5 de junho de 2026

Os homoafetivos de hoje e as bichas de ontem, por Célio Golin

Enviado por Assis Ribeiro

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Do Sul 21

 
por Célio Golin
 
 
Neste artigo pretendo problematizar a forma como o “mundo gay” vivencia sua sexualidade atualmente em comparação com o modo de vida dos homossexuais (termo usado na época) das décadas de 60, 70 e 80. O desafio consiste em evidenciar essas diferenciações, traçar um paralelo entre homossexualidade e estigma social, levantando a questão da (sobre)vivência na margem¹ da sociedade.
 
Conversando com gays que viveram intensamente as décadas de 60, 70, 80 em Porto Alegre, um discurso recorrente nestes personagens é de que naquela época era muito mais prazeroso viver a homossexualidade. Dizem que era fácil e até romântico conhecer garotos que circulavam por locais “específicos”, onde o centro da cidade era território do todos, inclusive o Cais da Mauá com seus estivadores, e sem aquele muro horrendo era local de encontros e flertes. Não havia motéis que aceitavam dois homens e eram poucas as opções para encontros íntimos, mas as festas aconteciam sempre na casa de alguma amiga. Umas mais atinadas e com acues (dinheiro) tinham AP no centro para este fim, ou seja, fazer festas e orgias. A clandestinidade exigia que estes sujeitos tivessem seus alvos bem mais delimitados e certeiros dentro da arquitetura social da cidade e usando os códigos de caça da época.
 
Sabemos também que naquelas décadas o preconceito era muito maior e a exclusão também, e aí poderíamos pensar que ante esta afirmação, teríamos uma contradição em relação às declarações das bichas que falam com saudade e até nostalgia daquela época. Pois é, isto nos remete a pensar de como aqueles homossexuais puderam, mesmo numa maior clandestinidade e margem, encontrar arranjos e desfrutar desta situação. Na realidade a clandestinidade fazia com que a sociedade invisibilizasse estes sujeitos, o que os tornavam anônimos nos espaços públicos. Somente eles e seus pares sabiam o que estava acontecendo e é neste cenário que as histórias aconteciam.
 
A necessidade de busca de realização de nossos desejos e impulsos sexuais fazem com que tenhamos múltiplas estratégias de sobrevivência. Isto é atemporal, está em todos os momentos históricos. Buscar esta realização e negociá-la com nossas condições morais, existências, medos, nos coloca em situações extremamente desafiadoras. A margem não necessariamente é fator de limitação de nossos desejos, até em muitos casos, pode ser um fator de excitação e de enriquecimento de nossa condição existencial. Talvez, seja por isto que a grande maioria da bichas que viveram as décadas passadas, tavez de forma inconsciente tenham tanta certeza em suas afirmações de que naquele contexto era melhor viver a sua sexualidade.
 
Relatam que na época os rapazes, entre eles, muitos que serviam o quartel na Andradas, vinham até a Praça da Alfândega que na época era referencia social na cidade e ali em bares já mapeados se encontravam com as bichas, bebiam, jogavam conversa fora e depois saiam para encontros em locais mais íntimos. Contam as bichas mais tiranas que os bofes tinham namoradas, mas que não podiam transar com elas devido às regras morais da época. Isto fazia com que eles estivessem mais a disposição para encontros sexuais. Também relatam que davam algum presente pros bofes. É claro que estes presentes não significava somente um agrado, mas no imaginário deles, reafirmavam as diferenças dos papéis sexuais envolvidos nestas relações, sem comprometimento de sua masculinidade.
 
Neste universo, podemos pensar que a metade de nosso prazer, fetiche está em nossa capacidade de imaginação e o resto está no corpo do bofe…
 
Com as transformações que vieram já na década de 90 com o surgimento de um movimento organizado, visibilidade, conquista de direitos destes sujeitos emerge também uma nova lógica de espaço urbano, onde o mercado vai se adequando as novas exigências e nichos.
 
O cenário e a forma de viver a homossexualidade tiveram um impacto muito grande nesse período de transição, e na própria arquitetura da cidade. Os guetos vão perdendo seu espaço, como locais de encontro e referência política para estes sujeitos, um espaço de construção identitária que hoje já está comprometido no novo cenário que está posto. Sem falar nas conquistas de espaços com visibilidade pública das paradas, pela mídia que já reconhece a legitimidade destes sujeitos e, é claro atrelá-los ao consumo e ao mercado “sem sexo, sem promiscuidade”, higienizado. Construiu-se no imaginário da sociedade e dos próprios Gays o rompimento da figura do homossexual marginal, perigoso de antes e emergiu a figura do Gay urbano e de bom gosto.
 
