4 de junho de 2026

Argentina: Milei atrapalha entrada do país no Brics com efeitos na expansão do bloco

Para o bloco, a dinâmica da política doméstica precisa ser levada em consideração aos ingressos. Especialistas apontam mais problemas

O político de extrema-direita Javier Milei venceu as prévias argentinas, chegando vitorioso à disputa das eleições de outubro, e o efeito para o país é o de uma tormenta, o suficiente para gerar insegurança na política doméstica e enfraquecer a busca da Casa Rosada por alianças internacionais para melhorar a sua economia.   

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No momento em que o Brics, coalizão de economias emergentes formada por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, inicia as discussões de expansão em sua 15ª cúpula, em Joanesburgo, os maiores debates dentro do tema se aderiram à candidatura da Argentina.

O presidente argentino, Alberto Fernandez, cancelou planos de viajar à África do Sul para pleitear a adesão da Argentina ao lado de outros 30 países ao organismo internacional. Fontes da Presidência disseram que Fernández cancelou a viagem planejada após os resultados desfavoráveis ​​das eleições primárias de 2023.

A ascensão de Milei pode não ter prejudicado apenas a candidatura do país como também renovado um senso de cautela sobre a admissão de novos membros aos Brics. Para o bloco, a dinâmica da política doméstica dos países precisa ser levada em consideração para novos ingressos.

Ataques ao Brasil e à China 

O cenário de insegurança gerado está também diretamente ligado a como o candidato extremista argentino se referiu a dois gigantes do Brics: Brasil e China. Com Milei na Presidência, o pior cenário seria a Argentina entrar agora e sair em alguns meses por conta da postura agressiva e ultraliberal do atual candidato.

Milei fez comentários beligerantes sobre o Brasil, ameaçou se retirar do Mercosul e sugeriu que pode congelar as relações diplomáticas com a China. Suas declarações representam um problema para a candidatura da Argentina dado o risco de que ele possa, se eleito, tratar o bloco de forma inadequada.

 “Isso vai contra o interesse de todos os membros do bloco e não há solução ainda. Como isso deve ser abordado continua sendo o cerne da questão”, explica Karin Costa Vazquez, membro do Centro para a China e Globalização, em Pequim. 

O Brics pode até querer o ingresso da Argentina, dada a influência do país em outros blocos mundiais, como o G20, mas Vazquez acredita que os riscos que o país pode representar para o grupo, em caso de vitória da extrema-direita, pode levar a uma abordagem mais cautelosa da expansão do bloco.

Argentina era forte candidata 

Vazques disse que, ao contrário da maioria dos outros 23 países que solicitaram adesão ao grupo, a Argentina não está sob sanções nem enfrenta isolamento internacional. A analista entende que seria uma candidatura das mais fortes, se comparado com países como a Arábia Saudita, uma ditadura.  

O fato é que pela primeira vez em 13 anos – a África do Sul ingressou em 2010 – o grupo está considerando expandir suas fileiras. Mesmo com a sua resistência desde 2021, o Brasil, que teme um Brics antiocidental afastando-se da Europa e EUA, vinha defendendo o ingresso da Argentina ao Brics. 

A Argentina sofre com uma inflação de 60% só este ano, uma desvalorização significativa do seu peso e o refinanciamento de uma dívida de US$ 46 milhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Fernandez sabe que a economia precisa melhorar para a Argentina não ficar nas mãos da extrema-direita. 

Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Fernandez viu uma mudança no quadro e o presidente brasileiro, pela primeira vez, falou abertamente a favor da entrada da Argentina no grupo entre os cinco candidatos latino-americanos e caribenhos – Bolívia, Cuba, Honduras e Venezuela foram os outros.

Interesses no Brics

O interesse da Argentina em ingressar no Brics é motivado principalmente por sua necessidade de financiamento alternativo para projetos de infraestrutura. Vazquez observou que a adesão plena também pode dar a Buenos Aires acesso ao Arranjo Contingente de Reservas do Brics. 

Este programa oferece opções aos países membros que enfrentam pressão em seu balanço de pagamentos e pode fornecer ajuda financeira significativa ao interessado, problema enfrentado pela Argentina que poderia ter uma solução com o ingresso ao Brics.

As negociações na cúpula, em Joanesburgo, devem incluir o anúncio de requisitos específicos para adesão de novos integrantes ou revelar um pacote de regras, junto com a identificação dos primeiros candidatos pré-aprovados para iniciar o processo de admissão.

Problema não é apenas Milei

Jorge Heine, ex-embaixador do Chile na China, Índia e África do Sul, declarou ao South China Morning Post que a adesão pode trazer benefícios diplomáticos, mas a percepção de que os Brics estão lentamente se tornando “um clube antiocidental” complicando as renegociações da Argentina de sua dívida de US$ 46 bilhões com o FMI, onde Washington tem poder de veto.

A questão, disse Heine, vai além de Milei. Mesmo entre os políticos progressistas de Buenos Aires, observou ele, não há consenso sobre se a Argentina deve ingressar no Brics. Heine disse que, entre a cautela dos membros do Brics e a oposição de alguns argentinos, ele estava cético quanto à adesão imediata.

“Acho que a possibilidade de a Argentina ingressar no Brics, pelo menos no curto prazo, diminuiu consideravelmente”, disse.

Jorge Heine, ex-embaixador do Chile

Seus temores são compartilhados por Bernabe Malacalza, pesquisador sênior do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas da Argentina, que disse ao South China Morning Post que o país se candidatou ao Brics sem nenhuma discussão interna sobre os propósitos da adesão e sem traçar estratégias.

“O foco central deve ser o fortalecimento de um processo de desenvolvimento nacional com contribuições estatais significativas para a ciência e tecnologia”, afirmou. Malacalza disse não achar que o possível resultado eleitoral da Argentina seja um impedimento ao seu ingresso. 

O pesquisador acredita que o Brics “precisa incorporar mais atores, pois perdeu foco e coesão ao longo do tempo”. Na verdade, disse ele, Buenos Aires precisaria considerar os riscos que uma adesão ao Brics representaria, devido ao “crescente domínio chinês” que transformou o bloco em mais uma peça de sua política externa. 

Com informações do South China Morning Post e Pagina 12

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Renato Santana

Renato Santana é jornalista e escreve para o Jornal GGN desde maio de 2023. Tem passagem pelos portais Infoamazônia, Observatório da Mineração, Le Monde Diplomatique, Brasil de Fato, A Tribuna, além do jornal Porantim, sobre a questão indígena, entre outros. Em 2010, ganhou prêmio Vladimir Herzog por série de reportagens que investigou a atuação de grupos de extermínio em 2006, após ataques do PCC a postos policiais em São Paulo.

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