do Observatório de Geopolítica
Noé X Bibi
por Felipe Bueno
Recentemente, em dois textos aqui neste espaço, tive a oportunidade de colocar em discussão tanto o fracasso dos Acordos de Oslo, então completando trinta anos de assinatura, como a falta de perspectiva de que a ONU consiga contribuir de maneira sólida para resolver os conflitos em andamento no planeta.
Eis que veio o sábado, 7 de outubro, e com ele mais uma demonstração de que nós, pessimistas, temos razão.
Movidas por inúmeras emoções, pessoas na mesma hora começaram outro ataque terrorista, virtual e planetário: os campos de batalha foram as redes sociais, e as armas, os primeiros argumentos que apareceram ao redor, em geral facilmente contornáveis num diálogo, mas com poder de destruição inquestionável nas arenas digitais.
Contra esses estilhaços de bombas e granadas a civilização ainda não sabe como agir.
E quem aperta o enter após cada pensamento provavelmente não pensa que, na prática, pode ganhar alguns likes, mas tem fôlego curto para o essencial.
Por exemplo: entender que, do ponto de vista de cada lado do conflito, toda ação é intrinsecamente legitimada, seja pelo Estado, seja pelo livro sagrado de cada um.
Mas as respostas da geopolítica estão na História e nas Relações Internacionais, não em escrituras.
Falando em papéis e pergaminhos, a depender do seu nível de confiança nos textos monoteístas, talvez tenhamos que culpar Noé por tudo o que ocorreu desde o dilúvio, posto que todos somos filhos dos filhos do pai multi centenário.
Crenças à parte, alguns pontos são essenciais.
Erra quem vitimiza Israel, erra quem idolatra o Hamas.
Porém erra também quem olha apenas para amigos, crianças, idosos e os indefectíveis “brasileiros em risco” apenas de um lado das cercas da Faixa de Gaza. Local onde, na prática, seus ocupantes têm a autonomia semelhante à de um presídio, a liberdade semelhante à de um campo de concentração.
A narrativa do “terrorismo” e da “surpresa” pode ser muito conveniente ao gabinete de Bibi Netanyahu num momento em que Israel aumenta o peso de sua mão de ferro não só sobre os palestinos, mas também sobre a própria população, tentando alterar o sistema jurídico de acordo com interesses do governo vigente – assunto que também já abordamos aqui.
Pode também revelar uma inaudita incompetência e produzir uma reviravolta administrativa, quem sabe.
A supracitada ONU tem em alguma gaveta em Nova York um processo aberto em 2019 contra a opressão disfarçada de custódia do Estado israelense. Estamos no fim de 2023 e nada.
Por outro lado, as violentas respostas de Bibi são convenientes para o Hamas, que pode continuar manipulando a população civil palestina.
Eis alguns fatos para iniciar um diálogo adulto sobre o tema.
Se a conversa começar, como quase sempre acontece, com a admissão de que o Hamas é um movimento extremista, obrigatoriamente tem de passar pelo reconhecimento de que Israel faz terrorismo de Estado.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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