A cidade já não é mais recortada pelos guetos, onde os frequentadores entravam rapidamente para não serem percebidos.  Hoje esta convivência ocupa outros lugares nos quais o público é mais miscigenado e plural, nos quais estes novos personagens que já não tem a referencia de décadas passadas. A lógica que ocupa tais espaços é a construção de um lugar para gay classe média, moderno, assimilado e padronizado dentro de uma nova urbanidade. Já não convivemos com as bichas loucas que antes faziam parte do cenário marginal, que não se adaptavam a esta lógica assimilada por padrões heterossexuais. Estas bichas loucas estavam sempre preparadas para dar respostas a qualquer situação de exclusão. Aprenderam com sua própria experiência a se posicionar e reagir a ataques que podiam vir de qualquer local e momento. Já não existe mais espaço para as loucas, bafonas. É bom registrar que as travestis ainda estão nesta margem, apesar dos avanços conquistados.
 
A internet colocou outros personagens, além dos gays higienizados neste universo e deixou as relações ainda mais facilitadas através de encontros furtivos e até arranjos maritais. Hoje já não temos mais “improvisações sexuais”, tudo já está muito claro e mapeado. O prazer é combinado por clique em celulares via aplicativos específicos e via satélite. As imagens e o bate papo dão a tônica da pegação, que se seguirá ou não.
 
Mas outro ponto fundamental neste debate nos remete a pensar as formas de afeto que as bichas procuram entre a lógica do prazer fortuito e o prazer legitimado, romantizado e possibilitado por esta nova conjuntura política. Tendo a pensar que esta adaptação conjugalidade nos moldes institucionais responde em parte a necessidade de legitimidade social e sexual. Pelo que vejo é uma procura que não encontra respostas, e que as negociações acabam criando relações funcionais para não dizer artificiais. Tudo para dar resposta a uma condição existencial pré-estabelecida, e que tem como norma e referência a heterossexualidade, que também não consegue responder as exigências sexuais e sociais.
 
Neste contexto é que surgiu o termo homoafetivo. Enquanto as bichas desajustadas estão à procura de prazer fortuito na margem, nos bancos de praças, parques, esquinas e ruas, as outras estão atormentadas por uma relação que lhes garanta prazer, segurança, estabilidade emocional e principalmente legitimação social. Em qualquer uma das situações postas, o preço a se pagar é sempre relativo ás exigências pessoais e sociais de cada sujeito, afinal somos produto da cultura, como bem dito pela sociologia e antropologia.
 
Por outro lado, sabendo que somos e seremos por muito tempo sujeitos desviantes, mesmo os assimilados, acredito que o prazer na margem possibilita a construção de um sujeito mais dono de si, autônomo e independente, na medida em que percebe o universo social e político da exclusão e dentro desta realidade consegue negociar, superar e enfrentar os dilemas existências, tendo em sua vivência sexual e social um prazer mais “real” e autentico, inclusive com a possibilidade de superar a síndrome da vitimização. O sujeito marginal tende a ter uma relação mais transparente e desafiadora consigo mesmo e com a sociedade.
 
Pois bem, neste processo de “conquistas” as amigas saudosistas, irenes, que já passaram dos 60, insistem em afirmar que hoje não existe mais glamour, reclamam que já não tem festas e bailes onde elas possam ir montadas, sentar numa mesa com toalha de tafetá, pedir um bom otim, (bebida de álcool) se sentir poderosas, e de preferência acompanhadas com um belo bofe fazendo a linha falso romântico. Ainda reclamam que as gays de hoje não sabem o que é bom, nem sabem se comportar em ambientes finos. Bom, o que resta, então, é ver como as novas gerações vão se posicionar frente a este novo mundo.
 
¹ – Quando uso a palavra margem, me refiro à situação de exclusão que pessoas vivem na sociedade a partir de sua condição de gênero, classe social, cor. A ideia de margem neste sentido está ligada à possibilidade destes sujeitos olharem para a cidade a partir do local social a qual vivem. Neste contexto há uma possibilidade de arranjos sociais de sobrevivência. Isto pode, para muitos, ser um fator de ganho existencial.
 
.oOo.
 
Célio Golin é militante do Nuances.

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2 Comentários
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  1. Sérgio T.

    12 de julho de 2014 1:52 pm

    Ao debate… Como sempre…

    Então anexo a este texto, um outro provocativo, irônico e inteligente… Vai dar bons debates aqui, rs.

