16 de junho de 2026

Maria da Conceição Tavares – a luta por justiça social, por Bruno Alcebino da Silva

Sempre foi uma defensora da liberdade de pensamento. “De todos os direitos, (o livre pensar) é o que tem sido mais recorrentemente violado”
Ricardo Stuckert

Maria da Conceição Tavares – a luta por justiça social

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por Bruno Fabricio Alcebino da Silva

Hoje, o Brasil perdeu uma de suas mentes mais brilhantes e uma das maiores defensoras da economia crítica e socialmente comprometida: Maria da Conceição Tavares, aos 94 anos. Mais do que uma economista, Tavares foi uma intelectual engajada que dedicou sua vida a pensar a economia como uma ciência social, intrinsecamente ligada às questões de justiça e equidade. Foi professora de várias gerações de economistas no atual Instituto de Economia da UFRJ e no Instituto de Economia da Unicamp. Como uma das criadoras da pós-graduação em economia no Brasil, ela desempenhou um papel fundamental na formação acadêmica e intelectual de inúmeros profissionais.

Além de sua atividade docente, Tavares exerceu atividades de pesquisa em instituições renomadas como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL). Sua obra foi profundamente influenciada por grandes economistas da CEPAL e do BNDES, como Raúl Prebisch, Celso Furtado e Aníbal Pinto. Tavares demonstrava em seus escritos uma preocupação constante em pensar a América Latina, abordando suas especificidades econômicas e sociais. Seu legado intelectual reflete um compromisso inabalável com a busca por soluções que promovam o desenvolvimento equitativo e sustentável da região. Sua visão pioneira e humanista da economia continua a ressoar fortemente, especialmente em tempos de grandes desafios econômicos e sociais, como os que vivemos hoje.

Indo para minhas memórias pessoais, lembro que assim que entrei para a faculdade (como estudante de economia), fui apresentado à obra de Tavares e fiquei encantado. Suas análises penetrantes e a maneira como integrava a economia com questões sociais e políticas me capturaram imediatamente. Tavares não era apenas uma economista; era uma pensadora visionária que via a economia como uma ferramenta para alcançar justiça social. Suas críticas afiadas e bem fundamentadas ao modelo econômico vigente abriram meus olhos para a importância de um olhar crítico e humanista nas ciências econômicas. Foi lendo Tavares que compreendi a profundidade e a complexidade da economia, não apenas como uma disciplina técnica, mas como uma ciência profundamente interligada com as realidades humanas.

A economista nunca se contentou com análises frias e desprovidas de contexto social, mesmo vindo do campo das ciências exatas. Em uma entrevista marcante ao programa Roda Viva da TV Cultura em 1995, ela disse: “A economia que não se preocupa com a justiça social é uma economia que condena os povos a isso que está ocorrendo no mundo inteiro, uma brutal concentração de renda e de riqueza, o desemprego e a miséria. (…) Isso é coisa de tecnocrata alucinado, que acha que está tudo ok, e não está nada ok.” Esta frase encapsula a essência do pensamento de Tavares: a economia não pode ser separada das realidades humanas e sociais. Ela sempre defendeu que políticas econômicas devem ter como objetivo primordial a redução das desigualdades e a promoção do bem-estar social.

A crítica de Tavares às políticas econômicas tradicionais também foi contundente. Ela desafiou o mantra de que é preciso primeiro estabilizar a economia para depois crescer e, só então, distribuir riqueza. “Primeiro estabilizar, depois crescer e depois distribuir é uma falácia. Não estabiliza, cresce aos solavancos e não distribui. Essa é a história da economia brasileira desde o pós-guerra”, afirmou. Esse mantra atribuído ao ministro da Fazenda, Antonio Delfim Neto, um dos formuladores do chamado “milagre econômico”, que ocorreu entre os anos de 1967 e 1973, revelou-se, com o tempo, um fracasso retumbante, deixando um legado de desigualdade e instabilidade econômica. Tavares sempre argumentou que a verdadeira estabilidade econômica só pode ser alcançada quando o crescimento é inclusivo e os benefícios são distribuídos de maneira justa.

Além disso, a economista sempre foi uma defensora fervorosa da liberdade de pensamento. “De todos os direitos, (o livre pensar) é o que tem sido mais recorrentemente violado”, afirmou. Este pensamento é particularmente pertinente hoje, quando vemos desafios crescentes à liberdade acadêmica e ao debate crítico no Brasil e no mundo. Tavares nos lembra que, sem liberdade para questionar e criticar, não há progresso real, nem na economia, nem na sociedade.

Em tempos recentes, a relevância das idéias de Tavares ressoam com uma intensidade surpreendente. Sob a liderança de Fernando Haddad no Ministério da Fazenda, o atual governo Lula III adotou uma política fiscal voltada para o déficit zero (dentro do Novo Arcabouço Fiscal), uma escolha que parece mais alinhada aos interesses do setor financeiro do que às preocupações sociais que Tavares tanto defendia. Sua crítica contundente ao modelo que prioriza a estabilidade fiscal em detrimento das políticas sociais ecoa hoje mais do que nunca, especialmente em um cenário político e social polarizado como o que vivemos.

A proposta de Haddad, de manter a economia sob controle através do déficit zero, pode ser interpretada como uma tentativa de estabilidade, porém, a história que Tavares nos conta nos alerta sobre os perigos de negligenciar a dimensão social da economia. A ênfase excessiva na austeridade fiscal pode resultar em consequências adversas para os mais vulneráveis, perpetuando desigualdades e dificultando o acesso a serviços essenciais.

Parece que Haddad, apesar de ocupar uma posição de destaque na gestão econômica do país, não absorveu completamente as lições de uma das maiores economistas de nossa história. Ao tentar equilibrar as expectativas da ala progressista com as demandas dos financistas da Faria Lima, ele parece estar desagradando a ambos, comprometendo a eficácia de suas políticas e minando a confiança de diversos setores da sociedade.

A perda de Maria da Conceição Tavares deixa um vazio imenso, mas suas ideias e seu legado continuam a nos inspirar. Ela nos ensinou que a economia não é apenas sobre números e gráficos, mas sobre pessoas e suas vidas. Seu compromisso com a justiça social e sua crítica às políticas que negligenciam os mais vulneráveis são lições valiosas que precisamos lembrar e aplicar, especialmente em momentos de crise. Que sua memória nos guie na construção de um mundo mais justo e humano. Como ela disse em sua última entrevista à revista Margem Esquerda: “Eu não desisto deste país. Apesar de todas as desgraças de hoje, eu continuo achando que o Brasil é o país do futuro. O Brasil tem futuro!”. Ora, se ela nunca desistiu, por que nós desistiríamos?


Bruno Fabricio Alcebino da Silva – Bacharel em Ciências e Humanidades e graduando em Relações Internacionais e Ciências Econômicas pela Universidade Federal do ABC (UFABC). Pesquisador do Observatório de Política Externa e Inserção Internacional do Brasil (OPEB).

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