5 de junho de 2026

Tudo para poucos: capitalismo fascista e a liberdade da violência, por Afonso Junior

Uma grande preocupação é a mistura entre políticas de guerra (a esfera do militar, com a dimensão do inimigo) e políticas de policiamento

Tudo para poucos: capitalismo fascista e a liberdade da violência

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por Afonso Junior

Nora Patrich, artista plástica argentina, convidada do nosso programa Em direção à Caminhada do Silêncio do GGN, inaugurou em 2006 seu monumento “Do céu os viram chegar” na Casa Rosada relembrando o Bombardeio da Praça de Maio em 16 de junho de 1955, quando 30 aviões da aviação naval argentina jogaram bombas sobre uma multidão que apoiava o presidente Juan Perón, matando ao menos 308 pessoas. Era o início de um golpe que fracassou. Em 2023 o monumento é declarado espaço de memória internacional pela UNESCO e adicionado a seu mapa mundial.

Agora, o influencer conservador Presto Felippo, também chamado de youtuber de extrema-direita, mobiliza uma campanha de ódio contra Nora, porque o governo estaria dando 25 milhões de pesos “a uma ultra K” (referindo-se aos Kirchner) para restaurar um monumento “patético”. O vídeo já teve 14.428 visualizações até hoje (10/12/2023). “O que me impressiona é que reclamem do dinheiro para a memória, mas não do dinheiro gasto em bombas para matar seu próprio povo”, diz Nora. El Presto foi processado por ameaçar, em 2020, por Twitter, a Cristina Kirchner com frases como: “Te resta pouco tempo”. Agressões anteriores lhe levaram à prisão por 30 dias. Brenda Uliarte, processada como coautora do atentado fracassado a Cristina, teria mantido um relacionamento íntimo com Presto Felippo conforme áudios vazados.

César ‘Chino’ Arakaki e Daniel Ruiz, foram processados por sua participação na enorme mobilização de 18 de dezembro de 2017 contra a reforma previdenciária (flexibilização do trabalho) que se votava no Congresso. A acusação é de “intimidação pública”. Em novembro deste ano, o juiz Feliciano Ríos ratificou os termos da sentença (de mais de 3 anos), apesar da clara impossibilidade de os acusados terem realizado o ato (o policial retirou a denúncia de agressão). Elsa Oshiro, integrante dos Familiares dos Desaparecidos do Coletivo Japonês vê a sentença como “uma forma de intimidar as pessoas para que não se manifestem”. O medo pode ser útil num momento em que se anuncia muitos cortes e estagflação (inflação com desemprego).

A “Unión Personal Militar Asociación Civil” emitiu um comunicado no qual solicitava o encerramento da Secretaria de Direitos Humanos da Nação da Argentina e atacou dois membros do corpo de peritos e um membro do corpo de advogados em Processos de Verdade e Justiça. A Secretaria respondeu afirmando que “o processo de Memória, Verdade e Justiça não é realizado apenas pelo governo nacional. Esta é uma política de Estado com a qual os três poderes estão comprometidos há 20 anos e pela qual somos reconhecidos em todo o mundo.”

Javier Milei, que afirmava que “o Estado é uma organização criminosa” e “os impostos são roubo”, andava enfrentando, mesmo antes da posse, a resistência de governadores, até mesmo de direita, que não gostaram de suas declarações, como aquela sobre o “fim das obras públicas”, que pode gerar diretamente 300 mil demissões. A formação do governo que começa foi cheia de idas e vindas, declarações contraditórias, com a ameaça de que o ex-presidente Maurício Macri se tornasse o presidente de fato, efeito, ao que parece, logo revertido por pressões dos membros do partido do presidente (La Libertad Avanza), que alguns chamam de partido-presidente, os quais conseguiram ao menos a presidência da Câmara dos Deputados com Martín Menem (sobrenome que para muitos argentinos é sinônimo da década neoliberal que “amam odiar”).

Menem afirmou, após o ataque a Cristina: “não lhes custa nada voltar a tentar enganar-nos… eles são e serão assim enquanto continuarmos a permitir… Pessoalmente, é-me muito difícil acreditar no Kirchnerismo porque em numerosas ocasiões faltaram com a verdade”. Suas declarações levaram o Legislativo oficialista a pedir sua demissão como deputado.

Afirma Daniel Moreira, empresário PYME (pequenas ou médias empresas): “Nós já vimos esse filme… Macri destruiu 25 mil PYMEs em 4 anos. Os funcionários dizem que o povo vai sofrer… Vai ser um industricídio… Nunca falou de indústria. Se abrirmos tudo, se acabam as obras públicas, acaba o mercado interno… 80% dos trabalhadores ficarão sem trabalho se fecham as empresas PYMEs. É como dizia Bolsonaro, morra quem tiver que morrer…”

Silvia Saravia, do partido de esquerda Libres del Sur, afirma: “A forma como é colocado tudo isso também importa. Ele fala nos ‘caídos’, como numa guerra. As pessoas votaram para que o ajuste fosse pago pela casta, pelos políticos, mas agora percebem que vão sofrer. O que será a ‘carteira aberta’ que promete para ‘os caídos’? Mais restaurantes populares? As pessoas querem trabalho”.

