Cheiro da morte
por Janderson Lacerda
A memória olfativa, talvez pouco discutida, se dá quando uma pessoa lembra-se de situações vivenciadas, locais visitados ou do cheiro de uma outra pessoa específica.
O cheiro nos liga à uma determinada memória e uma sensação nostálgica invade nossas lembranças. Na prática, os aromas são capazes de trazer uma cena do passado com abundância de detalhes e ao nos abrirmos para essa memória olfativa somos capazes de nos reencontrar o nosso “eu” esquecido pelo tempo ou reviver momentos e encontros com pessoas que já partiram ou que foram consumidas pela metamorfose da vida e deixaram de existir para nós.
O cheiro inigualável de uma mãe traz à lembrança de um tempo em que o amor era uma realidade concreta, física e palpável, nos leva até aquele abraço protetor. O aroma de almoços festivos, em que a família se reunia em volta da mesa, ainda que simploriamente, nos remete a um passado sem culpa e sem a consciência da escassez que nos era servida, fruto de muito trabalho, mas refém de economia sempre dependente.
Lembro-me como se fosse hoje do cheiro do café preparado pelo meu pai. O relógio despertava às seis horas e o aroma do café, associado à voz grave dele dizendo: “filho, está na hora”, aquecem o meu peito até os dias atuais. Associo esse cheiro à saudade!
São tantos momentos que podemos revisitar, não há ser humano que não se emocione em algum momento da vida ao revisitar o passado através de algum aroma. O cheiro pode nos acompanhar desde a tenra infância até o dia da morte.
Porém, quando penso nas crianças palestinas, massacradas pela política criminosa de guerra de Benjamin Netanyahu, que têm suas vidas marcadas pela perda, separação, injustiça, me pergunto: que memórias olfativas essas crianças estão guardando? O cheiro da morte. A propósito, como descrever o cheiro de uma guerra?
Os pequeninos que sobreviverem serão assombrados pelo cheiro de pólvora queimada expelida pelo tiro, cheiro de fumaça tóxica e da poeira dos escombros provocados pelos ataques aéreos, da carne da mãe carbonizada, da putrefação de corpos dos seus familiares e amigos, que assim como eles, foram esquecidos pelo mundo e vitimados pelo ódio. Esse cheiro trará em suas memórias a dor, o abandono, o medo constante, o sofrimento de uma nação inteira. Outras tantas crianças, que nasceram em meio à guerra, jamais conheceram outro cheiro, senão este, imposto. Os odores da injustiça irão acompanhar os sobreviventes deste massacre e, em algum momento, o cheiro dos traumas os farão reviver o passado genocida.
Não importa quanto tempo passe, o cheiro da Palestina devastada os perseguirá.
Janderson Lacerda – Graduação em Letras, especialização em Docência no Ensino Superior e mestrado em Políticas e Gestão Educacionais pela UMESP. Integrante da RELEPE (Red de Estudios Teóricos y Epistemológicos en Política Educativa), autor do livro: Programa Escola da Família: Democratização do Espaço Escolar? E Professor titular dos cursos de Pedagogia e Educação Processos Escolares da Universidade Santo Amaro (UNISA).
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