4 de junho de 2026

Copom: corte menor não surpreende mercado, mas indústria critica

Banco Central reduziu ritmo de corte dos juros em 0,25 ponto percentual; confira repercussão entre analistas e agentes do setor produtivo
Sede do Banco Central, em Brasília. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa básica de juros da economia para 10,50% ao ano em reunião finalizada na última quarta-feira (08/05), em decisão que foi recebida de maneiras opostas.

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Por um lado, economistas e analistas do mercado financeiro concordaram com a redução do ritmo de ajustes de 0,50 ponto para 0,25 ponto percentual por questões de cunho fiscal, enquanto representantes do setor produtivo afirmam que a posição da autoridade monetária denota perda de dinamismo.

Contudo, o mercado só vai saber de mais detalhes sobre a posição do Copom quando a ata da última reunião for publicada, o que deve ocorrer na próxima semana.

Acompanhe algumas análises obtidas pelo Jornal GGN a respeito da última decisão do Copom:

Guilherme Jung, economista da Alta Vita Research

Embora o Copom tenha indicado na última reunião que iria reduzir os juros em 0,50 ponto percentual, o economista explica que já existiam sinais de desaceleração da política monetária.

A começar pelo cenário instável no exterior, a partir da escalada dos preços do petróleo, conflitos no Oriente Médio e a incerteza em torno da política monetária norte-americana.

No Brasil, as chamadas medidas de inflação subjacente seguem acima da meta, e outros pontos aumentaram os desafios em torno do controle inflacionário, como o desastre no Rio Grande do Sul.

Para o economista, outro ponto de impacto foi a mudança nas metas fiscais, o que pode colocar em xeque a sustentabilidade do arcabouço fiscal.

Diante disso, a condução da política monetária requer uma serenidade e moderação. Assim, a decisão do Copom de manter a política monetária contracionista é justificada, visando consolidar o processo de desinflação e ancorar as expectativas na meta estabelecida”, explica Jung.

Leandro Manzoni, analista de economia do Investing.com

O analista afirma que, de forma implícita, o colegiado passou a adotar uma conduta mais dependente de dados para as próximas reuniões, deixando nas entrelinhas portas abertas para um eventual fim do ciclo de cortes no segundo semestre.

Manzoni lista como ponto-chave para entender a decisão do Copom a alta do dólar (o valor de referência utilizado pelo BC subiu de R$ 4,95 em março para R$ 5,15) pelo lado externo a partir da inflação mais alta nos EUA.

No cenário doméstico, o colegiado prefere acompanhar o nível da inflação nos próximos meses por conta do impacto do desastre ambiental no Rio Grande do Sul em itens importantes na cesta básica, dentro de um contexto de crescimento econômico acima do esperado com um mercado de trabalho apertado.

Sem contar a questão fiscal, que pode ser inclusive o fator responsável pela divisão dos votos dentre os diretores do Bacen – principalmente quando se tem em vista que o mandato de Roberto Campos Neto à frente do Bacen se encerra no fim deste ano.

Para o analista, “essa combinação de críticas do Planalto e de diretores alinhados ao governo em serem mais dovish tende a crescer o cenário de que o próximo Banco Central será mais flexível, especialmente na avaliação da política fiscal, diferentemente do atual que em todo o comunicado ressalta a necessidade de comprometimento com as regras fiscais para que haja um menor prêmio de risco no mercado”.

Segundo Manzoni, a condução da política monetária tende a ser mais dura daqui para frente, com um novo corte de juros em 0,25 ponto percentual e posterior interrupção no ciclo de ajustes.

Ricardo Alban, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI)

“Essa decisão é incompatível com o atual cenário de inflação controlado e torna impraticável continuar o projeto de neoindustrialização do país com altos níveis de taxa de juros. Reduzir o ritmo de corte da taxa básica tira a oportunidade de o Brasil alcançar mais prosperidade econômica, aumento de emprego e de renda”, disse o presidente da CNI, Ricardo Alban.

Em nota, Ricardo Alban afirma que a redução no ritmo de ajustes por parte do Copom acaba por comprometer o dinamismo da economia brasileira, a se acompanhar por alguns índices econômicos.

Alban se refere especificamente ao Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), calculado pelo BC, que apontou crescimento de 1,23% no trimestre encerrado em fevereiro de 2024, na comparação com o trimestre anterior. “Para uma economia que cresceu 2,9% em 2023, é evidente a perda de ritmo de crescimento”, ressaltou.

Na avaliação da CNI, um ponto de preocupação do BC é a condução da política fiscal, devido à revisão da meta de superávit fiscal para 2025 e 2026.

ACSP – Associação Comercial de São Paulo

Em nota, o economista Ulisses Ruiz de Gamboa, do IEGV (Instituto Gastão Vidigal da ACSP), explica que, mesmo com o comportamento mais benigno da inflação, o aumento das incertezas no campo fiscal foi decisivo: “com a mudança da meta de resultado primário em 2025, e dos sinais negativos do cenário internacional, o COPOM deve ter levado em consideração o forte crescimento dos salários e os possíveis impactos nos preços futuros”. A decisão reduz a taxa Selic para 10,50% ao ano.

Além disso, Ruiz de Gamboa destaca que “a cautela na condução da política monetária se justifica, se considerarmos eventuais ameaças.”

“De qualquer forma, para projeções que considerem mais precisamente a dinâmica das taxas futuras dos juros básicos, é importante a leitura atenta do comunicado publicado, após a divulgação da resolução do COPOM, além da Ata da Reunião”, pontuou.

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Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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