Dois críticos literários
por Walnice Nogueira Galvão
Há pouco o Sesc hospedou o Congresso Internacional Edward W. Said, por motivo dos 20 anos da morte desse grande intelectual. Vieram dos Estados Unidos para participar sua viúva e a filha, que fizeram comunicações e encantaram todo mundo.
Dominaram a cena da crítica literária a seu tempo Edward W. Said (1935-2003) e Susan Sontag (1933-2004). Os dois estão na raiz da renovação dos estudos não só literários mas culturais, sendo atribuída a eles a criação dos estudos pós-coloniais e de descolonização, vigentes ainda hoje. Chamaram a atenção para o multiculturalismo e a diversidade, tentando combater o etnocentrismo e a xenofobia. Assim, novas tendências do pensamento originaram-se na crítica literária e foram fertilizar outros campos do saber, a partir de dois diplomados em Letras e professores de literatura.
Ambos tinham perfil semelhante porque, pela primeira vez na História, os dois maiores críticos literários do país não eram de extração wasp, isto é, brancos de família tradicional vinda no Mayflower: ao contrário, tinham origem imigrante. E pertenciam a minorias: ela judia e gay, além de mulher, ele palestino-árabe-cristão. Por isso, sempre estiveram no epicentro de controvérsias. Não eram propriamente marginais, pois pertencentes a uma burguesia que lhes pôde propiciar escolas da Ivy League, as melhores. Outsiders, sim. E, se seria inexato dizer que são excluídos, sem dúvida são os sujeitos de uma inserção excludente, que aguça seu olhar e os faz produzir uma obra de alto teor crítico.
Quanto à formação, Edward W. Said é um egresso de Princeton e Harvard, tornando-se professor de literatura comparada na Columbia, por toda a vida. Enquanto Susan Sontag tem um percurso mais variado, com graduação em Berkeley e Chicago, seguidos por pós-graduação em Harvard e Oxford, afora a Sorbonne. O livro de Alice Kaplan Dreaming in French estuda o período de “finishing school” em Paris de três eminentes mulheres: afora Susan Sontag, Jacqueline Kennedy e Angela Davis.
Antes da judia gay e do palestino, o mais influente crítico literário norte-americano foi, indisputado e durante 30 anos, Edmund Wilson (1895-1972), que era um típico wasp. Homem de Princeton, ele levava a literatura a sério, combinando erudição com gosto apurado: um legítimo scholar. Foi o nome maior da cultura nos Estados Unidos e, como escrevia assiduamente para a mídia, sendo além disso crítico literário oficial da prestigiosa revista New Yorker, seu alcance era enorme. Denunciou o imperialismo, a Guerra do Vietnã e a Guerra Fria, sendo figura de proa da oposição em seu país.
Nesse ínterim, os ventos da História tinham mudado de direção e aberto a discussão sobre diversidade étnica e sexual, enquanto o feminismo arribava na segunda onda. Pode-se dizer então que, embora Edward W. Said e Susan Sontag tivessem formação em universidades de elite, sua origem os tornou intelectuais públicos mas divergentes, ou dissidentes e, de modo geral, encarados com critérios excludentes. Não excluídos, de modo algum, mas com uma inclusão que se poderia chamar de enviesada, ou problemática, enfim. E que vão saber muito bem como explorar, produzindo uma obra rebelde, fora de esquadro e inovadora.
Isto posto, ambos foram críticos literários e professores de literatura que fizeram carreira na Universidade e participaram intensamente dos debates de seu tempo, ministrando cursos, publicando livros e artigos.
Ainda mais, ambos, nem por serem grandes especialistas em literatura deixaram de se interessar por outras áreas do conhecimento. Susan Sontag tem livros clássicos sobre fotografia e sobre doença, área de estudos que ela praticamente inventou. Edward W. Said é autor de trabalhos obrigatórios sobre música e sua obra-prima é Orientalismo, que inclui muitas artes e saberes. Este livro, que subverteu o ângulo de visão, mostra como a alta tradição culta do Ocidente inventou a representação de um Oriente bárbaro e violento, para poder por contraste propor-se como fonte de toda civilização. Ele mesmo conta como ficou surpreso ante o sucesso do livro, que em pouco tempo estava traduzido para 50 línguas e esgotara sucessivas edições. E continua a pairar no horizonte da cultura.
Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP
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