CPMI – Como Poderia Marombeta Impedir?
por Rui Daher
Houve tempo que em várias semanas do ano tinha presença obrigatória de trabalho no Rio de Janeiro. Para mim, era a glória. E não somente porque do Aeroporto Santos Dumont ao Centro ou ao Triângulo das Bermudas, (BR, BNDES, BACEN), na Avenida República do Chile, apesar do curto percurso, o táxi amarelo e azul, ainda que ousadamente voando, me permitia observar a majestade arquitetônica do bom e velho Hotel Glória, inaugurado em 15 de agosto de 1922.
Brinco, galhofo, só pilhéria, mas tivesse a Companhia de Hotéis Palace (a mesma que um ano depois (dia 13) inauguraria um dos complexos arquitetônicos hoteleiros mais bonitos do mundo, o Copacabana Palace) aguardado mais 23 anos e teria a comprovação de seu amor por leoninos e poderia anunciar nas publicações semanais: “Rio de Janeiro inaugura os hotéis Glória e Copacabana Palace, e São Paulo o escritor Rui Daher”.
Tanto isso é verdade que, antes da pandemia e o nascimento político do ladrão de joias, todos os anos, entre a primeira e segunda semana de agosto, reunia, aqui em casa, todos amigos leoninos para um jantar etílico.
Nas viagens ao Rio de Janeiro à trabalho, sempre dava um jeito de lá esticar, pelo menos, mais um dia. À noite, me instalava no Quiosque do Marombeta (Copacabana), flamenguista doente como eu, que sempre mantinha reservada para mim uma cachaça que trazia de Rio das Ostras (150 km da capital).
Não sei se verdade, mas sempre que perguntava sobre aquele sabor suave, Marombeta ria e dizia: “Deixo um mês envelhecendo no campo do Canto do Rio Foot Ball Club, (“O Cantusca”, 1913).

Eu estava sempre sozinho. Não convidava ninguém para compartilhar o momento de ócio paliativo à tortura que o dia me reservara. Quando o calçadão e o quiosque estavam pouco movimentados, o que dependia do horário em que lá me instalava, pedia um sete-barbas frito e sequinho, umas doses de Canto do Rio, cerveja para cumprir o teatral papel de água, papel, caneta, e escrevia a possível letra de canção para um Tom Jobim imaginário.
Noites mais agitadas, em algum momento, um conjunto de sambistas pararia no quiosque. Vendo-me mais pra Lupicínio do que pra Martinho, conhecedor de tantas letras de samba, já de voz pastosa, eu acompanhava a tudo o que saía do cavaco, pandeiro, tamborim e rebolo tantan.
Só saíam quando levavam meus regulares cinquenta reais.
– Marombeta pra que lado fica o mar? Quero ver a iluminação dos navios no horizonte.
Brincalhão:
– Pro lado em que não estiverem passando carros, ônibus, motos, gente, essas coisas que você já não deve estar reconhecendo.
– Tô falando sério. Escrevi uma coisa pra você. Preciso do mar.
– Pra direita. Mas olhe pra esquerda e veja o que acha?
Moça alta, morena escura, lábios grossos, batom rosa, minissaia, bustiê a meio-pau como bandeira chorando a decadência militar pós-Jair.
Peço ao quiosqueiro:
– Veja se a moça quer me acompanhar e beber ou comer alguma coisa.
Ela chega e me cumprimenta muito recatadamente.
– Sureleyde, prazer.
– Todo meu. Rui. Sente-se, por favor, sinta-se à vontade. Quer alguma coisa?
– Marô, sobrou um pouco do escondidinho de siri?
– Claro, pra você, faço um novo. Vai junto um traçado de vodka?
– Manda! E você, belezinha, de onde é?
– São Paulo. Conhece?
– Ainda não. É legal?
– Não. Falta o mar, o Marombeta, o samba, você.
Ó alma lusitana, perdida dentro de um corpo árabe destilado por ingerências da África Negra. Entro no traçado de vodca. Escrevo dois poemas, em sextilhas, usando as rimas “eta” de Marombeta e o “leyde” da simpática dama.
Duas horas depois, hora de fechar o quiosque, para completa segurança de Marombeta, e diante de minhas ameaças de nadar até um navio que mugia no horizonte, segui para o hotel.
No dia seguinte, um sábado, a ponte-aérea ainda me permitiu uma manhã de sol escaldante, um mergulho no mar revolto e gelado.
Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor
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