O novo pacote tarifário dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros começou a valer à 1h01 desta quarta-feira (22), consolidando mais um capítulo de tensão nas relações comerciais entre os dois países. A medida impõe uma taxa adicional de 25% sobre cerca de 3 mil itens exportados pelo Brasil, atingindo setores estratégicos da indústria nacional como máquinas agrícolas, etanol, papel, calçados e alumínio.
A decisão, oficializada pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) após investigações fundamentadas na Seção 301 da Lei de Comércio americana, deixou de fora commodities essenciais como petróleo bruto, café em grão, carne bovina e aeronaves. O filtro preservou produtos em que a economia americana tem dependência de abastecimento ou risco direto de inflação interna.
Segundo estimativas do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a sobretaxa alcança até 18% do volume de vendas do Brasil para o mercado americano, o equivalente a US$ 7,4 bilhões (R$ 37,6 bilhões), com base nos dados de 2024. No agronegócio, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) calcula um impacto anual de R$ 4,6 bilhões, afetando 36,5% das vendas do setor aos EUA.
Acelerador no câmbio e alegações em Washington
A Casa Branca justifica a imposição tarifária acusando o Brasil de praticar ações “irracionais” ou “restritivas” que prejudicam empresas americanas. Entre os pontos criticados pelo relatório do USTR estão a regulação de plataformas digitais, as políticas ambientais e até o sistema de pagamentos Pix, que, na avaliação de Washington, desfavorece companhias americanas de cartões e tecnologia.
A postura de Washington é interpretada pelo governo brasileiro como uma tentativa de interferência em assuntos de soberania nacional. O Executivo classificou a medida como um “marco lastimável“, reforçando que temas como o Pix são inegociáveis.
Apesar do tom firme, a orientação do presidente Lula (PT) é evitar movimentos precipitados para impedir a paralisação do comércio multilateral.
“Nós seguiremos protegendo a nossa soberania geológica sem ‘viralatice’ e seguiremos protegendo a nossa democracia contra a interferência internacional indevida“, afirmou o ministro da Fazenda, Dario Durigan, ao ressaltar que não cabe falar em retaliação imediata.
Cautela e o dilema da reciprocidade
Embora a nota oficial do Palácio do Planalto tenha citado a intenção de acionar a Lei da Reciprocidade Econômica, legislação aprovada em 2025 que autoriza retaliações comerciais, a aplicação da norma foi congelada temporariamente.
A avaliação interna do governo e do setor produtivo é que uma retaliação imediata poderia desencadear uma escalada tarifária desproporcional. Em reuniões com a equipe econômica, lideranças do setor de máquinas defenderam que o conflito seja solucionado estritamente por vias diplomáticas.
Mitigação de danos e apoio ao setor produtivo
Para amortecer os impactos na atividade econômica, o Ministério da Fazenda articula a liberação de linhas de crédito vinculadas ao Plano Brasil Soberano. As garantias financeiras serão direcionadas às empresas afetadas pelo tarifaço que se comprometerem com a manutenção dos postos de trabalho.
Em paralelo, a ApexBrasil anunciou que lançará em agosto um plano de R$ 130 milhões focado na diversificação de mercados. A meta do órgão é redirecionar o fluxo de exportações brasileiras para a União Europeia e países parceiros do Mercosul, reduzindo gradualmente a dependência do mercado norte-americano.
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