25 de junho de 2026

O esquecido hélio e a produção de chips, por Luiz Alberto Melchert

Não porque faça parte dos chips, mas porque, sem ele, simplesmente não há chips. Sem hélio, as linhas de produção deixam de operar.
Reprodução Pixabay

Estados Unidos dominam a produção mundial de hélio, essencial para fabricação de semicondutores, há mais de cem anos.
Interrupção no Estreito de Ormuz ameaça fornecimento de hélio do Catar, impactando produção de chips em Taiwan.
Hélio é insubstituível no processo produtivo de chips, tornando-se elemento estratégico na geopolítica atual.

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O esquecido hélio e a produção de chips

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por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Há mais de cem anos, os Estados Unidos já dominavam a recuperação do hélio a partir do gás natural, tornando-se praticamente os únicos fornecedores mundiais. Na Alemanha, desenvolviam-se os dirigíveis, que dependiam de um gás mais leve que o ar. Os alemães dominavam a obtenção do hidrogênio por hidrólise, mas sua elevada inflamabilidade era um risco permanente, como o mundo inteiro constataria no incêndio do Hindenburg.

A alternativa era o hélio. Entretanto, os Estados Unidos recusaram-se a fornecê-lo à Alemanha por ser estratégico. Nos anos 1920, a aviação alemã ainda estava limitada pelas restrições inerentes ao Tratado de Versalles, enquanto os dirigíveis ficavam de fora. Com a ascensão do nazismo, o hélio passou a integrar um conjunto mais amplo de restrições comerciais e militares.

Quase um século depois, o hélio volta a ocupar posição semelhante, embora raramente apareça no debate público. Diferentemente de diversos minerais estratégicos, cuja importância relativa pode diminuir com o desenvolvimento de materiais alternativos, o hélio permanece praticamente insubstituível na fabricação de semicondutores. Não porque faça parte dos chips, mas porque, sem ele, simplesmente não há chips. Pode-se dispor do silício, do gálio, do germânio, das terras raras e de todos os demais insumos da indústria eletrônica. Sem hélio de elevada pureza, as linhas de produção deixam de operar. É justamente essa característica que transforma um gás quase invisível para a opinião pública em um dos elementos centrais da geopolítica contemporânea.

Ao longo das décadas seguintes, o petróleo assumiu o protagonismo da geopolítica. Crises internacionais passaram a ser interpretadas sob a ótica da energia, relegando o hélio a uma posição aparentemente secundária. Entretanto, enquanto o petróleo movia automóveis, navios e aviões, uma nova economia começava a surgir silenciosamente. A revolução digital não eliminou a importância dos demais insumos, apenas alterou a ordem de precedência. O carvão concentrou-se na siderurgia, o petróleo consolidou-se como o principal combustível da economia industrial e, discretamente, o hélio passou a ocupar posição semelhante na economia dos semicondutores.

Ao contrário do silício, do gálio, do germânio e das terras raras, o hélio não faz parte do chip acabado. Ele á usado no processo de fabricação. Graças à combinação de propriedades que nenhum outro elemento reúne, ele tornou-se indispensável em diversas etapas da produção de semicondutores. Sem um fornecimento contínuo de hélio de elevada pureza, as linhas de fabricação simplesmente deixam de operar. Não se trata, portanto, de uma matéria-prima, mas de um insumo inerente ao processo produtivo. É ele que garante atmosfera estéril com temperatura controlada a centésimo de grau.

Sempre que o abastecimento de um mineral utilizado na composição de um produto se torna incerto, pesquisam-se materiais alternativos. O hélio é único; mais inerte que o nitrogênio, quase tão bom condutor de calor quanto o hidrogênio e não é inflamável. Por enquanto, não dá para substituí-lo, mas tenta-se reduzir seu consumo e aumentar sua recuperação para reuso. A tendência é minimizar seu emprego, sem perspectiva de substituição.

A literatura econômica costuma classificar como estratégicos os recursos naturais de alto valor de uso ou os com alta concentração geográfica. Essa classificação não esgota o problema. Um recurso pode ser relativamente abundante e, ainda assim, desempenhar papel decisivo caso sua ausência interrompa uma cadeia produtiva inteira, como ocorre com o petróleo. Da mesma forma, um recurso extremamente valioso pode perder importância à medida que novos materiais ou novos processos permitam sua substituição, como aconteceu com a madeira.

Talvez o verdadeiro critério para medir a importância estratégica de um recurso natural não seja seu preço, nem  sua abundância, mas a possibilidade de ele ser substituído sem comprometer a continuidade do processo produtivo. Quanto menor essa possibilidade, maior tende a ser seu valor geopolítico, mesmo que seu preço continue baixo.

Recursos aparentemente desprezíveis podem assumir importância muito superior à de minerais frequentemente apontados como estratégicos. A criticidade de um item não advém apenas de sua presença no produto final, mas da sua função ao longo da cadeia de produção. Quando sua ausência impede que a produção sequer tenha início, controlar sua oferta deixa de representar apenas uma vantagem econômica e passa a instrumento de poder.

Num enfoque schumpeterianos, os eventos disruptivos trazem processos produtivos inusitados e, com eles, a necessidade de novos insumos. É de se esperar que a indústria de semicondutores exija materiais antes restritos aos laboratórios ou a processos artesanais.

O recente fechamento do Estreito de Ormuz trouxe o hélio para o centro da geopolítica. O motivo passou praticamente despercebido. O Catar é um dos maiores exportadores mundiais de hélio, oriundo do gás natural. Com a interrupção parcial desse fluxo, a produção de chips em Taiwan passou a conviver com o risco concreto de desabastecimento  do mais crítico de seus insumos.

Até o momento, os Estados Unidos vêm suprindo a falta. Ainda assim, a simples possibilidade de interrupção do fornecimento foi suficiente para alterar as expectativas do mercado. Afinal, uma eventual paralisação das fábricas de Taiwan reduziria significativamente a oferta mundial de chips, afetando cadeias produtivas que vão da indústria automobilística aos equipamentos militares.

Esse episódio evidencia um aspecto negligenciado nas análises geopolíticas. A preocupação internacional concentrou-se no boicote às terras raras. Entretanto, um insumo ausente no produto final mostrou-se capaz de produzir efeitos potencialmente mais severos, não por ser mais valioso, mas porque sua falta interrompe o processo produtivo.

Os Estados Unidos terceirizaram a produção de chips a Taiwan como meio de reduzir custos, ao mesmo tempo em que o cordão umbilical não se rompia graças ao fornecimento de projetos, hélio e mercado para os produtos acabados. Ao mesmo tempo, levou para longe um possível alvo em caso de conflito. O movimento reacendeu a cobiça da China pela ilha, porém, sem que o cordão umbilical fosse rompido de fato, mantendo-se preso aos Estados Unidos e ao Catar pelo hélio. A entrada da Rússia no mercado desse gás mudou as peças no tabuleiro, pois pode haver a ruptura que, até agora, não ocorreu, pondo em risco muito mais premente a “posse” da ilha.

O controle explícito do Estreito de Ormuz pelo Irã trouxe o obscuro hélio à baila como um fantasma a assombrar o que se entende por Norte Global. O mundo, sedento por chips, terá, a um só tempo, de buscar novos fornecedores, como a Tanzânia, e de repensar como as negociações geopolíticas serão conduzidas daqui por diante.

Ponhamos as barbas de molho.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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