Nazareth/ Pixinguinha/Villa-lobos/Jobim (2)
por Walnice Nogueira Galvão
Ernesto Nazareth bem que mereceria um filme de longa-metragem. Documentário ou ficção, mas de preferência ficção, e ficção biográfica. Somos berço de uma pletora de músicos maravilhosos, mas o cinema não corresponde. Devíamos aprender com Hollywood, onde há perto de um século o cinema se dedica à música. Basta lembrar que o primeiro filme falado, o celebérrimo O cantor de jazz, mostra Al Jolson cantando. Ou seja, o nascimento do cinema falado é marcado pela música. E não parou mais. Musicais conspícuos da Broadway vão tradicionalmente para as telas. A safra anual é farta e, embora nem sempre, pode ser de qualidade.
O que nos falta? Não são os músicos, com certeza. Ficamos imaginando o que poderia ter sido um encontro entre os talentosos cineastas do Cinema Novo, como Glauber Rocha e, digamos, Ernesto Nazareth. Ou mesmo algum mais recente, como Cartola (de vida riquíssima e ilustrativa do destino de um artista negro), que ganhou um documentário de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda. Ou outro, comovente, de Nelson Cavaquinho, com sua voz rouca e seu jeito recatado, que ganhou um curta de Leon Hirszman
Para nossa sorte já temos Pixinguinha – Um homem carinhoso, que aproveitou para título sua composição mais famosa.
Pixinguinha é um daqueles “homem dos sete instrumentos”, que no seu caso ultrapassavam essa cifra. Ele tocava tudo, ou quase tudo: flauta, saxofone, violão, piano, os vários da percussão… E o que ele tocava não era só como acompanhamento, mas como instrumento solista. Foi um grande arranjador para orquestra e chegou a compor para teatro de revista. Trabalhou muito no rádio, em seus primórdios.
Na juventude já estava em Paris, onde ficou por um semestre, apresentando-se em casas noturnas. comandando Os Oito Batutas e fazendo sucesso. O repertório incluía o que estava na moda no Brasil – choros, naturalmente, mas também maxixes, xotes, valsas, música sertaneja, tudo sob forte influência do jazz.
O talento de Pixinguinha jorrava aos borbotões. Era dos raros músicos que liam e escreviam partituras, quando quase todos os artistas populares tocavam de ouvido. Logo demonstraria liderança como maestro, o que, somada a sua indiscutível genialidade, tornava-o único.
Dentre suas composições, estas duas são as que mais o evocam: os grandes sucessos Carinhoso e Rosa. Ambas se igualam porque são instrumentais, ou seja, não foram compostas para canto mas para execução. Ambas atingem sua potência estética máxima quando soladas na flauta. Mais tarde ganhariam letras de autores alheios.
O primeiro é um lindo choro dos mais chorados, com melodia dolente mas não triste e depressiva, como queria Mário de Andrade. A letra combina com a música e é uma tocante declaração de amor, em que o postulante exalta seus atributos amatórios, oferecendo-os à apreciação da amada. A segunda é uma valsa-canção, ou valsa-choro, cheia de firulas, com destaque para a letra. Letra complicadíssima, relevando de uma estética rebuscada. É cheia de palavras inusitadas ou desusadas, e torneios sintáticos de causar torcicolo. Mas os volteios da melodia são encantadores.
Soa empolada e pomposa, talvez o ápice de uma tendência de letras parnasianas, que vinha desde as modinhas imperiais, em que era perito o letrista Orestes Barbosa, autor de várias obras-primas, inclusive ”Chão de estrelas”. Esta contém o que Manuel Bandeira considerava o mais perfeito verso da língua portuguesa: o decassílabo “Tu pisavas os astros distraída”.
E é uma proeza o fato de constituir uma única metáfora, que enumera e enaltece os dons da amada, começando por “Tu és”… e continuando até o fim, onde, presumivelmente, aguarda o casamento. É o que tecnicamente se chama uma metáfora extensa, ou estendida.
Uma rima a reter: “olente” com “dolente”, e faz sentido – o que não é de se desprezar numa letra pouco preocupada com isso.
Exemplar pela opulência verbal derramada, beirando o surrealismo, ou o delírio, também é uma declaração de amor.
É de difícil execução, e, embora muito gravada nos mais diferentes estilos, tente cantá-la e não se acanhe ao ouvir o resultado…
Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP
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