17 de junho de 2026

As depressões do século e o anúncio do final do mundo, por Dora Incontri

Não há receitas, porém. E as coisas vão piorar sim. A crise climática e os avanços dos fundamentalismos são dados objetivos que nos assombram.
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As depressões do século e o anúncio do final do mundo

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por Dora Incontri

Todos os dias, ouço pessoas dizerem que estão cansadas, exaustas, sentindo tristeza, deprimidas (com diagnóstico ou não de depressão). Além do trabalho extenuante a que estamos submetidos, para sobreviver, neste modo desumano do capital, ainda muitos se esforçam para fazer algo para mudar o mundo; para garantirem um espaço-tempo de convivência com seus afetos; para usufruir, de vez em quando, alguma produção artística que traga algum prazer para o corpo e para a alma. Todo esse esforço é muitas vezes malsucedido, ou pelo menos com resultados escassos, fragmentados, porque os boletos aumentam, os afetos se diluem na descartabilidade das relações líquidas (como disse Bauman), o tempo não dá para nada e o dinheiro menos ainda… e o cansaço profundo aumenta.

E o pior… no meio de todo esse massacre cotidiano, a que poucos privilegiados escapam, ainda somos bombardeados a cada minuto com péssimas notícias e piores prognósticos. É um genocídio desfilando aos nossos olhos em cenas reais, ao vivo e a cores; são catástrofes climáticas gerando miséria e destruição; são os abusadores das redes, semeando fake news; são as ameaças constantes (e muitas já concretizadas) de privatização de escolas, água, luz e até praias… Corre um meme por aí que diz: no dia em que tudo for privatizado, seremos privados de tudo!

Enquanto isso, a extrema direita avança no mundo, quem sabe planejando um governo mundial nazifascista!

Como viver ou sobreviver com um mínimo de saúde psíquica no meio de tudo isso? Como educadora, como psicanalista, como jornalista, como escritora, fico procurando palavras, estratégias, sentimentos, com que possa levantar o ânimo das pessoas (e o meu próprio), porque não está nada fácil. E ao cair na depressão ou na ansiedade ou ainda na  síndrome de pânico, com diagnóstico fechado e assinado por um psiquiatra, mergulha-se então no universo dos remédios de tarja preta, que apagam ainda mais o brilho dos olhos e, de acréscimo, alimentam o lucro (já imoral) da indústria farmacêutica. Não digo que não haja casos em que essa medida seja necessária, mas deveríamos arrancar as raízes do mal e não combater apenas os sintomas.

Não há receitas, porém. E as coisas vão piorar sim. A crise climática e os avanços dos fundamentalismos são dados objetivos que nos assombram.

Mas… não podemos entregar os pontos. É preciso buscar forças no fundo do fundo e nos unirmos de mãos dadas (porque o amor é ainda a maior cura). Lembrei-me de uma das óperas que adoro La Traviata (está certo, bem romântica, mas está valendo qualquer recurso que nos alivie de maneira saudável): “A quell’amor ch’è palpito
Dell’universo intero” (Ah, aquele amor, que é o pulsar do universo inteiro).

Estar com pessoas amadas, usufruir, ou ainda melhor, produzir arte, conectar-se com a espiritualidade, são caminhos que acalmam, que integram nosso psiquismo e nos abastecem para a luta diária.

Muita gente desiste de se informar, de saber o que está acontecendo, para não sentir o reflexo de tantas dores humanas que nos chegam a cada minuto. É saudável fazemos desintoxicações periódicas, para ganhamos forças, mas a alienação permanente é contraproducente, porque em algum momento a realidade nos atinge em cheio e não estaremos preparados para enfrentá-la de peito aberto e com força de resistência.

E acima de tudo, é preciso que permaneçamos no palco da luta, que não abandonemos o projeto coletivo, unidos com aqueles que assim também pensam e agem, de transformar esse mundo, de acabar com esse sistema predatório, de salvar a natureza, de distribuir pão e fraternidade entre os povos. Ativismo sim, seja através da semeadura de ideias que movem, de ações militantes que mudam realidades, mantendo sempre a esperança de dias melhores, que virão sim.

Os fundamentalismos também costumam oferecer panaceias perigosas nessas horas: anúncios apocalípticos, com redenções mágicas; perseguições a bodes expiatórios; recrudescimento de explicações estapafúrdias dos fatos que nos angustiam. Como aquela lourinha aguada falando que o motivo da destruição do Rio Grande do Sul pelas enchentes foi o grande número de terreiros de Candomblé naquele estado!

Procuremos nos ancorar na ciência, na racionalidade, na fé equilibrada que dialoga com outras formas de fé e que jamais abandona a ciência.

É o que é possível agora. Persistamos, que logo à frente, pode haver alguma luz no final do túnel. A resistência, o trabalho devotado de milhões de pessoas no mundo que fazem o que todos devemos fazer para mudar a exploração de trabalho, a nossa atuação junto à mãe natureza e as relações entre os povos – tudo isso é um alento. O povo está se levantando no planeta todo contra o genocídio em Gaza. O povo terá que se levantar cada vez mais. Porque esse mundo é nosso e não vamos entregá-lo de mão beijada para meia dúzia de bilionários narcisistas e fascistas!

Dora Incontri – Graduada em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Mestre e doutora em História e Filosofia da Educação pela USP (Universidade de São Paulo). Pós-doutora em Filosofia da Educação pela USP. Coordenadora geral da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita e do Pampédia Educação. Diretora da Editora Comenius. Coordena a Universidade Livre Pamédia. Mais de trinta livros publicados com o tema de educação, espiritualidade, filosofia e espiritismo, pela Editora Comenius, Ática, Scipione, entre outros.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Dora Incontri é paulistana, nascida em 1962. Jornalista, educadora e escritora

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2 Comentários
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  1. Joyce Rodrigues Cabral

    5 de junho de 2024 3:06 pm

    Dora querida, obrigada pela lucidez exposta em palavras.
    Um grande abraço

  2. roberto.de carvalho

    28 de junho de 2024 10:09 pm

    Suas palavras e pensamento são espelhos aos meus. Me deparo com tantas pessoas difíceis e superficiais, que dá vontade de me entregar. Certa vez conversava com um senhor- bolsonarista por acaso- nada contra, nem a favor, onde sem querer comentei que tinha um sonho de conhecer Cuba, já que falávamos em viagens. Mas não queria conhecer por ideologia, mas sim por Lazer, Conhecimento da História, enfim…ele me disse que esteve em Cuba. E me informou:
    ” O senhor sabia que em Cuba não tem papel Higiênico?”
    Quase ri…mas respondi:
    Senhor, não precisa ir tão longe para se ver esse tipo de coisa. Aqui do lado, em Caxias, existe uma Comunidade lá há 10 anos, que não tem banheiro. Pessoas que não tomam banho de chuveiro ou tem uma latrina…
    Ele se calou. Melhor assim.
    E vamos convivendo com esses tipos…
    Grande abraço.

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