     

    A fabulosa geração de gays que nasceu para ser tudo que ninguém quer

    Apropriam-se de termos, criam linguagem própria e um andar específico, que desconstrói as prisões do gênero. Se libertam dessa hipermasculinidade tão incensada e tão insensata, que se julga séria, mas foi inventada

    Por Fabricio Longo, do Os Entendidos

    (Reprodução)

    (Reprodução)

    Procuro cara assumido, sem complexo de inferioridade por ser gay, que curta o que quiser na cama, sem achar mais bonito ser ativo que passivo. Pode ser efeminado ou discretinho, só não pode reproduzir homofobia e menosprezar quem não é machão. E que tenha consciência social, sabendo que ainda há muitos direitos a conquistar, além de não ser racista e nem misógino. Se malhar, que seja por gosto e não por pressão externa. Que respeite a todos, sem julgar quem “se dá ao respeito” ou não.*

    Infelizmente, essa chamada foi inventada. A rigor, só vemos gays procurando bem-dotado-dominador-macho-sarado-fora-do-meio. Não é curioso que essas preferências sejam exatamente as estimuladas pelo machismo, e que no entanto a justificativa pelo desgosto por tipos diferentes seja sempre “nada contra, questão de gosto”? Que “gosto” é esse, que se molda em uma cultura de opressão?

    Homens são criados para continuar comandando o mundo. Da mamãe que faz questão de estender a toalha largada na cama, passando pela educação sexual que manda “pegar geral”. Pelo salário superior no mercado de trabalho, até o “direito” de reagir violentamente quando suas vontades ou crenças são desafiadas. Tudo gira em torno do macho. A construção da masculinidade segue padrões rígidos que vão da primeira roupinha azul até a obsessão pelo tamanho do pau. O problema é que essa construção é frágil, ameaçada por qualquer demonstração de “fraqueza”. E nesse idioma, o afeto – e qualquer coisa que seja lida como “feminina” – vira sinal de fragilidade ou emasculação.

    É por isso que o papel da BICHA é tão baixo, tão ofensivo. É o homem abrindo mão de alguns dos seus privilégios – é impossível abrir mão de todos, já que o gênero masculino os carrega por si – para se nivelar por baixo. É como se a bicha desafiasse a estrutura de poder somente por existir. E uma ameaça deve sempre ser eliminada, seja a socos e lampadadas, seja através da desumanização provocada pela exclusão social.

    Só que há gays que resistem. São bichas destruidoras mesmo, viu viado?

    São os homens que andam de salto ou com maquiagem, que respondem às ofensas com um arquear de sobrancelhas. São os lírous, que levantam suas patas e batem o cabelo – mesmo quando o picumã é imaginário – ao som de Beyoncé. São os funkeiros, que se jogam no chão de perna aberta. Não admitem mimimi homofóbico e VRÁÁÁ, fecham! O quê? O tempo, meu amor!

    O choro é livre e nada é mais hidratante que as lágrimas das inimigas. Apropriam-se de termos, criam linguagem própria e um andar específico, que desconstrói as prisões do gênero. Se libertam dessa hipermasculinidade tão incensada e tão insensata, que se julga séria, mas foi inventada. São os xingados, os agredidos, os não curtidos e não procurados. Eles são considerados uma vergonha e responsabilizados por todo o mal que nos aflige. Não “se dão ao respeito”. Por isso, esses caras lacram.

    Respeito não se pede e nem se conquista, é um direito universal. Desde a criação da identidade gay – essa caixa na qual foram colocados os mais variados tipos de homossexuais – existe uma guerra por aceitação. Um grito urgente de “estamos aqui, somos assim e fazemos parte da sociedade também”. Adequar-se aos padrões do mainstream talvez seja uma escolha válida em âmbito pessoal, para alguns, mas resistir ao status quo também é preciso. Não há nenhum desrespeito em não se deixar invisibilizar por normas machistas de comportamento e desejo.

    Ninguém quer esse TIPO de gay porque ele é viado, é bicha, é boiola, é baitola e mulherzinha. É o filho do vizinho. Se for nosso, é homossexual. Esse “gay ideal” que é um cidadão comum, sem trejeitos, que não faz alarde de sua vida e que jamais ofenderia a sociedade com demonstrações públicas de afeto. É aquele amigo culto que você nem diz que “por acaso é”. É aquele gay inofensivo que fica muito revoltado quando uma bichona joga sua reputação na lama.

