Uma fábula sobre jornalismo instigativo brasileiro
por Fábio de Oliveira Ribeiro
Dois amigos que não se viam há muito tempo se encontram num bar em Copacabana. Um deles, disse seriamente ao outro:
– Semana passada fiquei sabendo algo realmente interessante.
Após uma pequena pausa para se certificar de que o colega estava prestando atenção nele e não na belíssima ruiva seminua que havia passado na porta do bar.
– Em agosto de 1642, meses antes de Isaac Newton nascer, em Salvador-Bahia, um brasileiro conhecido pela sua esperteza ficou pensando na atração à distância dos corpos enquanto descansava à sombra de uma jaqueira. Ele poderia ter se tornado o físico mais importante da História da humanidade se uma jaca verde grande não tivesse caído em sua cabeça.
Impassível, o interlocutor sorveu de uma vez só a cerveja gelada restante no seu copo e balançou a cabeça. Quando eram colegas de sala no Colégio Santo Inácio, um deles era conhecido por ser mentiroso contumaz e o outro não gostava mais de ouvir mentiras do que de contá-las.
– Você não acreditou no que eu disse?
– É claro que acreditei. Mas você contou apenas o final dessa tragédia histórica. A parte mais interessante você omitiu ou não ficou sabendo.
– Que parte?
– A que explica como aquela jaca verde matou o pensador baiano impedindo-o de ficar famoso. Se você pagar a próxima cerveja eu conto tudo com detalhes.
O barulho da tampinha sendo removida da garrafa de Heineken 600ml soltou a língua do amigo do mentiroso.
– Todo mundo sabia que aquele pensador baiano gostava de descansar à sombra daquela jaqueira. Essa informação crucial foi utilizada contra ele pelo general Heleno Braga Mourão Villas Bôas. Os dois se tornaram desafetos porque o pensador havia criticado publicamente o militar chamando-o de pratiota.
– Pratiota?
– Sim “pratiota”, ou seja, militar mais comprometido com seus interesses mesquinhos do que com os interesses da Colônia. Continuando… O militar poderia até perdoar a ofensa, mas então o pensador interferiu na relação entre o general e a escravaria dele.
– O que aconteceu?
– O general Heleno Braga Mourão Villas Bôas nasceu com uma grande propensão ao sadismo. Quando criança ele se esforçava em segredo para apanhar moscas e aranhas vivas. Depois ele cuidadosamente arrancava as asas das moscas e duas pernas de cada uma das aranhas. Terminada essa tarefa, o garoto colocava os insetos bem próximos no chão para ver a batalha épica entre as moscas que não podiam fugir voando e as aranhas pernetas impossibilitadas de saltar sobre suas presas. À medida que foi crescendo, aquele moleque malvado passou a fazer o mesmo diante dos amigos incentivando-os a apostar nas moscas ou nas aranhas…
A Heineken 600ml estava esquentando, então a conversa esfriou. Após tomar o conteúdo do copo e enchê-lo novamente, o contador da história do pensador baiano perguntou ao amigo:
– O que você em feito da vida?
– Eu sou empreendedor no ramo de segurança e entretenimento. E você, tem feito algo interessante?
– Na verdade minha vida é muito monótona. Eu sou apenas um faxineiro de luxo do jornal O Globo. – após dizer isso, ele retomou o fio da narrativa – Dizem que o cadete Heleno Braga Mourão Villas Bôas fez na escola militar a mesma coisa que fazia quando era criança. Mas os interessados em ver uma guerra de insetos mutilados tinham que apostar em dinheiro. As moscas e aranhas obviamente não recebiam nada, razão pela qual uma fonte histórica segura informa que foi assim que o general começou a fazer fortuna. Aliás, na turna dele vários cadetes pertenciam às famílias nobres mais ricas do Rio de Janeiro.
– Então tá… Mas o que foi que aconteceu? – perguntou o outro com desdem.
– Depois que se formou, Heleno Braga Mourão Villas Bôas foi designado para ocupar um posto em Salvador, onde fez carreira e fortuna seduzindo velhotas viúvas endinheiradas e explorando o trabalho de escravos que ele maltratava como se fossem insetos. Certo dia, o pensador baiano estava a caminho da jaqueira. Passando em frente ao sobrado do general ele viu um dos negrinhos dele ser cruelmente punido. O menino franzino e mal alimentado havia deixado um litro de leite cair no chão. Isso bastou para que o general sacasse o canivete da algibeira cortasse uma falange do dedo mínimo da mão esquerda do pequeno escravo. Aquela punição era exagerada e cruel, então o pensador girou nos calcanhares e se dirigiu à Câmara dos Vereadores para reportar o ocorrido e exigir providências.
– Uau…
Nesse ponto devo esclarecer algo importante. É difícil dizer se o interlocutor estava ou não acreditando na história contada pelo amigo.
– Pois é… A coisa azedou mesmo entre os dois. O general defendeu com vigor o direito dele de punir o negrinho e a Câmara dos Vereadores arquivou o caso. Mas o pensador fez questão de denunciar Heleno Braga Mourão Villas Bôas ao juiz insistindo que ele fosse punido com base num regulamento real que impedia os colonos de maltratar os indígenas e que, segundo o pensador, poderia ser aplicado de maneira analógica ao caso do escravinho mutilado. Amigo do general, o juiz não apenas descartou a denúncia como impôs uma pena pecuniária àquele pensador ousado e libertino que havia tentado fazer as engrenagens da repressão colonial se voltarem contra um homem brando de bem.
Supondo que a história não havia acabado, o ouvinte apenas tomou cerveja e aguardou o amigo continuar.
– Ainda insatisfeito com a solução do caso, na noite anterior ao acidente fatal o general Heleno Braga Mourão Villas Bôas chamou o negrinho e conferiu a ele uma missão militar importantíssima: em troca do que faria o pequeno escravo ganharia uma moeda de ouro e um canivete. Quando o galo cantou, o negrinho levantou, comeu um pedaço de mandioca cozida e foi se empoleirar na jaqueira. Ele ficou escondido na copa daquela árvore até o pensador baiano chegar e se sentar para meditar e cochilar na sombra. O resto você pode presumir pois conhece o resultado final.
A Heineken 600ml acabou e os dois se despediram. Um dos homens foi dar plantão no puteiro em que trabalhava como cafetão e segurança das putas de um amigo. O outro se dirigiu à sede do jornal O Globo, onde atuava como jornalista instigativo.
Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.
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