podem ser classificados como filmes de guerrilha, já que a maior parte deles é feita com baixo orçamento. Geralmente a equipe é formada por alunos do próprio Sabóia que estão aprendendo o ofício do Cinema. Não há hospedagem ou alimentação especial. A equipe dorme em barracas ao ar livre nas comunidades aonde chegam, ou em redes armadas embaixo de uma latada ou de um pé de pau. Com Sabóia, o ideal pregado pelo genial cineasta baiano Glauber Rocha, pai do Cinema Novo, é colocado em prática na sua mais pura essência: “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”.
Demorou, mas com Roberto Sabóia o Piauí pôde ganhar um olhar atento e sensível junto às expressões culturais mais ricas de seu chão. Mas para além do proletário da cultura piauiense reside o ser humano Roberto, autêntico para-raios de almas boas e talentosos profissionais.
Os filmes de Sabóia convidam o Brasil a conhecer melhor o Piauí, estado que vive hoje riquíssima efervescência cultural de saberes ancestrais seculares. A obra de Roberto Sabóia merece receber um novo olhar, pois por trás de suas lentes passaram muita poeira, suor e lágrimas. As comunidades retratadas por Sabóia já o identificam como parte importante de suas histórias. Que o Piauí possa reconhecer também a grandeza dos filmes desse homem que silenciosamente vem pegando a estrada para documentar os sonhos de pessoas anônimas.

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