21 de maio de 2026

Economia Circular e a matriz insumo-produto, por Luiz Alberto Melchert

IBGE pode estimar a matriz insumo-produto nos sete níveis em que a Classificação Nacional da Atividade Econômica (CNAE) é hierarquizada

Economia Circular e a matriz insumo-produto

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por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

O nível de circularidade de um país é medido consoante sua matriz insumo-produto. Essa afirmação nos obriga a uma digressão, explicando esse conceito, que foi criado pelo economista russo, naturalizado americano, Wassily Leontief que ganhou o Nobel de Economia em 1973.

Essa matriz é também denominada como matriz de dupla entrada, ou matriz de partidas dobradas, ou ainda como matriz origem-destino, até como matriz de entrada e saída. Ela procura mostrar as interações intersetoriais na economia. As linhas representam os insumos e as colunas representam os produtos. Também se pode dizer que as linhas correspondem aos créditos e as colunas aos débitos. A ideia deu origem ao que se chamou de visão sistêmica da economia, pois ela permite analisar a eficiência da aplicação de recursos em vários âmbitos. Dela derivam termos usados cotidianamente, nem sempre entendidos corretamente, como “matriz energética”.

Inicialmente, ela foi usada para um modelo com três setores: primário, secundário e terciário. Mais tarde, passou-se a distinguir o setor público do privado e a considerar importações e exportações. Hoje, graças à enorme capacidade computacional de que dispomos, o IBGE pode estimar a matriz insumo-produto nos sete níveis em que a Classificação Nacional da Atividade Econômica (CNAE) é hierarquizada, o que confere um nível de detalhe que o cérebro humano não consegue decifrar sem o uso de ferramentas adicionais, como as contidas em um banco de dados.

Esse conhecimento é, sem dúvida, essencial para medir como a economia lida com questões inerentes ao consumo de matérias-primas oriunda do setor primário, sua parcela modificada no setor secundário, bem como seu emprego no setor terciário. Pode também medir a contribuição do multiplicador dos gastos do Governo em relação aos impostos cobrados, o que resulta na estimativa da eficiência da administração pública. A circularidade é medida pelo quanto do PIB encontra-se no contrafluxo, ou seja, fazendo o caminho inverso do natural, que é passando do setor primário para o secundário, do secundário para o terciário. Se a circularidade fosse de 100%, todos os produtos consumidos seriam transformados em matéria-prima, refazendo o caminho natural. Esse valor jamais será alcançado porque os serviços, por definição, extinguem-se assim que consumidos. Some-se a isso o fato de que a degradação dos bens consumidos não se torna matéria-prima num período mensurável dentro da mesma matriz. A água e o CO2 viram árvore, que vira papel, que vira livro, que pode virar humus, que pode virar árvore, que se pode transformar em papel novamente, só que existe uma defasagem de oito anos pelo menos. É justamente essa defasagem que impede que a matriz de Leontief seja uma boa forma de medir a circularidade. Ela é incapaz de captar os benefícios oriundos do uso dos biocombustíveis, muito menos do fato de que o Brasil não usa um grama de carvão mineral na redução do aço.

Ocorre que produzimos aproximadamente 54 m³ milhões de biocombustíveis ao ano que a US$0,60/l, correspondem a  1% do nosso PIB em paridade do poder de compra. O uso do carvão vegetal na redução do aço, por sua vez, torna-se ainda mais difícil de medir porque é o sol que se encarrega de fazer a fotossíntese e reconstituir os bosques de eucaliptos consumidos na produção de carvão. Durante o crescimento, os bosques consomem fertilizantes e outros insumos advindos do setor secundário, mas a contabilidade nacional não é capaz de medir a externalidade promovida pela posição em que o Brasil se encontra na face da Terra. Esse e outros casos implicam em que a economia brasileira seja muito mais verde do  que a circularidade mensurável – pelo menos por esse método – é capaz de deixar transparecer.

Tudo leva a crer que Economia Circular não seja um conceito duradouro, ocupando lugar de destaque entre os modismos conceituais como a Teoria das Restrições ou o Custeio Baseado em Atividades, como mencionado na primeira matéria desta série.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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  1. Milton

    1 de maio de 2024 10:43 am

    Talvez por desconhecimento de alguma informação não vejo problemas na sistematização e incorporação de dados num sistema de controle tipo “economia circular”.
    Me pareceu válida e útil, mesmo com alguma deficiência na coleta/inserção de dados.
    O importante seria o uso sistemático e busca de constantes aperfeiçoamentos na coleta e inserção de dados.
    O sol, citado no texto, tem sua influência mensurável, a rigor, em qualquer situação. Horas de insolação e outras informações são mensuráveis, bastando a aplicação de recursos para sua coleta.
    É ferramenta a ser usada até que uma nova se imponha.

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