    Para começo de conversa, a homofobia é culpada por privar os sujeitos de sua identidade. Sempre que o indivíduo homossexual faz alguma coisa, o julgamento é de que a homossexualidade é a causa. Se ele é criminoso, é porque esses viados são uns degenerados. Se ele é educado, é porque esses gayzinhos são tão bonzinhos. E isso faz tanto sentido quanto dizer que todo brasileiro é malandro…

    Ninguém foi educado para aceitar o diferente. Fomos educados a temer e a reprimir – às vezes com violência – o que ameaça a nossa zona de conforto. É por isso que nem os próprios gays aceitam sua diversidade. Acontece que nós somos muitos, todos diferentes. Aceita, que dói menos.

    Drags, gírias, lápis no olho, passos de dança… São gritos de resistência! É a cultura que lutou para que gays pudessem até se casar, adotar crianças e viver discretamente atrás de cercas brancas, e que agora se recusa a morrer engolida por suas conquistas. Todos querem aceitação, mas ela não pode vir com imposições. É para aceitar, não para tolerar.

    By the way, quem só come também é viado.

    Liberte-se, seja qual for o seu caminho. Nós não devemos nada por sermos quem somos. E isso é fabuloso!

     

    * Livremente inspirado no texto “A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo que um homem não quer”.

    http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/07/fabulosa-geracao-de-gays-que

  2. anarquista sério

    12 de julho de 2014 2:35 pm

    ALEXANDRE VIDAL PORTO
    Isso

    ALEXANDRE VIDAL PORTO

    Isso tem de mudar

    Presidentes de vários países se engajam publicamente na defesa dos direitos gays; a nossa presidente, não

    É sempre a mesma ladainha: representantes dos LGBT são recebidos no Palácio do Planalto. Têm uma conversa cordial. O governo declara sua preocupação com os direitos das minorias sexuais. Faz-se uma foto –em geral com a bandeira do arco-íris– e manda-se a notícia para as mídias sociais. Só isso. Tudo acaba aí.

    Ações concretas e políticas específicas para os homossexuais e transgêneros? Quase nada. Defesa pública dos direitos de igualdade? Quase nunca. Quando a situação vai melhorar? Não se sabe. Talvez no ano seguinte, no próximo encontro, sob forma de promessas vagas, que tampouco se cumprirão.

    É como se os direitos da população LGBT tivessem deixado de fazer parte da agenda política do país. A situação é particularmente frustrante depois de dois presidentes, FHC e Lula, que fizeram muito para avançar os direitos das minorias.

    No discurso oficial, o governo se diz amigo dos LGBT, mas parece alguém que se diz ser seu amigo, mas não quer ser visto com você.

    Internacionalmente, o Brasil, que já foi vocal na defesa desses direitos, deixou de apresentar no Conselho de Direitos Humanos da ONU um projeto de resolução sobre orientação sexual que tradicionalmente patrocinava. Independentemente de sua aprovação, o projeto era relevante, ao discutir a proteção das populações LGBT por instrumentos internacionais. No final de junho, o Brasil decepcionou mais uma vez: absteve-se na votação de um projeto de resolução apresentado pelo Egito com o objetivo de dificultar a proteção internacional das famílias LGBT. Os ativistas de direitos humanos reclamaram do voto brasileiro. Eles têm razão.

    Em uma votação, a abstenção só se justifica quando o que se decide não nos diz respeito. Não é o caso. Há centenas de milhares de famílias LGBT no Brasil. Elas existem e precisam de proteção internacional. O governo não pode se abster delas.

    (Em contraponto, o secretário-geral da ONU não se absteve: nesta semana, estendeu direitos aos cônjuges do mesmo sexo a todos os funcionários do Secretariado, independentemente de nacionalidade. Parabéns para ele.)

    Contudo, o símbolo mais bem acabado do descaso com que tem sido tratada a população LGBT é o próprio programa de governo para o próximo mandato presidencial protocolado pelo PT no Tribunal Superior Eleitoral. Nele,os LGBT são identificados –em uma única menção– com o termo “opção sexual”.

    Ora, qualquer um minimamente versado em direitos humanos sabe que quem fala em “opção sexual” está desinformado ou de má-fé.

    Não se trata de preciosismo linguístico. É que ninguém escolhe ser minoria sexual. Não é opcional, vem de fábrica. Qualquer garotinho de 10 anos sendo chamando de bicha pelos colegas de escola sabe disso.

    Presidentes de vários países se engajam publicamente na defesa dos direitos gays. A nossa presidente, não. Dois ou três encontros por ano não são nada se não se traduzem em apoio político e ação concreta. A população LGBT no Brasil foi deixada à míngua. Isso tem de mudar.

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