O programa TVGGN 20H da última segunda-feira (10) prestou mais uma homenagem à Maria da Conceição Tavares, falecida no último sábado, aos 94 anos, enquanto dormia.
Sob o comando de Luís Nassif, o programa recebeu dois alunos de Conceição: Fernando Nogueira e Luciano Coutinho, ambos professores do Instituto de Economia da Unicamp.
Coutinho descreveu Tavares como uma pessoa de pensamento livre e sem dogmas, que na verdade gostava de destruí-los, e que tinha Celso Furtado e Aníbal Pinto como mestres.
“Ela sempre foi uma mente contestadora, uma mente dialética. Ela precisava negar para poder validar e para poder compreender. Método intrínseco, isso levava a ela contestar qualquer postulado, qualquer análise, ela contestava aquilo e fazia isso de maneira muito veemente. As pessoas confundiam isso. ‘Ela está brigando comigo?’ Não, ela estava brigando com as ideias”, afirma o docente.
O entrevistado lembra que a conheceu em 1974, após o retorno do doutorado nos Estados Unidos. Incubido de organizar os cursos de pós-graduação da Unicamp, Coutinho conta que os envolvidos na elaboração dos programas não queriam, simplesmente, reproduzir os cursos de economia, mas incorporar análises e na deterioração dos países periféricos em termos de trocas com os países centrais, o que ele chamou de novo colonialismo.
Já a contribuição de Tavares para esta temática foi trazer o oligopólio como centro da análise da microeconomia. “Ela era muito exigente em relação à qualidade dos dados para validar os projetos de doutorado.”
Apesar do otimismo em relação ao Brasil, Coutinho, que era também um amigo pessoal, conta que Maria da Conceição foi ficando mais cética e desencantada com a situação do país e também pela própria condição: devido à idade, foi morar com a filha em Friburgo, onde não contava com as visitas de amigos que costumavam limitá-la em seu apartamento no Rio de Janeiro.
Fascinante
Também convidado da TVGGN, Fernando Nogueira comentou que as aulas de Tavares eram intensas, devido ao bombardeio de ideias e pelo estímulo ao estudo. “Não quero saber desse marxismo de merda”, enfatizava.
Para o também docente da Unicamp, uma das principais lições ensinadas por Maria da Conceição foi o compromisso com as evidências. “Fernando, nunca diga nada sem mostrar evidência empírica, senão vão te acusar de ideologia, senão vão descartar. Agora se você apresenta os números oficiais e a pessoa discordar, ela vai brigar com os números.”
E esta exigência, claro, era frequente em sala de aula. “Amanhã cedo eu quero essa lousa cheia de números, estatísticas. Vocês não vão abrir a boca se não apresentarem estatísticas”, afirmou.
Confira as entrevistas na íntegra e o comentário de Pedro Costa Jr. sobre legado de Conceição Tavares e sobre as eleições na Europa e o crescimento da ultra-direita no velho continente:
LEIA TAMBÉM:
Deixe um comentário