Os novos bárbaros e a decadência do império
por Fábio de Oliveira Ribeiro
Durante um longo período após a II Guerra Mundial, os EUA era um país com mais superavit comercial no planeta. A recuperação europeia e o crescimento do Japão e, depois, a explosão de crescimento continuado da China, transformou os EUA num país comercialmente deficitário.

Mas o que parece um problema pode ser um indício de força econômica porque:
“For many economists, however, the trade deficit has been scapegoated, and they argue that the trade deficit is not itself a problem for the U.S. economy. That’s because a larger trade deficit can be the result of a stronger economy, as consumers spend and import more while higher interest rates make foreign investors more eager to place their money in the United States.”
https://www.cfr.org/backgrounder/us-trade-deficit-how-much-does-it-matter
TRADUÇÃO:
“Para muitos economistas, no entanto, o deficit comercial tem sido o bode expiatório, e eles argumentam que o deficit comercial não é em si um problema para a economia dos EUA. Isso porque um deficit comercial maior pode ser o resultado de uma economia mais forte, já que os consumidores gastam e importam mais, enquanto taxas de juros mais altas tornam os investidores estrangeiros mais ansiosos para colocar seu dinheiro nos Estados Unidos.”
A trajetória da economia brasileira foi um pouco diferente da europeia e japonesa, porque apesar do vertiginoso crescimento industrial nos anos 1950 (um resultado da política industrial getulista) em meados da década de 1970 o Brasil se tornou extremamente endividado. Todavia, esse endividamento começou a ser paradoxalmente explorado como uma vantagem comparativa porque o calote da dívida poderia provocar o colapso do sistema bancário privado internacional. Sobre esse assunto citaremos apenas um autor perspicaz:
“Os estados-maiores refletem hoje sobre a dissuasão do ‘Forte sobre o Fraco’. Podemos perguntar-nos se o conceito tem alguma validade entre Norte e Sul. Quando vemos os dirigentes etíopes sacrificar voluntariamente uma parte de seu povo pela fome com o objetivo de forçar o Ocidente a financiar sua política megalômana, pode-se duvidar de sua sensibilidade a uma lógica de dissuasão. Mais desconcertante ainda foi a determinação com que os países devedores latino-americanos agravaram sua dívida até o ponto de propositalmente colocarem em perigo o sistema financeiro internacional. Eles puderam, então, negociar com os credores em posição de força. Havia aí uma verdadeira lógica de dissuasão do fraco sobre o forte. ‘Não tenho nada a perder, posso explodir sua casa, você tem que cumprir minhas exigências.’ Nessas condições, é de se perguntar se algum dia será possível exercer uma dissuasão qualquer contra poderes tão determinados.
O Sul, pois, não é tão desprotegido assim em face ao Norte. Um novo equilíbrio é possível. Ele supõe, por parte do Norte, a revisão de todos os conceitos estratégicos, a vigilância de uma enorme e fragmentada linha, mesmo que algumas zonas sejam mais instáveis, concentrando o perigo.” (O império e os novos bárbaros, Jean-Chistophe Rufin, editora Biblioteca do Exército, Rio de Janeiro, 1996, p. 193/194)
A revisão estratégica mencionada por Jean-Chistophe Rufin ocorreu nos EUA a partir do momento que aquele país reestruturou seu poder com base numa combinação eficiente de deficit comercial, superávit financeiro e endividamento público. Os lucros obtidos pelos parceiros comerciais norte-americanos são reciclados em Wall Street, possibilitando aos EUA financiar sua imensa máquina de guerra com endividamento público. Parte desse endividamento público é utilizado para o desenvolvimento de novas tecnologias que podem ou não ter aplicações militares. Em 2008 esse modelo foi à bancarrota e desde então tem sido mantido artificialmente vivo.
O Brasil não é mais um país endividado, mas sua dependência dos EUA se tornou paradoxalmente maior. Isso porque, além de emitir os dólares que possibilitam as transações internacionais, os norte-americanos adquiriram outra imensa vantagem comparativa: o controle da infraestrutura de internet, através da qual a riqueza é criada e os fluxos econômicos entre os países se tornaram inevitáveis. Isso permite às Big Techs norte-americanas obter lucros imensos com propaganda em nosso território. Os barões norte-americanos do tecnofeudalismo vendem softwares e espaço em data centers para empresas e órgãos públicos brasileiros. Os dados gerados na internet por cidadãos do Brasil rapidamente se transformaram numa imensa fonte de poder econômico, político, eleitoral e geoestratégico das instituições públicas e privadas norte-americanas.
A reação brasileira à reorganização do império do Norte foi apostar na criação do G-20 e dos BRICS. O novo poder econômico/financeiro/tecnológico de dissuasão criado e desfrutado pelos EUA está sendo desgastado de diversas formas. Na Europa, a Rússia venceu o esforço de guerra norte-americano na Ucrânia. Mas os EUA reforçou seu controle sobre as economias dos países da UE. Na Ásia e no Oriente Médio, a presença norte-americana está sendo reduzida através da política externa de coexistência pacífica e prosperidade praticada pela China.
Na América Latina as derrotas eleitorais da direita pró-EUA e os golpes de estado fracassado sugerem a consolidação de um cenário desfavorável para Washington. A vitória de Maduro na Venezuela é mais um prego enfiado no caixão do Tio Sam. Ela também será sentida no Brasil como uma estaca no coração do bolsonarismo.
O mundo está sofrendo mudanças imensas num ritmo acelerado, mas a direção em que ele caminha não é aquela desejada pela extrema direita. O fracasso dela na França certamente abalou a autoconfiança dos ideólogos norte-americanos da alt-right. Nem Consenso de Washington, nem sobrevivência do império com base na produção e difusão de Fake News. Paris flerta com os BRICS e pode se tornar o elemento central de consolidação da grande virada mundial.
Durante quase 100 anos o regime saudita foi um dos principais parceiros dos EUA. Material bélico “made in USA” foi e ainda é comprado em grande quantidade pela Arábia Saudita. Além disso, a família Saud recicla em Wall Street os dólares adquiridos ao abastecer os norte-americanos com petróleo. Mas Washington já não pode mais nem mesmo confiar em parceiros históricos como a família real saudita.
Com a entrada da Arábia Saudita nos BRICS tudo indica a desdolarização da economia mundial será inevitável. Isso reduzirá bastante o superávit financeiro dos EUA.
Em breve, o défict comercial e o endividamento daquele país deixarão de ser vantagens comparativas para se tornar dois problemas medonhos para os norte-americanos. Nem Kamala Harris nem Donald Trump podem pacificar o mundo sem causar prejuízos para o império. E nenhum dos dois conseguirá conter os conflitos sociais decorrentes da explosão de miséria dentro dos EUA.
O BRICS ampliado não é uma aliança militar. China, Rússia, Irã, Brasil, etc querem coexistir com os EUA. Mas dificilmente os norte-americanos aceitarão deixar de ser os primeiros entre povos desiguais e subalternos (povos inferiores de acordo com a teologia da alt-right). O desejo dos governantes dos EUA de preservar a hegemonia imperial/financeira daquele país à qualquer custo vai provocar uma guerra nuclear ou apenas acelerar a decadência do White Ass Apes Empire? Essa é uma pergunta que só o tempo poderá responder.
Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.
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