do Observatório da DesInformação
Filosofia e conjunturas brasileiras: milweek ou milkshake?
por Claudia Wanderley
Filosofia
O mundo me condena e ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome!
Deixando de saber
Se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome?
Mas, a filosofia hoje me auxilia
A viver indiferente, assim!
Nesta prontidão, sem fim
Vou fingindo que sou rico
Pra ninguém zombar de mim!
Não me incomodo que você me diga
Que a sociedade é minha inimiga!
Pois, cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba
Muito embora, vagabundo!
Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro mas
Não compra alegria!
Há de viver eternamente
Sendo escrava dessa gente
Que cultiva hipocrisia!”
Composição: Noel Rosa, 1933
A filosofia, quando interessada pela vida em que estamos, interessada pelas tramas sociais e pelas relações que estabelecemos coletivamente… se liga com a política. Pensarmos juntos, publicamente e em linguagem acessível, é uma oportunidade de exercitar um diálogo voltado para conhecer o mundo. E isso pode nos ajudar na compreensão de nossa experiência atual como sociedade.
O que poderia acontecer se pedíssemos para várias pessoas interessadas no que se passa em diferentes frentes das conjunturas brasileiras para pensarem alguns temas que elencamos, visando o bem comum? Aconteceria – e já está acontecendo – um evento que chamamos atualmente de milweek, que para nós é um chamamento para o diálogo enraizado na realidade brasileira. E quer contribuir para o hábito de pensarmos juntos o que está se passando conosco.
As dinâmicas da desinformação, que é o motivo inicial para nos reunirmos, estão muito próximas de nós, nos distraindo do que de fato é importante, nos confundindo para não entendermos o que está acontecendo à nossa volta. Por vezes inclusive pautando temas [muitas vezes criados do nada] que se sustentam apenas por provocarem nossa indignação, capturarem nossa atenção e promoverem conflitos. Então queremos filosofar com quem quer filosofar, pensar o Brasil com quem está envolvido com a vida brasileira e mandar um “xô hipocrisia!” amplo, geral, irrestrito e um “viva a democracia!” junto com quem quer se integrar nos diálogos para o bem comum.
Como chegamos no jeito do MILWEEK?
Em 2004, pesquisando análise automática do discurso, me deparei com a questão do multilinguismo e da presença [ou seria melhor dizer da ausência] da diversidade linguística e cultural no espaço digital. Para termos uma ideia, das sete mil (7000) línguas vivas hoje, menos de cem (100) estão online, e a grande maioria desses idiomas que estão nas tecnologias em que usamos são europeus. O quadro não se modificou muito de 2004 para 2023, são relações de forças antigas que promovem este tipo de exclusão. Todas essas línguas e culturas que estão de fora do âmbito eletrônico estão em risco por falta de representatividade, por não termos acervos de referência acessíveis online. Essas línguas e culturas estão em um gigante ponto cego da internet. Essa ausência de línguas, culturas e memórias de tantos povos do mundo nos dá a impressão de que não existem, porque afinal “tudo está disponível” na rede mundial de computadores, ou mais ultimamente nos aplicativos dos nossos telefones. Mas não é bem assim para a internet, nem para a televisão, nem para o rádio. Então precisamos entender melhor como esses aparelhos funcionam, e o que existe dentro deles e através deles, e o que não está ali também é algo importante de se notar.
Os idiomas, culturas e conhecimentos que não aparecem online sofrem uma série de problemas por conta do apagamento, e isso contribui para entrarem em risco de extinção. Essas línguas e culturas estão em perigo de desaparecimento em duas ou três gerações, e esse tema assim como a emergência climática, a fome, o acesso à água doce, potável… e várias outras temáticas também são emergenciais e entendo que precisamos criar juntos espaços para que essas discussões aconteçam.
Os primeiros eventos que coordenei com essa temática do multilinguismo no mundo digital foram dando uma ideia da dificuldade de pautarmos este tipo de tema em espaços acadêmicos. Em 2005 na sede da UNESCO deu muito certo, mas em 2007 na UNICAMP já dava para ver a dificuldade de pautarmos um tema urgente em eventos desenhados para uma área específica de conhecimento.