Uma grande preocupação – que no Brasil é fato há muito, com os resultados que conhecemos – é a mistura entre políticas de guerra (a esfera do militar, com a dimensão do inimigo) e políticas de policiamento (com seu foco em proteção, prevenção e segurança interna), o que parece sinalizar a escolha de Patricia Bullrich como ministra de Segurança (teve o mesmo cargo no governo Macri). O discurso de posse do presidente apontou ao país futuro: “Um país em que quem bloqueia a rua, violando os direitos dos seus concidadãos, não recebe assistência da sociedade. Coloque nos nossos termos: quem corta não recebe.”

É o velho choque de austeridade, com a repressão esperada dos protestos.

Segunda a economista Clara Mattei, professora da New School of Economic Research de Nova Iorque, que pesquisa a relação entre austeridade e fascismo, criando uma recessão, em tese, baixamos a inflação pois temos juros altos, menos trabalho, menos mobilização e trabalhadores aceitando piores condições de trabalho. As margens de lucro e controle de preços não serão foco de regulação e os trabalhadores vão sofrer para que sejam fracos politicamente. Mas a inflação disparou no supermercado depois dos resultados, porque a “liberdade” prometia lucros sem limites enquanto o programa de congelamento “Preços Justos” do governo Massa perdia autoridade.

Não por nada, Elon  Musk publicou na sua página no X, o velho Twitter, um vídeo em que Milei elogia o “liberalismo” e critica a ideia de justiça social. Muito adequado para quem pode querer o lítio das terras dos povos originários. Um Estado subsidiando o setor privado alimenta a teoria do super-homem branco, como se o melhor para o bem comum fosse empoderar os poderosos. Nada como repressão para ampliar a exploração.

Macri também praticamente solicitou na TV uma guerra civil: “Hoje existe um mandato popular muito profundo, liderado por jovens, que não vão ficar em casa se estes senhores começarem a fazer o que querem; se começarem a atirar toneladas de pedras. Os jovens vão defender a sua oportunidade.”

Macri tem seu grupo de juízes, que acabaram de adiar a eleição do Club Atlético Boca Juniors para impedir que o interior votasse, o que ajudaria a chapa macrista, alegando o feriado sabático.

Em diversas falas de Milei, de Macri e seu círculo aparece a expressão “argentinos de bem”, ecoando expressões da ditadura. Muita gente que votou nele fala sobre “os que vivem do Estado”. Comentam comigo sobre os “falsos indígenas, que querem terras que não são suas”. As campanhas de ódio são temperadas de misoginia, alguém me diz que Cristina dormiu com todo o Senado. Como afirmou a jovem cantora Lali Espósito, “realmente triste e perigoso votar em um Anti-Direito semelhante”.

Enquanto a liberdade avança, no bairro portenho de La Boca, no colégio religioso San Juan Evangelista, um grupo de ex-alunos do quarto ano viraliza uma série de stories de Instagram com um plano para estuprar e matar suas colegas por serem “feminazis”. Os manifestantes que não querem ver sua vida precarizada, contra quem investe Milei (“piqueteros”), já seriam subcidadãos, antipatrióticos?

A outra face de um Estado que favorece o império dos eleitos “de bem” é, como coloca Laila el-Haddad, jornalista e escritora palestina, “a luta diária para seguir humano e manter a dignidade quando se enfrenta sistemáticos esforços para despir você de sua humanidade”. 

Mas os erros da esquerda devem ser analisados. Se o delírio coletivo cria um fervor religioso nos “ajustáveis”, não menos fora da realidade estava o ex-presidente Alberto Fernández, que chegou a culpar a forma que eram feitas e respondidas as pesquisas pela rejeição do seu governo. Com Massa, o salário perdeu 9% de seu valor, apenas inferior à perda do governo Macri, que foi de 22%. O dólar “soja” e outras medidas foram vistas como ajuda às classes estabelecidas.

O historiador argentino Federico Finchelstein estudou a permanência da ideologia fascista na Argentina. Ele sintetiza o fascismo como política revolucionária de massas, nacionalismo extremo, estilo público que enfatiza a emoção, reivindicando relações hierárquicas, políticas  autoritárias  e  racistas, defesa  do  valor  regenerador  da  violência política… (Borges, 2009, p. 199).

A hegemonia cultural do pensamento reacionário, adocicado com a “liberdade”, vem de um manejo eficiente do medo e do sentimento de injustiça por grupos como a Rede Liberal da América Latina (Relial) e eventos como a Conservative Political Action Conference na região. Enquanto o Brasil vive o boicote do governo Lula pelo centrão e Banco Central autônomo, a infiltração nos cargos regionais da política da bala, que pensa a volta do autoritarismo militar, com exploração máxima do capital, a sombra da ameaça de uma ditadura eleita, a Argentina parece ressuscitar seu fascismo. Como disse Fiódor Dostoiévski em “Os Demônios”: “Partindo de uma liberdade ilimitada chega-se a um despotismo sem limites”.

Afonso Junior Ferreira de Lima – historiador, Mestre em Filosofia (PUCRS), doutorando UNB.

Referências:

de Azambuja Borges, J. (2009). O fascismo e as origens ideológicas da ditadura argentina. História Unisinos, 13(2), 198-202.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Bombardeio_da_Pra%C3%A7a_de_Maio

https://www.radionacional.com.ar/confirmaron-las-condenas-de-los-militantes-cesar-arakaki-y-daniel-ruiz/

https://www.argentina.gob.ar/noticias/repudio-al-pedido-de-cierre-de-la-secretaria-de-derechos-humanos-y-al-ataque-sus

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Milei calificó los impuestos como un “robo” y dijo que Ganancias es “un delirio” #tiktok #infobae #milei

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