10 de junho de 2026

Jornalismo metonímico dá munição às fake news de olho no impeachment, por Wilson Ferreira

uma estratégia ampla de contrainformação com dois objetivos: tirar o protagonismo de Lula e espalhar cascas de bananas orçamentárias

Jornalismo metonímico da grande mídia dá munição às fake news de olho no impeachment

por Wilson Roberto Vieira Ferreira

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Vivemos mais um hype na grande mídia sobre as chamadas “fake news”. Que agora miram a calamidade ambiental no Rio Grande do Sul. Os “colonistas” do jornalismo corporativo mostram todo o seu repertório de indignação moral e amaldiçoam essa praga supostamente exclusiva das redes sociais. Mais uma vez, o hype midiático sobre fake news ocorre como estratégia diversionista para esconder algo. Dessa vez, a forma inovadora pela qual o chamado “jornalismo profissional” está fornecendo munição para algo que vai muito além das “fake news”: uma estratégia ampla de contrainformação com dois objetivos: tirar o protagonismo de Lula e espalhar cascas de bananas orçamentárias (sob a lupa do TCU) para, quem sabe, servir de álibi para um processo de impeachment. A novidade semiótica é o “jornalismo metonímico para recorte”: como passar munição para a extrema-direita por baixo da mesa. 

Não obstante o fenômeno da desinformação ou notícias falsas se confundirem com a própria história do jornalismo, de repente a nova geração de jornalistas descobriu o fenômeno das “fake news”, surgindo uma nova especialidade no ramo: os checadores em agências (ou “plataformas”) de “fact-checking”.

Essas expressões, faladas na língua inglesa, certamente ganham uma aura hype (“fake news” e congêneres como “pós-verdade” foram eleitas “palavras do ano” pela Universidade de Oxford em 2016 – popularizado pela vitória de Trump) e de novidade para um fenômeno que existe desde que Gutenberg inventou a prensa em 1447.

Se sabemos que as notícias falsas e campanhas de desinformação sempre acompanharam a grande mídia (do caso da Escola Base dos anos 1990 à ficha falsa de Dilma Rousseff do DOPS publicada na primeira página da Folha de São Paulo), por que o jornalismo corporativo, além de pesquisadores e acadêmicos da área, apressou-se a definir “fake news” como uma grande novidade?

Ao longo de diversas postagens (veja links ao final), esse Cinegnose descreveu como o hype das fake news foi CONVEEEEENIENT para o chamado “jornalismo profissional”:

(a) Motivo de marketing: assim como como o “orgânico” e o “saudável” criou o selo diferencial “premium” no mercado industrializado de alimentos, da mesma forma no mercado de notícias o “fact-checking” criou a notícia supostamente livre de toxinas, isto é, mentiras – mas não livre da “manipulação”.

(b) Motivo mercadológico: o avanço das mídias de convergência tecnológica na virada de século confrontou a hegemonia das mídias de massas. O debate em torno das “fake news” surgiu como uma engenharia de opinião para criminalizar a Internet e redes sociais: elas seriam intrinsicamente criminógenas – um ecossistema de informação que viabiliza golpes cibernéticos, pedofilia, bullying, mentiras, vício etc.

(c) Motivo epistemológico: somente o jornalismo profissional e corporativo, com o complexo de gatekeepers, editores e hierarquia na produção das notícias garantiriam à informação qualidade. Sob a grife do “jornalismo investigativo” – que confunde “investigação” com “apuração” e “checagem”. “Checagem” ou “apuração” é tautológico (checar se o conteúdo de um release corresponde à fonte emissora), enquanto “investigação” tem a ver com busca de informações que criem cenários, contextos e relações de causa e efeito.

Jornalismo de Guerra 2.0

Neste momento de Jornalismo de Guerra 2.0 (a volta do modo alarme do jornalismo corporativo para desestabilizar o governo Lula e garantir as conquistas neoliberais dos governos Temer e Bolsonaro) a retórica das fake news ganha uma nova utilidade, o item (d)

(d) Ocultar a forma como o jornalismo corporativo está abastecendo as redes de extrema-direita com munição para a criação de fake news – na verdade, uma grande campanha de desinformação. Principalmente nesse momento da catástrofe ambiental no Rio Grande do Sul. Tudo porque para a grande mídia, o protagonismo de Lula deve ser, no mínimo, relativizado. Enquanto o ativo político midiático, o governador Eduardo Leite, deve ser protegido e empoderado com manchetes em construções frasais assertivas.   

Até aqui, a grande mídia vem dando pernas à agenda bolsonarista e de extrema-direita (p. ex., a polêmica das “saidinhas”), tornando temas diversionistas em debates relevantes para a opinião pública. Porque debatido pelos seus “colonistas” em canais fechados de notíciais.

Porém, com a involuntária volta por cima de Lula, após o fracasso das comemorações do Primeiro de Maio, no protagonismo pelo socorro à calamidade no RS, o jornalismocorporativo mais uma vez está tapando o seu nariz para mexer na lama psíquica da extrema-direita. Se bem que “remotamente”, como em uma guerra por procuração: apenas fornece a matéria-prima, a munição para as redes bolsonaristas processarem com o expertise alt-right de comunicação.

Como? Através da grande novidade semiótica: o jornalismo metonímico de recorte.

Jornalismo metonímico

O jornalismo metonímico não é uma novidade. Principalmente na forma de “contaminação semiótica”: relativo ao conceito de metonímia, figura de retórica que retira a palavra do seu contexto semântico normal por ter uma relação de significação de contiguidade, material ou conceitual. 

No caso do jornalismo, caracteriza-se pela “contaminação metonímica” entre signos de natureza diversa (texto, imagem etc.) segundo a seguinte fórmula: 1 + 1 = 3, isto é, uma notícia que contamina outra notícia totalmente diversa pode produzir uma terceira notícia totalmente diversa e ideologicamente intencional.

Uma contaminação produzida por relações de contiguidade textuais ou espaciais (diagração, proximidade texto e foto etc.), como no exemplo acima em que a proximidade do numeral “1 milhão” (relativo à notícia do censo escolar) contamina foto de manifestação bolsonarista em São Paulo. 1 + 1= 3: tinha 1 milhão na Avenida Paulista?

Claro, uma contaminação subliminar, fenomenológica.

Continue lendo no Cinegnose.

Wilson Ferreira

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados