21 de maio de 2026

Como se constroem as bolhas, por Luiz Alberto Melchert

Pode parecer loucura, mas pessoas podem-se transformar em componentes do goodwill de empresas ou grupos de empresas.
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Como se constroem as bolhas

por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Karl Marx dizia que as crises econômicas costumam ser precedidas por crises financeiras. Dizia que elas começavam quando a sincronia entre a emissão e o resgate dos papéis era quebrado, sendo essa quebra provocada pelo descompasso entre o ciclo de negócio e o ciclo financeiro. Ele escreveu isso no século XIX, quando o termo “bolha” ainda não se tinha popularizado, embora crises de descompasso sempre tivessem existido. A mais antiga de que se tem notícia foi a das tulipas na Holanda do século XVI. Outra igualmente famosa, mas muito mais destrutiva, foi a da Cia do Mississipi, provocada por John Law, na virada do século XVII para o XVIII. Sem dúvida a mais famosa foi a de 1929 com o craque da Bolsa de New York, mas houve a do Japão no fim dos anos 1980 e a do subprime de 2008. Os operadores do mercado conhecedores de contabilidade são os primeiros a prever o estouro de uma bolha. O primeiro indício é o descolamento entre o valor cotado a mercado e o patrimônio líquido da empresa.

O maior desafio da contabilidade em tempos modernos é trazer para os demonstrativos tudo o que as teorias econômicas desenvolveram em dado período. É justamente por isso que as ciências Contábeis figuram-se entre as ciências sociais aplicadas. A Economia observa os fenômenos a partir dos acontecimentos, teoriza sobre eles, deixando para as Ciências Contábeis a tarefa de transformar em números as evidências econômicas no âmbito histórico-evolutivo das entidades ou agentes.

As dificuldades são enormes, quando não hercúleas. A ideia de goodwill é um bom exemplo disso. Ele deve refletir o apetite que os investidores apresentam acerca de uma empresa, um grupo de empresas, ou mesmo de um setor de uma dada economia. O termo goodwill se refere à boa vontade com que um ativo é encarado pelo mercado.

Quando se trata de empresa com capital aberto, pode-se dizer que o goodwill é a diferença entre o valor cotado a mercado e o patrimônio líquido. Numa empresa limitada, cujo balanço não é publicado, o goodwill é o resultado de um exercício de valuation, visto que não há a interferência do mercado para arbitrar o valor da empresa. Grosso modo, é preciso estimar o goodwill a partir do histórico de seus negócios, tanto em relação aos resultados obtidos, quando à expectativa de resultados futuros, tudo em função do risco a que ela está sujeita. Em resumo, a transparência da economia é função direta da parcela representada por empresas de capital aberto que nela operam.

Pode parecer loucura, mas pessoas podem-se transformar em componentes do goodwill de empresas ou grupos de empresas. É mais ou menos como a contratação de um treinador bem sucedido por um time de futebol. Essa contratação fatalmente atrairá apostadores, alterando a posição do time no balcão de apostas. Foi assim com Lee Iacocca na Ford e na Chrysler, Ron Denis na Fórmula 1, ou Carlos Gosn na formação do grupo Renault-Nissan, Steve Jobs na Apple e Bill Gates na Microsoft. No Brasil, tivemos bons exemplos como Antônio Ermírio de Moraes na Votorantim, Abílio Diniz no Pão de Açúcar, Olacyr de Moraes na Itamarati/Constran ou Sílvio Santos. Note-se que essas pessoas podem não ser sócias controladoras das empresas que lhes deram o nome, tornando-se CEO das contratantes como foram os casos dos já mencionados Lee Iacocca e Carlos Gosn, ou Edson Musa na Rhône-Poulenc (Rhodia) ou Ivan Zurita na Nestlé, ou Henrique Meireles no Banco de Boston.

Há casos em que se constroem mitos em torno de empresários como Tomas Edison, a quem se atribuiu a invenção da luz elétrica, quando, na verdade, os seus engenheiros desenvolveram somente a lâmpada incandescente. Luz elétrica já era conhecida e difundida na França, usando lâmpadas por arco voltaico. Bill Gates não criou nada, mas resolveu um problema para a IBM, ao transpor para o IBM PC o que já se conhecia como CP/M usado nos computadores de oito bits. Da mesma forma, Jobs vendeu-se como inventor com o Macintosh mesmo sendo somente uma aplicação para circuito processador Motorola da linha 6800, desenvolvimento concomitante ao de uma gama de outros computadores como os da linha Amiga, além do uso do mesmo circuito para automação industrial.

Se formos analisar friamente, o WhatsApp não faz mais do que o Skype fazia mais de vinte anos atrás. O Skype só não era igualmente popular porque os equipamentos não eram tão portáteis quanto os de hoje. Foros de discussão por e-mail foram criados nos anos 1990, de sorte que as redes sociais não tiveram mais do que melhoria contínua nos últimos vinte e cinco anos. Vender-se como inovador, portanto, poderia figurar entre as artes cênicas, pois levam as pessoas a acreditar que esses empresários possam entregar o que prometem, mais que isso, passam a acreditar que o que lhes foi prometido é inovador. Ocorre que nem sempre essas entregas acontecem e o mercado se sente enganado por empresários que, no fundo, não passam de bolhas com forma humana.

Na próxima semana, vamos discutir como pessoas podem se tornar bolhas capazes de produzir grandes estragos na economia, mesmo que, aparentemente, não passem de borbulhas perante a imprensa especializada.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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