17 de junho de 2026

Liberal, neoliberal e as confusões ideológicas: esclarecimentos, por Marcos Verlaine

Quem é de esquerda não pode pensar e repetir estes estereótipos, muito menos em público. Socialismo e comunismo são a mesma coisa?
Ilustração: blogue Escola Portuguesa

do Diap – Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar

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Liberal, neoliberal e as confusões ideológicas: esclarecimentos

Liberalismo não é a mesma coisa que neoliberalismo. Pobre não deve ser associado, automaticamente, à esquerda, pelo fato de ser pobre. Este esclarecimento é necessário para tentar evitar que saiam por aí com o bordão preconceituoso, famoso e equivocado — “pobre de direita” —, que não passa de elitismo intelectual da esquerda. Quem é de esquerda não pode pensar e repetir estes estereótipos, muito menos em público. Socialismo e comunismo são a mesma coisa?

por Marcos Verlaine

Liberalismo é corrente econômica, política social e moral baseada na liberdade, consentimento dos governados e igualdade perante a lei. Os liberais defendem ampla gama de pontos de vista, dependendo da compreensão desses princípios.

Mas, em geral, apoiam ideias como governo limitado, em relação aos poderes; direitos individuais, incluindo civis e humanos; livre mercado; democracia; igualdades de gênero e racial; liberdades de expressão, de imprensa e religiosa. E não defendem Estado mínimo. Os verdadeiros liberais, digo. Do contrário, não o são.

Os verdadeiros liberais, mesmo os conservadores, não querem impingir maldades contra aqueles que dão comida a quem tem fome na rua, ou impor suplício às mulheres, jovens e crianças, que abortam gravidezes originadas de estupros.

A Constituição de 1988 é liberal. Basta ler o longo capítulo sobre os “Direitos e Garantias Fundamentais”, os “Direitos e Deveres Individuais e Coletivos” e o que trata dos “Direitos Sociais”.

Winston Churchill
O celebrado, respeitado e histórico primeiro-ministrado britânico, Winston Churchill, pela obra do biógrafo oficial, o jornalista e historiador Martin Gilbert — Winston Churchill – Uma vida — escreveu lá no prefácio da biografia, página 13: “Churchill foi um radical; [ele era liberal e conservador] um verdadeiro crente na necessidade de interferência do Estado por meio da legislação e financeiramente e de garantia de padrões mínimos de vida, trabalho e bem-estar social para todos os cidadãos.”

“Entre as áreas de reforma social em que teve importante papel, incluindo a criação de muitas leis, estão a reforma social em que teve importante papel, incluindo a criação de muitas leis, estão reforma das prisões, os seguros-desemprego, as pensões do Estado para viúvas e órfãos, mecanismo de arbitragem para as disputas laborais, assistência do Estado para quem procura emprego, menor jornada de trabalho e melhores condições nas fábricas e oficinas.”

Churchill foi “também adepto do Serviço Nacional de Saúde [o celebrado SUS da Grã-Bretanha], do maior acesso à educação, da tributação dos lucros extraordinários e de coparticipação dos empregados nos lucros.”

Neoliberalismo
É a radicalização do liberalismo econômico. Surgido ali nos idos das décadas de 70 e 80, do século passado, cujos precursores políticos mais relevantes — Margaret Thatcher, na Inglaterra, e Ronald Regan, nos EEUU —, levaram aos estertores estes pressupostos econômicos, políticos e sociais para os países de economia em desenvolvimento, como é o caso do Brasil.

O neoliberalismo consiste na redução do Estado, ao mínimo, privatização de estatais, inclusive as estratégicas, e desregulamentações de direitos e regulamentação de restrições — as contrarreformas — trabalhista, de Temer, e previdenciária, de Bolsonaro, por exemplo, que conhecemos bem seu caráter.

Portanto, não se pode chamar os governos Temer e Bolsonaro, Centrão, partido Novo, MBL, Campos Netto e outros tantos, de liberais, porque não o são. Liberal neokeynesiano é Lula, no plano econômico, que fez e faz, na medida do possível, governos neokeynesianos, que na crise extrema contrata trabalhador para abrir buraco e outro para fechar, para evitar a depressão econômica.

Políticas sociais de transferência de renda nada têm de esquerdistas ou “comunistas”. São neokeynesianas. Aquelas do economista inglês John Maynard Keynes (1883-1946), que preconizava no livro “A teoria geral do emprego, dos juros e da moeda”, a intervenção do Estado na economia, por meio de benefícios sociais e políticas fiscais.

“Pobre de direita”
Esta é clássica, como provocação ou indignação da militância de esquerda, quando se depara com a aparente contradição de o pobre votar e defender políticos de direita. Mas essa premissa é falsa, à esquerda ou à direita, pois não há relação, nem direta nem tampouco indireta, deste segmento majoritário da sociedade brasileira ter de ser de esquerda por sua condição socioeconômica, a pobreza.

Posições ou matizes políticos não são naturais, como a chuva que cai do céu ou o rio que corre o leito. Ideologia é resultado de mediações políticas, econômicas, sociais, materiais e culturais. Do contrário, o Brasil estaria cheio de esquerdistas e subversivos nas imensas periferias, comunidades e favelas deste País.

Sobre isto, sugiro leitura mais completa do artigo: “O ‘pobre de direita’ e a esquerda perplexa: um esclarecimento

Socialismo e comunismo
Outra confusão, agora à direita, nestes tempos de novilíngua bolsonarista, é ver “comunismo” em tudo. Em 2016, no mês de novembro, depois do golpe do impeachment da presidente Dilma, grupo de cerca de 500 manifestantes invadiu o Congresso Nacional pedindo intervenção militar.

