do Observatório de Geopolítica
No Tribunal com a própria mãe
por Felipe Bueno
Imagine a angústia de um desagradável encontro com a própria mãe num tribunal.
Naturalmente este espaço não é dedicado às últimas notícias sobre a relação da atriz Larissa Manoela com seus pais.
Falo de uma progenitora maior, de todos nós, a Mãe Natureza, que há tempos anda insatisfeita com o nosso comportamento.
Como toda mãe clássica, não deixa de tentar orientar, mas em geral ignoramos seus apelos.
Recentemente, o povo equatoriano decidiu em referendo que não quer mais explorar petróleo no Parque Nacional Yasuní, no leste do país, dentro da porção amazônica local.
A vitória foi apertada: 58,97% dos votantes defenderam a suspensão dos trabalhos.
Importante esclarecer que não se trata de impedir algo novo, mas suspender uma atividade em andamento: a operação no chamado Bloco 43 corresponde a 12% da produção diária de petróleo do Equador.
Vale lembrar, por outro lado, a seriedade com que o país legalmente trata o tema: desde 2008, a Constituição do Equador garante a possibilidade jurídica de que a Natureza, Pachamama, possa ser defendida com a letra fria da lei, mostrando que o mundo real, quando o assunto é preservação do Meio Ambiente, pode ser um pouco mais do que apertos de mão, discursos e metas distantes.
Não obstante, governos são apenas retratos de momento; podem representar tanto os mais evoluídos como os mais retrógrados elementos de um povo.
E os atuais tomadores de decisão do Equador já sinalizaram que podem ignorar os resultados da consulta popular.
Para além da situação ecológica de um país vizinho que tem tanto em comum com o Brasil, abrem-se várias janelas de discussão.
Uma, por exemplo, é o próprio valor dado pelo governo, ou melhor, pelo Estado, à vontade do povo. Conceitos como soberania e democracia passam rapidamente pela nossa memória. Talvez estejamos com alguma janela mental aberta e um vento tenha feito voar algumas lembranças, um retrato de Rousseau ou de Montesquieu impresso em algum livro velho.
Outra é a certeza de que a luta pela saúde do planeta – que vem a ser a nossa própria saúde, ainda que muitos e muitas não tenham notado – demanda permanente estado de alerta. Quinze anos de vigência de um estatuto são garantia de manutenção de direitos adquiridos?
Não, sabemos que não.
De qualquer forma, fica o conselho: ao passar por Quito nas suas próximas férias, recomenda-se cuidado ao, durante aquela conversa de elevador, culpar a Natureza pelo calor no inverno ou pelo frio no verão.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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