4 de junho de 2026

O dia em que Domingo Cavallo dolarizou a Argentina, por Luís Nassif

Há falta total de conhecimento das agências de risco e do mercado em geral sobre realidades econômicas de países.

Lembro-me bem. A Argentina se esvaindo em sangue, e a Standard & Poors do Brasil, dirigido por Regina Nunes, ofereceu um almoço para jornalistas econômicos com o responsável pela área da América Latina. Sua sede era Nova York.

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Durante o almoço, questionei suas avaliações sobre a situação argentina. Terminado o almoço, Regina viu se eu poderia recebê-lo em meu escritório, para entender melhor suas razões.

No dia seguinte, o gringo apareceu. As notícias do dia informaram que a S&P havia melhorado a nota da Argentina. Segundo me explicou o gringo, devido à intenção de Domingos Cavallo de proceder a mais um ajuste fiscal seguido da dolarização.

Disse-lhe que era loucura. A Argentina se esvaía em sangue. Como obrigá-la a mais um ajuste fiscal? Seria loucura! E como impor a dolarização, tirando qualquer possibilidade do país recorrer a políticas monetárias ativas.

O gringo respondeu que era o caminho recomendado por todos os economistas. Rebati, dizendo que esses economistas não tinham o menor conhecimento sobre realidade econômica e garanti que, em menos de um mês, a economia argentina explodiria.

Errei! A explosão ocorreu uma semana depois.

O encontro confirmou minha percepção sobre a falta total de conhecimento das agências de risco e do mercado em geral sobre realidades econômicas de países.

Quando houve a abertura total para o fluxo de capitais, as agências de risco tornaram-se a bússola. Mas, para transitar por várias economias, os operadores de mercado necessitam de fórmulas simples e repetitivas – se fez ajuste fiscal, compre; se não fez, venda – pouco importam as características de cada economia e os desdobramentos de cada decisão. O que importa é o aqui e o agora. Seu grande desafio é seguir (às vezes se antecipar) a maioria. Se a maioria compra, os ativos sobem; se a maioria vende, os ativos caem. Para o operador, só interessa esse movimento imediato.

As decisões das agências de risco significam apenas o assobio que direciona a matilha na direção pretendida.

Por isso, cada vez que ministros e mídia celebram a melhoria ou lamentam a piora da classificação brasileira nos ratings, mais reforça a impressão de que uma das facetas mais explícitas do subdesenvolvimento é as emulação de padrões de análise de outros países, sem nenhuma forma de compreensão sobre a natureza do organismo econômico brasileiro.

Equivale ao médico que estudou na Alemanha e passa a ministrar ao corpo subnutrido de um retirante a mesma dosagem aplicada a um alemão parrudo.

O que reforça a ideia de que, se o preço da liberdade é a eterna vigilância, o preço do subdesenvolvimento é a eterna ignorância.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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2 Comentários
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  1. Mário Mendonça

    19 de agosto de 2023 8:05 am

    O abutres novamente fazendo da América latrina seu quintal!

  2. Robson Santos Dias

    19 de agosto de 2023 10:33 am

    Ou seja, provavelmente essa versão portenha do bolsonarismo, confirmada sua eleição, terá apenas dois caminhos possíveis: ou se submete à realidade e não cumpre suas tresloucadas promessas – o que pode lhe chamuscar junto aos eleitores enraivecidos que lhe devotam confiança. Não sabemos se Javier Milei conseguirá emular o original brasileiro na formação deu uma seita; ou caso tente levar à frente o delírio, veremos reeditada a insubordinação popular que fez a Argentina trocar 5 presidentes em poucas semanas.

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