1 de julho de 2026

Uma fábula sobre jornalismo instigativo brasileiro, por Fábio de Oliveira Ribeiro

O barulho da tampinha sendo removida da garrafa de Heineken 600ml soltou a língua do amigo do mentiroso.

Uma fábula sobre jornalismo instigativo brasileiro

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

Dois amigos que não se viam há muito tempo se encontram num bar em Copacabana. Um deles, disse seriamente ao outro:

– Semana passada fiquei sabendo algo realmente interessante.

Após uma pequena pausa para se certificar de que o colega estava prestando atenção nele e não na belíssima ruiva seminua que havia passado na porta do bar.

– Em agosto de 1642, meses antes de Isaac Newton nascer, em Salvador-Bahia, um brasileiro conhecido pela sua esperteza ficou pensando na atração à distância dos corpos enquanto descansava à sombra de uma jaqueira. Ele poderia ter se tornado o físico mais importante da História da humanidade se uma jaca verde grande não tivesse caído em sua cabeça.

Impassível, o interlocutor sorveu de uma vez só a cerveja gelada restante no seu copo e balançou a cabeça. Quando eram colegas de sala no Colégio Santo Inácio, um deles era conhecido por ser mentiroso contumaz e o outro não gostava mais de ouvir mentiras do que de contá-las.

– Você não acreditou no que eu disse?

– É claro que acreditei. Mas você contou apenas o final dessa tragédia histórica. A parte mais interessante você omitiu ou não ficou sabendo.

– Que parte?

– A que explica como aquela jaca verde matou o pensador baiano impedindo-o de ficar famoso. Se você pagar a próxima cerveja eu conto tudo com detalhes.

O barulho da tampinha sendo removida da garrafa de Heineken 600ml soltou a língua do amigo do mentiroso.

– Todo mundo sabia que aquele pensador baiano gostava de descansar à sombra daquela jaqueira. Essa informação crucial foi utilizada contra ele pelo general Heleno Braga Mourão Villas Bôas. Os dois se tornaram desafetos porque o pensador havia criticado publicamente o militar chamando-o de pratiota.

– Pratiota?

– Sim “pratiota”, ou seja, militar mais comprometido com seus interesses mesquinhos do que com os interesses da Colônia. Continuando… O militar poderia até perdoar a ofensa, mas então o pensador interferiu na relação entre o general e a escravaria dele.

– O que aconteceu?

– O general Heleno Braga Mourão Villas Bôas nasceu com uma grande propensão ao sadismo. Quando criança ele se esforçava em segredo para apanhar moscas e aranhas vivas. Depois ele cuidadosamente arrancava as asas das moscas e duas pernas de cada uma das aranhas. Terminada essa tarefa, o garoto colocava os insetos bem próximos no chão para ver a batalha épica entre as moscas que não podiam fugir voando e as aranhas pernetas impossibilitadas de saltar sobre suas presas. À medida que foi crescendo, aquele moleque malvado passou a fazer o mesmo diante dos amigos incentivando-os a apostar nas moscas ou nas aranhas…

A Heineken 600ml estava esquentando, então a conversa esfriou. Após tomar o conteúdo do copo e enchê-lo novamente, o contador da história do pensador baiano perguntou ao amigo:

– O que você em feito da vida?

– Eu sou empreendedor no ramo de segurança e entretenimento. E você, tem feito algo interessante?

– Na verdade minha vida é muito monótona. Eu sou apenas um faxineiro de luxo do jornal O Globo. – após dizer isso, ele retomou o fio da narrativa – Dizem que o cadete Heleno Braga Mourão Villas Bôas fez na escola militar a mesma coisa que fazia quando era criança. Mas os interessados em ver uma guerra de insetos mutilados tinham que apostar em dinheiro. As moscas e aranhas obviamente não recebiam nada, razão pela qual uma fonte histórica segura informa que foi assim que o general começou a fazer fortuna. Aliás, na turna dele vários cadetes pertenciam às famílias nobres mais ricas do Rio de Janeiro.

– Então tá… Mas o que foi que aconteceu? – perguntou o outro com desdem.

– Depois que se formou, Heleno Braga Mourão Villas Bôas foi designado para ocupar um posto em Salvador, onde fez carreira e fortuna seduzindo velhotas viúvas endinheiradas e explorando o trabalho de escravos que ele maltratava como se fossem insetos. Certo dia, o pensador baiano estava a caminho da jaqueira. Passando em frente ao sobrado do general ele viu um dos negrinhos dele ser cruelmente punido. O menino franzino e mal alimentado havia deixado um litro de leite cair no chão. Isso bastou para que o general sacasse o canivete da algibeira cortasse uma falange do dedo mínimo da mão esquerda do pequeno escravo. Aquela punição era exagerada e cruel, então o pensador girou nos calcanhares e se dirigiu à Câmara dos Vereadores para reportar o ocorrido e exigir providências.

– Uau…

Nesse ponto devo esclarecer algo importante. É difícil dizer se o interlocutor estava ou não acreditando na história contada pelo amigo.

– Pois é… A coisa azedou mesmo entre os dois. O general defendeu com vigor o direito dele de punir o negrinho e a Câmara dos Vereadores arquivou o caso. Mas o pensador fez questão de denunciar Heleno Braga Mourão Villas Bôas ao juiz insistindo que ele fosse punido com base num regulamento real que impedia os colonos de maltratar os indígenas e que, segundo o pensador, poderia ser aplicado de maneira analógica ao caso do escravinho mutilado. Amigo do general, o juiz não apenas descartou a denúncia como impôs uma pena pecuniária àquele pensador ousado e libertino que havia tentado fazer as engrenagens da repressão colonial se voltarem contra um homem brando de bem.

Supondo que a história não havia acabado, o ouvinte apenas tomou cerveja e aguardou o amigo continuar.

– Ainda insatisfeito com a solução do caso, na noite anterior ao acidente fatal o general Heleno Braga Mourão Villas Bôas chamou o negrinho e conferiu a ele uma missão militar importantíssima: em troca do que faria o pequeno escravo ganharia uma moeda de ouro e um canivete. Quando o galo cantou, o negrinho levantou, comeu um pedaço de mandioca cozida e foi se empoleirar na jaqueira. Ele ficou escondido na copa daquela árvore até o pensador baiano chegar e se sentar para meditar e cochilar na sombra. O resto você pode presumir pois conhece o resultado final.

A Heineken 600ml acabou e os dois se despediram. Um dos homens foi dar plantão no puteiro em que trabalhava como cafetão e segurança das putas de um amigo. O outro se dirigiu à sede do jornal O Globo, onde atuava como jornalista instigativo.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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