MILWEEK é a combinação das palavras em inglês de Semana do Letramento Midiático e Informacional [Media and Information Literacy Week], é uma iniciativa da UNESCO para pensarmos globalmente o acesso à informação em nossa região e as alternativas para cidadania e o desenvolvimento de um pensamento crítico, é uma iniciativa interessante a qual podemos e queremos nos associar.
Compreender como podemos discutir nossas emergências, nossas conjunturas, nossa vida em sociedade é uma questão que me acompanha desde então; e sigo fazendo esse esforço com bons parceiros e interlocutores.
MILWEEK é um debate sobre as questões atuais importantes
Nosso interesse com o MILWEEK é pautar questões prementes da conjuntura brasileira, questões que nos inquietam. E para pensar sobre essas inquietações chamamos especialistas de várias áreas e lideranças comunitárias. Esperamos de forma colaborativa contribuir com a elaboração de um “bom senso”. Oferecer pública e gratuitamente essa elaboração conjunta é o principal motivo do evento. Essa percepção de um evento que paute questões da realidade brasileira, com o horizonte de oferecer um “bom senso” ao “senso comum”, vem da leitura do trabalho do Michel Debrun.
Michel Debrun é um filósofo francês que se radicou no Brasil, e propôs em seu trabalho o que chamamos na universidade de “filosofia temática”. Ou seja, para Debrun um dos papéis importantes dos profissionais da reflexão, de quem está na lida acadêmica, e fundamentalmente de quem está pensando a vida em sociedade (mesmo não sendo acadêmico) é trazer elaborações sobre a conjuntura de sua região ou país, em linguagem acessível, para fortalecer a compreensão e reflexão coletiva sobre a vida pública, sobre a coisa pública. É uma contribuição que o trabalho intelectual pode oferecer para a sociedade, que ele aponta como muito importante. E nós concordamos com ele.
Como vivemos uma dura experiência nos últimos anos, nem sempre colocar várias pessoas de áreas e ângulos diferentes para falar sobre um assunto vai nos ajudar a entender melhor o que está acontecendo. Se a gente não tem um acordo inicial que estamos propondo um diálogo em prol do bem comum, muitas vezes as diferenças são fonte de disputa, desentendimento e às vezes desinformação, exclusão e violência também. Um evento que propõe diálogo entre diferentes, sobre uma questão atual, muitas vezes pode desandar em confusão e discurso de ódio. Misturar os interlocutores de maneira desinteressada pode dar num milkshake nem sempre dos mais palatáveis (nada contra os milkshakes, estou usando o termo porque muitas vezes confundem o nome do milweek com milkshake). O milweek tem um propósito, ou como falamos na universidade, tem uma autoria funcionando aí.
Nossas apostas para os temas
A partir dos eventos podemos entender melhor algumas dinâmicas dos processos de desinformação, e neste sentido fizemos algumas apostas. Em 2019 apostamos nas questões de Fake News e Linguagem em parceria com a Associação Brasileira de Linguística <https://em-cena-14.abralin.org/>. Em 2021 pensamos juntos os Cenários de um Brasil Pandêmico <https://www.cle.unicamp.br/cle/node/1978>, em 2022 pensamos juntos Conjunturas do Brasil <https://www.cle.unicamp.br/drupal9/conjunturas-do-brasil-milweek2022>, em 2023 pensamos juntos Conjunturas Brasileiras, Meio Ambiente e Desinformação <https://www.cle.unicamp.br/cle/conjunturas-brasileiras-milweek2023>.
À medida que o projeto vai se envolvendo com as pautas ligadas à desinformação, vamos entendendo melhor os pontos de inflexão das notícias falsas, do excesso ou ausência de informação sobre um tema específico, dos gatilhos cognitivos que cada tema pode suscitar. É um aprendizado contínuo.
Se você está montando ou já fez um evento com os mesmos interesses, entre em contato. Vamos somar forças e articular as atividades. O Observatório da Desinformação tem essa proposta de diálogo, e se você percebe afinidades, e está disponível para a interlocução, podemos pensar em articular as atividades para 2024.
O Observatório da Desinformação é uma iniciativa para combater a desinformação no Brasil de forma articulada, dando visibilidade às frentes de reflexão, formação e extensão ligadas ao Letramento Midiático e Informacional e ao Diálogo Intercultural no âmbito dos Direitos Humanos.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
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