Jornalismo metonímico da grande mídia dá munição às fake news de olho no impeachment
por Wilson Roberto Vieira Ferreira
Vivemos mais um hype na grande mídia sobre as chamadas “fake news”. Que agora miram a calamidade ambiental no Rio Grande do Sul. Os “colonistas” do jornalismo corporativo mostram todo o seu repertório de indignação moral e amaldiçoam essa praga supostamente exclusiva das redes sociais. Mais uma vez, o hype midiático sobre fake news ocorre como estratégia diversionista para esconder algo. Dessa vez, a forma inovadora pela qual o chamado “jornalismo profissional” está fornecendo munição para algo que vai muito além das “fake news”: uma estratégia ampla de contrainformação com dois objetivos: tirar o protagonismo de Lula e espalhar cascas de bananas orçamentárias (sob a lupa do TCU) para, quem sabe, servir de álibi para um processo de impeachment. A novidade semiótica é o “jornalismo metonímico para recorte”: como passar munição para a extrema-direita por baixo da mesa.
Não obstante o fenômeno da desinformação ou notícias falsas se confundirem com a própria história do jornalismo, de repente a nova geração de jornalistas descobriu o fenômeno das “fake news”, surgindo uma nova especialidade no ramo: os checadores em agências (ou “plataformas”) de “fact-checking”.
Essas expressões, faladas na língua inglesa, certamente ganham uma aura hype (“fake news” e congêneres como “pós-verdade” foram eleitas “palavras do ano” pela Universidade de Oxford em 2016 – popularizado pela vitória de Trump) e de novidade para um fenômeno que existe desde que Gutenberg inventou a prensa em 1447.
Se sabemos que as notícias falsas e campanhas de desinformação sempre acompanharam a grande mídia (do caso da Escola Base dos anos 1990 à ficha falsa de Dilma Rousseff do DOPS publicada na primeira página da Folha de São Paulo), por que o jornalismo corporativo, além de pesquisadores e acadêmicos da área, apressou-se a definir “fake news” como uma grande novidade?
Ao longo de diversas postagens (veja links ao final), esse Cinegnose descreveu como o hype das fake news foi CONVEEEEENIENT para o chamado “jornalismo profissional”:
(a) Motivo de marketing: assim como como o “orgânico” e o “saudável” criou o selo diferencial “premium” no mercado industrializado de alimentos, da mesma forma no mercado de notícias o “fact-checking” criou a notícia supostamente livre de toxinas, isto é, mentiras – mas não livre da “manipulação”.
(b) Motivo mercadológico: o avanço das mídias de convergência tecnológica na virada de século confrontou a hegemonia das mídias de massas. O debate em torno das “fake news” surgiu como uma engenharia de opinião para criminalizar a Internet e redes sociais: elas seriam intrinsicamente criminógenas – um ecossistema de informação que viabiliza golpes cibernéticos, pedofilia, bullying, mentiras, vício etc.
(c) Motivo epistemológico: somente o jornalismo profissional e corporativo, com o complexo de gatekeepers, editores e hierarquia na produção das notícias garantiriam à informação qualidade. Sob a grife do “jornalismo investigativo” – que confunde “investigação” com “apuração” e “checagem”. “Checagem” ou “apuração” é tautológico (checar se o conteúdo de um release corresponde à fonte emissora), enquanto “investigação” tem a ver com busca de informações que criem cenários, contextos e relações de causa e efeito.

Jornalismo de Guerra 2.0
Neste momento de Jornalismo de Guerra 2.0 (a volta do modo alarme do jornalismo corporativo para desestabilizar o governo Lula e garantir as conquistas neoliberais dos governos Temer e Bolsonaro) a retórica das fake news ganha uma nova utilidade, o item (d)
(d) Ocultar a forma como o jornalismo corporativo está abastecendo as redes de extrema-direita com munição para a criação de fake news – na verdade, uma grande campanha de desinformação. Principalmente nesse momento da catástrofe ambiental no Rio Grande do Sul. Tudo porque para a grande mídia, o protagonismo de Lula deve ser, no mínimo, relativizado. Enquanto o ativo político midiático, o governador Eduardo Leite, deve ser protegido e empoderado com manchetes em construções frasais assertivas.
Até aqui, a grande mídia vem dando pernas à agenda bolsonarista e de extrema-direita (p. ex., a polêmica das “saidinhas”), tornando temas diversionistas em debates relevantes para a opinião pública. Porque debatido pelos seus “colonistas” em canais fechados de notíciais.
Porém, com a involuntária volta por cima de Lula, após o fracasso das comemorações do Primeiro de Maio, no protagonismo pelo socorro à calamidade no RS, o jornalismocorporativo mais uma vez está tapando o seu nariz para mexer na lama psíquica da extrema-direita. Se bem que “remotamente”, como em uma guerra por procuração: apenas fornece a matéria-prima, a munição para as redes bolsonaristas processarem com o expertise alt-right de comunicação.
Como? Através da grande novidade semiótica: o jornalismo metonímico de recorte.

Jornalismo metonímico
O jornalismo metonímico não é uma novidade. Principalmente na forma de “contaminação semiótica”: relativo ao conceito de metonímia, figura de retórica que retira a palavra do seu contexto semântico normal por ter uma relação de significação de contiguidade, material ou conceitual.
No caso do jornalismo, caracteriza-se pela “contaminação metonímica” entre signos de natureza diversa (texto, imagem etc.) segundo a seguinte fórmula: 1 + 1 = 3, isto é, uma notícia que contamina outra notícia totalmente diversa pode produzir uma terceira notícia totalmente diversa e ideologicamente intencional.
Uma contaminação produzida por relações de contiguidade textuais ou espaciais (diagração, proximidade texto e foto etc.), como no exemplo acima em que a proximidade do numeral “1 milhão” (relativo à notícia do censo escolar) contamina foto de manifestação bolsonarista em São Paulo. 1 + 1= 3: tinha 1 milhão na Avenida Paulista?
Claro, uma contaminação subliminar, fenomenológica.
Continue lendo no Cinegnose.
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