Morreu, neste sábado (8), a economista Maria da Conceição Tavares, referência no pensamento desenvolvimentista, aos 94 anos, enquanto dormia, de acordo com o comunicado de amigos. A família pede discrição.
A economista nasceu em Anadia, em Aveiro, Portugal, em 1930 e cresceu em Lisboa. Inicialmente, estudou Engenharia na Universidade de Lisboa, mas em seguida optou pela formação em Ciências Matemáticas.
Mudou-se para o Brasil em 1954 para fugir da ditadura salazarista. Naturalizou-se brasileira três anos depois e, além de uma carreira como estatística no Instituto Nacional de Imigração e Colonização (Inic), ela também cursou Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em que era professora emérita.
Era conhecida por suas contribuições para o entendimento da economia brasileira e latino-americana. Ela é considerada uma das principais vozes críticas do modelo econômico predominante no Brasil durante boa parte do século XX, especialmente durante os períodos de ditadura militar.
Tavares é conhecida por sua análise profunda das relações entre a economia política e o desenvolvimento nacional, defendendo políticas econômicas que priorizem a inclusão social e a redução das desigualdades. Ela também foi uma das vozes proeminentes no debate sobre a dívida externa do Brasil e o papel das instituições financeiras internacionais na economia global.
Ao longo de sua carreira, Maria da Conceição Tavares publicou diversos livros e artigos acadêmicos que influenciaram não apenas o pensamento econômico no Brasil, mas também em outros países latino-americanos. Sua obra é reconhecida por sua profundidade teórica e seu compromisso com a transformação social.
Recentemente, em entrevista ao Blog da Boitempo, a economista deixou seu último recado. “Apesar da idade avançada e da saúde, o importante é nunca se entregar. Não entrego nada. ‘Só me entrego na morte / De parabelo na mão’. Para além de lições e contribuições econômicas, o importante é deixar um sentimento de otimismo e esperança para inspirar as gerações futuras. Eu não desisto deste país. Apesar de todas as desgraças de hoje, eu continuo achando que o Brasil é o país do futuro. O Brasil tem futuro!”.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prestou uma homenagem à Maria da Conceição no Instagram. “Tive o prazer e a honra de conviver e conversar muito com minha amiga ao longo dos anos, debatendo o Brasil e os nossos desafios sociais e econômicos no Instituto Cidadania, em conversas no Rio de Janeiro ou em viagens pelo Brasil.”
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DOUGLAS BARRETO DA MATA
8 de junho de 2024 2:21 pmMuita tristeza.
O enfrentamento intelectual proporcionado por Tavares é um legado que, temo, não será levado adiante pela mediocridade teórica de seus sucessores.
Apesar do incurável otimismo (para mim, seu único “defeito”), foi crucial a sua crítica ao modelo desenvolvimentista nacional (leia-se Celso Furtado e outros),quando demonstrou, teoricamente, e enxergou como poucos, a impossibilidade de ciclos duradouros de expansão em economias periféricas, e que sempre resultam em mais exclusão social nos periodos de retração.
Por isso intuía que a luta pelo fim da desigualdade nos daria a chave para a superação de um modelo econômico que tem na desigualdade sua mola estrutural, o capitalismo.
No Brasil, não houve (e nem haverá) outra.
Os “ecometristas” deveriam rasgar seus diplomas e silenciarme para sempre, em homenagem a ela.
+almeida
9 de junho de 2024 1:06 amConhecimento, coragem, independência e um engajamento político invejável, sério e extremamente respeitado pela qualidade e firmeza de um pensamento atualizado e avançado no tempo.
Maria da Conceição Tavares ainda continuará sendo um rico e raro exemplo para muitas mulheres destemidas, ousadas e seguidoras da sua luta exemplar, de contribuir para que o Brasil seja realmente um país de todo futuro.
Sua existência e a sua brilhante carreira profissional, já se fazem registradas nas páginas de destaque da história do Brasil.
Que receba muita luz em sua nova missão.