21 de maio de 2026

Como se constroem as Bolhas (final), por Luiz Alberto Melchert

Existem casos em que não existe a menor possibilidade de o empresário entregar o que promete, mesmo assim, atrai capital, tipo pirâmides

Como se constroem as Bolhas (final)

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por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Anos atrás, um aluno disse que um plano de negócio baseado num fluxo de caixa realista era a única forma de tomada de decisão acerca de entrar ou não em um negócio. Como eu não fora professor dele nessa matéria, fiquei pensando em como ele chegou a essa conclusão, que bem poderia ter vindo de outro mestre – digamos – mais ortodoxo. De fato, construir planos de negócios baseando-se na taxa interna de retorno é o que há de usual, o que não exime o método de verossimilhança. É que, no caso de fracasso, o investidor pode perder tudo o que amealhou em sua vida produtiva e esse risco, geralmente não mensurável, tem que compor o cálculo do retorno para que este fique atrativo.

Só que há empresários que são excelentes vendedores de planos de negócios, tornando-os capazes de atrair investidores que apostam na valorização das ações com muito mais ênfase do que nos fundamentos do negócio em si. Eles procuram maximizar o goodwill. É assim que nascem essas mega fortunas como foram a de Jobs e Gates nos anos 1980 e 1990, Zuckerberg nos anos 2000 e Musk nos tempos de hoje.

Em alguns casos, como Jobs e Gates, a fortuna vai se solidificando na medida em que o patrimônio líquido aproxima-se da soma das ações multiplicada pela cotação em bolsa, ou seja, quando o goodwill para algo próximo da expectativa de lucro Futuro. Esses são os casos em que o investidor entregou de  fato aquilo que prometeu.

Existem casos em que não existe a menor possibilidade de o empresário entregar o que promete, mesmo assim, atrai capital. São verdadeiras pirâmides travestidas de negócios. Um caso que chamou a atenção foi o de Elizabeth Holmes, que afirmou ter desenvolvido um aparelho capaz de fazer dezenas de testes com somente uma gota de sangue, antecipando diagnóstico como jamais se viu. Recentemente, ela foi condenada a onze anos de cadeia por fraude e pelos prejuízos que deu a milhares de pacientes e investidores. Terá sido ela sozinha? O que fez com que macacos velhos acreditassem numa garota de dezenove anos, cujo pai teve sua reputação abalada por ter sido vice-presidente da Enron, que faliu em 2004, levando a Arthur Andersen de roldão. Alguém entre seus contatos decidiu fazer-se de escada para ela subir. Nunca saberemos quem foi, visto que nenhum deles testemunhou em seu processo. As bolhas, como todas as pirâmides precisam de quem esteja no primeiro nível de compradores, seguidos por especuladores profissionais que antecipam o estouro da bolha e saem do papel com muito lucro, deixando todo o prejuízo para os incautos.

Claro que Elizabeth Holmes é um caso extremo, mas há outros igualmente evidentes que demoram muito mais para estourar e os mentores nem sequer são punidos. No Brasil temos casos como Fazendas Reunidas Boi Gordo e Grupo EBX como bons exemplos. No primeiro caso, o chamariz foi um lucro estratosférico baseado na engorda dos bois como lastro. Emitiram-se papéis cuja ciclo não coincidia com o  biológico do gado, obrigando os gestores a aplicar o dinheiro a juros muito mais baixos durante o lapso entre o vencimento do papel e a entrega do gado. A coisa foi apertando numa velocidade que obrigou os gestores a tomar dinheiro caro no mercado para garantir a liquidez dos títulos emitidos. Finalmente o castelo de cartas ruiu. Mas, se a empresa não teve ações negociadas em bolsa, onde entra o goodwill? Ora, se goodwill é a boa vontade com que os investidores veem o negócio, pode-se inferir que o seu valor será igual ao total de títulos circulando no mercado subtraído patrimônio líquido, como explicado na matéria anterior.

 O Grupo EBX de Eike batista chegou a ser listado em bolsa, mas grande parte dos seus empreendimentos não se concretizou e, já tido como vendedor de plano de negócios, foi pego pela Lava Jato, fazendo sua fortuna cair de US$30 bilhões para US$200 milhões, sempre cotados a mercado.

Em outros casos, as bolhas demoram muitos anos para serem interpretadas como tal. O Grupo 3G é um exemplo de como os planos de negócios podem-se calcar no máximo goodwill. A operação consiste em adquirir empresas cujo capital cotado a mercado contribua para o aumento do valor das ações do grupo mais que proporcionalmente o valor de compra. Digamos que o grupo já valha, cotado a mercado, US$100 bilhões e que a aquisição de uma nova empresa que aumente o poder de monopólio do grupo seja adquirida por US$15 bilhões. A mudança de posição no mercado induz uma subida de preço das ações em  — digamos – 5%. A empresa passará a valer, cotada a mercado, US$120,75 bilhões, ou seja, a nova aquisição contribuiu com US$5,25 bilhões para o crescimento do grupo. Ocorre que esse processo não é eterno e o risco assumido passa a ser maior do que o ganho esperado em geração de valor e a bolha pode estourar. Basta que um só entre os grandes detentores saia do papel para que o castelo de cartas vá ao chão.

Operações visionárias de Elon Musk ainda não mostraram um centavo de lucro acumulado capaz de comprovar a viabilidade do negócio, como é o caso da Tesla. Em outros casos, como o da Starlink, em que o mercado já conta com infraestrutura física estabelecida, reduzindo o poder de monopólio da operação, ninguém viu resultado real. Mesmo assim, ele é tido como detentor da maior fortuna do mundo, sempre cotado a mercado. Resta saber quanto tempo os investidores vão esperar antes de que a boa vontade se transforme em desprezo e um dealer saia correndo com a manada atrás.

Mas nem somente de mega bolhas vive o capitalismo. Existem menores como o Banquinho de Bauru dos anos 1980 no interior de São Paulo Em resumo, o capitalismo mais parece uma tulipa de cerveja com bolhas subindo e estourando em meio a espuma do mercado. A questão é que um dia a cerveja fica choca e lá vem uma crise mundial.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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