3 de junho de 2026

Crônica do amor por um fio.

Em um texto pungente, Elio Gaspari declara que seu amor a Aécio Neves resiste a deslizes patrimonialistas, mas não a uma imperial falta de explicação.

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Quando li o texto de Elio Gaspari na Folha de 30/07/2014 – “A impaciência imperial de Aécio”, um frio passou-me pela espinha.

A expressão “Às favas os escrúpulos…” recordou-me o momento em que a ditadura de 64 passou de uma ditadura envergonhada para uma ditadura escancarada. Os depoimentos de coronéis depravados falando de cadáveres mutilados e “desaparecidos” bem mostram o quanto escancarada foi.

Mas não, não se tratava de um texto histórico-jornalístico como outros da brilhante lavra desse jornalista italiano. Tratava-se, antes, de uma súplica de amor, de um amor que quer continuar sendo, “apesar de tudo”.

“Às favas os escrúpulos com a história do aeroporto de Cláudio. Aécio poderá impedir que o PT se mantenha no poder por 16 anos, e isso basta”.

Nele, Gaspari relembra que já amou Lula, mas isso foi quando Lula era um pau-de-arara, um retirante nordestino, não um torturado dos porões, entenda-se. Tal amor, porém, não resistiu a vê-lo em aviões de carreira. Até aceitaria vê-lo em um fusca, mas em jatinhos de empreiteiras (sic) foi demais.  A esperança era de vidro e se quebrou”.

Enamorou-se, então, de Aécio Neves, apesar de sua “visão patrimonialista do poder”.

Tal se dá, confessa Elio, “porque não engole as explicações do comissariado para o mensalão, as petrorroubalheiras e o aparelhamento do Estado pelos petistas”.

Petistas foram julgados e condenados em um julgamento de exceção – já que os mesmos critérios não se aplicaram posteriormente aos peessedebistas. Os réus da AP 470 estão cumprindo pena. As “petrorroubalheiras”, Elio não explica o que sejam e, se se refere à compra da Refinaria de Passadena, de qualquer sorte, tanto o Procurador Geral da República quanto o TCU já se manifestaram a respeito e, ambos, isentaram o governo Dilma de responsabilidades. E quanto ao aparelhamento do Estado, estranho seria se os petistas, após vencerem as eleições, chamassem a oposição para governar.

Mas, explicações racionais não satisfazem a Elio, para ele, todos esses casos ainda estão guardados no “gavetão de casos pendentes”.

O rancor de Elio para com o PT é profundo. E, tanto quanto o amor por Aécio, rancor não se racionaliza, sofre-se.

Mas mesmo esse amor sofrido está agora abalado. Aécio se recusa a dar explicações sobre o aeroporto de Cláudio. O aeroporto em si, o favorecimento pessoal, pouco importa a Gaspari, mas a dúvida que a falta de explicações traz o corroi. Comentando a postura de Aécio em relação a isso, Elio Gaspari se entrega:

“De novo?” e “está tudo esclarecido” são impaciências imperiais. A pista de Cláudio incomoda, mas deriva de uma visão patrimonialista do poder. A impaciência imperial é bem outra coisa”. 

E, claro, “quando um candidato à Presidência da República veste o manto da impaciência imperial, a vítima de sua atitude é a esperança dos outros”.

Que Aécio escute o lamento de Elio, que o procure, que beije suas faces e lhe dê, mesmo que sejam, aquelas desculpas esfarrapadas que o amor por um fio aceita para se manter vivo. 

Afinal, para Elio Gaspari, quando se trata de manter viva a esperança, “há sempre um momento em que pode ser preferível mandar às favas alguns escrúpulos”.

Crônica de um amor sem escrúpulos.

Aparentemente, o abalo no caso de amor entre Gaspari e Aécio se encaminha para uma reconciliação. Um romântico incorrigível, Aécio ouviu os lamentos de Gaspari e em 31/07/2014, na Folha, com o texto A verdade sobre o aeroporto retribuiu os esforços de Gaspari para manter a relação.

As explicações pedidas estão dadas. O imperial se curvou as exigências do ser amado.

“Sei que todo homem público tem uma obrigação e um direito: a obrigação de responder a todo e qualquer questionamento, especialmente os que partem da imprensa. E o direito de se esforçar para que seus esclarecimentos possam ser conhecidos”.

Seja lá o que Aécio queira dizer com “o direito de se esforçar”, acredito que todo homem público tem a obrigação de responder a questionamento de sua consciência, da lei e de seus eleitores, em especial, dos seus eleitores. Aécio, sabendo a quem fala, dedica essa especialidade à imprensa. Gaspari deve ter ficado especialmente lisonjeado.

No mais, embora jure falar a verdade, o texto traz, quando muito, meias-verdades, talvez mentiras inteiras.

“Com as obras, o governo de Minas Gerais transformou uma pista precária em um aeródromo público. Para uso de todos”.

Um aeroporto tão público que as chaves do cadeado ficam na mão do tio-avô de Aécio, aliás, o antigo proprietário das terras onde fica a o tal aeroporto. E para uso de todos tanto quanto todos possa se referir ao próprio Aécio, já que não é de conhecimento que o povo de Cláudio use ou tenha condições de usar o dito aeródromo.

“As acusações de benefício à minha família foram esclarecidas uma a uma”.

Claro está que não, mas que importa isso a Gaspari. As explicações pedidas foram dadas.

E isso basta para uma amor sem escrúpulos.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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