Pagu jornalista
por Walnice Nogueira Galvão
O resgate de todo o jornalismo de Pagu: dificilmente haverá algo mais sensacional na próxima Flip/Paraty, que homenageia a Pagu (Patrícia Galvão) da gesta modernista, redescoberta nos anos 80 por Augusto de Campos. Quem anuncia o lançamento é a Edusp, a editora da USP, freguesa da Flip, na qual mantém estande próprio todos os anos.
Essa última fase de ativismo jornalístico profissional e assíduo de Pagu ainda é pouco conhecida. Só aí poderíamos pensar numa verdadeira biografia dessa grande mulher. Mas quem sabe já está à vista a possibilidade, graças à dedicação do professor da U. de Yale e especialista em nosso Modernismo, K. David Jackson, que também traduziu para o inglês Parque industrial. A seu crédito, afora o levantamento do jornalismo de Pagu, ele já tem vários outros ensaios e artigos publicados a respeito dela, aqui e no exterior.
Trata-se de uma pesquisa monumental, que consumiu décadas de sua vida e resultou em 4 volumes. O abundante material se distribui desta maneira, conforme critério temático, verificável nos títulos elucidativos que lhes atribuiu K. David Jackson:
Vol. 1 – O jornalismo de Patrícia Galvão. A denunciada denuncia: Pagu e a política (1931-1954).
Vol. II – Da necessidade da literatura (De Arte & Literatura / Lições de Literatura). Vol. III – Palcos e Atores: Teatro mundial contemporâneo.
Vol. IV – Antologia da literatura estrangeira: Os grandes autores mundiais.
Nesse periódo de sua vida, Pagu escreveria em vários jornais e acabaria por fixar residência em Santos, onde viveria até a morte. Mas frequentaria a Escola de Arte Dramática de São Paulo, segundo conta seu fundador Alfredo Mesquita no livro de memórias ora também resgatado, O teatro de meu tempo, que traz capítulo sobre Pagu. Ela deixaria como legado para a escola sua biblioteca da arte.
Agitadora cultural de primeira, Pagu acompanharia a cena, visitando exposições, teatros, concertos, lendo livros novos e velhos, água para o moinho de seus escritos, especialmente em A Tribuna (de Santos). Produziria crônicas, poemas, crítica literária, traduções de fragmentos, comentários de artes plásticas e de teatro, artigos de política nacional e internacional.
Passada a fase modernista e militante, após muitas prisões e experiência tanto de proletarização quanto de clandestinidade, a autora comunista e feminista do romance Parque industrial romperia as amarras partidárias. Entretanto, espírito libertário, continuaria a empunhar a bandeira do Modernismo e a investir contra tudo que fosse retrógrado, na arte ou na vida.
Permaneceria inconformista e fiel às vanguardas, exigente, sarcástica, adepta de fórmulas fulminantes. Como se não bastasse, sempre insubmissa na defesa dos avanços modernistas e contestatária na denúncia dos retrocessos, fossem estéticos, políticos ou comportamentais. Um exemplário de autores e obras abordados revela preferência por poetas e dramaturgos – mas invariavelmente pouco convencionais: Arrabal, Ionesco, Ubu Rei de Alfred Jarry, Brecht, Lolita de Nabokov, de quem faz a defesa, Becket, Valéry, André Breton, Philippe Soupault, Octavio Paz, St. John Perse, Dylan Thomas, Artaud, Dürrenmatt, Ghelderöde, Ibsen, Fernando Pessoa, a Ópera de Pequim, a estréia brasileira de A sagração da primavera, de Stravinski… Escreve sobre música de vanguarda nacional e estrangeira. Amplia a gama de assuntos ao passar a registrar notas sobre televisão.
Incansável também na prática institucional, funda ou, se já existente, assume a presidência de várias organizações, como a Associação de Jornalistas Profissionais de Santos, o Centro de Estudos Fernando Pessoa, o Teatro Universitário Santista e a União dos Teatros Amadores da cidade.
A publicação de seu jornalismo completo vai conferir a ela outra envergadura enquanto estudiosa com interesses múltiplos, segundo depoimento de Sergio Mamberti no documentário Pagu musa-medusa. Aliando-se a ela na militância teatral em Santos, aos 14 anos, colaboração que só a morte interromperia, o ator vaticina que ela será finalmente reconhecida, com toda a justiça, como um dos grandes intelectuais brasileiros do século XX.
Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP
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