Entre os manifestantes estava Rosangela Elisabeth Muller, que chamou a atenção nas redes sociais ao publicar vídeo em que aparecia questionando o que seria a “nova” bandeira nacional.

Em 2016, não havia bolsonarismo. Do afastamento de Dilma até então, a coisa só piorou no Brasil.

“Estamos no Congresso Nacional e nos deparamos com uma cena nojenta. Reparem aqui: a nossa bandeira tem um símbolo vermelho comunista. Veja aqui o que está acontecendo. Será essa a nova bandeira do Brasil?”, dizia Rosangela enquanto mostrava, na verdade, o logo escolhido para celebrar o primeiro centenário da imigração japonesa no Brasil. A frase virou mico e a internet não perdoou.

Os bolsonaristas, por exemplo, dizem até hoje que a vitória, em 2018, do ex-presidente inelegível foi o fim do “comunismo” no Brasil. Isto parece transe política. O governo de Temer foi “comunista”?

Vamos aos conceitos.

Segundo Karl Marx, com vista à teoria da transição, o socialismo seria etapa intermediária para outro sistema superior — o comunismo —, tornado possível somente após o pleno desenvolvimento das forças produtivas, “missão histórica” do capitalismo e do chamado proletariado, a classe, segundo o revolucionário alemão, insubmissa ou revolucionária, “porque nada tem [ou teria] a perder”.

O comunismo, ainda segundo Marx, seria a fase superior do socialismo, com a extinção do Estado, como ente pleno e opressor, da “classe operária revolucionária” e das classes sociais antagônicas — burguesia e proletariado — isso seria o alcance do nirvana.

No Brasil, desde sempre, a propaganda do “comunismo” sempre foi feita pelos inimigos do socialismo e do comunismo, este que nunca existiu na prática, em canto nenhum do mundo. Por óbvio, essa sempre foi enviesada, preconceituosa e mentirosa, no mais das vezes.

Quando esse Estado — comunista — ou onde esse modelo político, econômico e social foi implementado no mundo, do século 19 até então?

Marcos Verlaine Jornalista, analista político e assessor parlamentar do Diap

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. Antonio Uchoa Neto

    11 de julho de 2024 3:58 pm

    Fui ao artigo “O Pobre de Direita e a Esquerda Perplexa”, mencionado pelo autor, e lá encontrei um comentário meu, em que dizia, entre outras coisas:

    “O pobre, que sabe que é pobre, pensa que a única alternativa a esse estado de coisas é ser rico. (…) Mas, ainda que a realidade se imponha e ele perceba que as coisas não são tão simples assim, ao menos uma certeza eles retém: eu não sou pobre. (…) Já disse isso aqui, algumas vezes, mas repito: moro em bairros pobres desde que cheguei a Salvador, em 1989. E é sintomático (de uns tempos pra cá tenho percebido), que eu diga ‘moro em bairro pobre’, e não ‘sou pobre, portanto moro em bairro pobre’. (…) Conversando eventualmente – antes, hoje já não tenho a mesma disposição – com esses mesmos interlocutores, não só da família da minha mulher, como também com vizinhos ou mesmo conhecidos, percebi, desde cedo, que alguns ficavam mortalmente ofendidos quando eu insinuava sermos, todos nós, moradores de bairro pobre, pobres. Alguns casais, com um ou dois filhos, morando em casa alugada, e renda familiar em torno de 5 a 8 mil reais, igualmente se manifestavam tremendamente contrariados com essa “classificação”. Não sei a que atribuir isso.
    O que sei é que não adianta a esquerda produzir toneladas de textos, todos bem fundamentados e com argumentações coerentes e plausíveis: O POBRE NÃO LÊ.
    O pobre não tem condições de absorver um texto, compreendê-lo e criticá-lo, e finalmente, posicionar-se diante do que leu. O povo sequer se detém, hoje, em frente a banca de jornais, para ler manchetes, porque essas coisas não existem mais. (…) A grande obra da elite brasileira: 521 anos mantendo o povo na ignorância, longe de qualquer possibilidade de acesso ao estudo, e ao desenvolvimento de um mínimo de capacidade crítica.”

    Sim: em 2016, não havia bolsonarismo. Mas era uma serpente que já estava no ovo. Isso é claro, não? A vocação da classe média brasileira – a qual pertence, seguramente, a cidadã Rosangela Elisabeth Muller – sempre esteve clara; apenas esperava por um fdp qualquer que lhe ajudasse a quebrar a casca do ovo – pelo lado de dentro, é difícil fazer isso, quando não se é uma ave ou um réptil.

    E sim, a expressão ‘pobre de direita’ pode ser resultado de uma premissa falsa, ou de um erro conceitual; mas, amigo, mesmo falso ou errado, eles existem, mormente em bairros pobres – onde ainda moro. E são – afirmo isso porque o testemunho, diariamente, ainda hoje -, algumas vezes, negros, homossexuais, umbandistas, enfim, todos aqueles que sofreram, na carne, a intolerância e as falácias do neoliberalismo. Alguns abjuraram dessa praga; outros seguem firme em sua cegueira ignorante.

    Peço licença ao Nassif, para fazer um pequeno comercial, mas trato de alguns desses problemas em um livro recentemente lançado pela Kotter Editorial, “Fenomenologia do Desempregado”. Os leitores do GGN talvez encontrem alguns tópicos interessantes, nele. Mas confesso que me sinto na mesma armadilha que apontei em meu comentário de 2021: O POBRE NÃO LÊ. Mas sou persistente.

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