Nazareth/ Pixinguinha/ Villa-Lobos/ Jobim (3)
por Walnice Nogueira Galvão
Por notável conjunção, Pixinguinha seria perpetuado em celulóide. Um precioso filminho de 3 minutos foi feito por Thomas Farkas em 1954, quando a Velha Guarda se apresentou nos festejos do IV Centenário de São Paulo. Meio século depois receberia tratamento de sonorização, por iniciativa do Instituto Moreira Salles. Nele vêem-se, ao vivo, tocando e dançando, Pixinguinha, João da Baiana, Donga, sob a batuta de Almirante, autor do No tempo de Noel Rosa, que então promovia a Velha Guarda. Com isso marcaria uma ressurreição do samba clássico, de morro, de partido alto, e dessas grandes figuras, verdadeira aristocracia do samba, que vemos elegantíssimos de terno e gravata, tirando firulas no pé.
Almirante, que foi cantor, compositor, instrumentista e produtor de programas de rádio, teve papel decisivo na preservação e promoção do samba. Com mentalidade de pesquisador, formaria coleções de discos e de partituras, além de arquivar recortes de periódicos. Seu acervo está preservado no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. Era rara essa consciência documental entre os praticantes e os aficionados.
Villa-Lobos, que tinha o ouvido atento à lira do povo, era um gênio exuberante, de onde brotavam sem cessar composições belíssimas e mesmo atrevidas, como as que ele atribuía à inspiração indígena – que estavam na moda em Paris, onde ele era conhecido e benquisto. Suas principais influências eram francesas: Debussy, Ravel etc. Chorão, freguês das serenatas pelas ruas do Rio, depois criaria os “Choros”, composições eruditas das quais fez 14 na série canônica, afora os avulsos. Também incluiria instrumentação inédita e inusitada, bem como inserção de melodias populares, folclóricas ou comerciais, em sinfonias e concertos. Sua obra, volumosa, abarcaria música de câmara, sinfonias, concertos, quartetos e trios etc. Só de sinfonias, 12! Seu cavalo de batalha foi o nacionalismo. Mas não só dele. À época, era intensa entre os artistas a busca de uma identidade brasileira.
Sua mais difundida obra é sem dúvida a Bachiana no. 5, onde a combinação pouco usual de soprano com violoncelo é de uma beleza pungente. As várias Bachianas são uma produção ousada em matéria de tratamento de materiais e instrumentos, bem como aproveitamento do popular (a de no. 5 tem a soprano cantando em português).
Foi o mais célebre compositor latino-americano do séc. XX e sem dúvida sua presença atual nos repertórios de concerto mundo afora não tem paralelo.
Ficaria mais conhecido ainda devido a seu projeto de canto orfeônico, que contou com o apoio decidido de Getúlio Vargasr. O Ministro da Cultura Gustavo Capanema facultou-lhe lançar mão de meios e instituições. Os programas de canto orfeônico tornaram-se obrigatórios nas escolas e alastraram-se Brasil afora. Graças a isso, apesar de criticado por buscar suporte na ditadura, muita gente teve o berço embalado pelas modinhas que nossas mães aprenderam na Escola Normal, e que relevam de uma estética entre nacionalista e romântico.
As canções privilegiadas eram “Casinha pequenina”, “Tão longe de mim distante” de Carlos Gomes, “O gondoleiro do amor” (com letra de Castro Alves), “O Pinhal”(sobre poema de Paulo Setubal), árias de O Guarani (“Florestas virgens brasileiras…”), entre outras.
Afora ser o maior músico erudito de nossa História, Villa-Lobos também seria celebrado como “o músico do Modernismo”. Mereceu o título. Comandou e regeu pessoalmente a música da Semana de Arte Moderna de 1922, até calçando um chinelo no pé machucado, o que foi interpretado como desfaçatez futurista. Parte da música era de sua autoria, nos três dias de duração.
Uma grande notícia é a de que, depois de um século, essa música foi recuperada e gravada pelos cuidados de Flávia Camargo Toni, musicóloga do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB – USP), em edição que além de erudita é caprichadíssima, contando com livretos, novos estudos, amostras da pesquisa, e gravações tinindo de novidade. A caixa de 4 CDs do Selo Sesc chama-se TodaSemana: Música e Literatura na Semana de Arte Moderna e é uma preciosidade.
Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP
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