16 de junho de 2026

Então o que realmente aconteceu em Kursk?, por Pepe Escobar

Qualquer coisa que Kiev faça depende do ISR americano (inteligência, vigilância, reconhecimento) e dos sistemas de armas da OTAN
Kursk-Nikoletta Stoyanova-EPA

no Strategic Culture

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Então o que realmente aconteceu em Kursk?

por Pepe Escobar

Um debate extremamente sério já está acontecendo entre círculos selecionados de poder/inteligência em Moscou – e o cerne da questão não poderia ser mais incandescente.

Para ir direto ao ponto: o que realmente aconteceu em Kursk? O Ministério da Defesa russo foi pego cochilando? Ou eles viram isso chegando e lucraram para montar uma armadilha mortal para Kiev?

Jogadores bem informados dispostos a compartilhar algumas pepitas sob condição de anonimato enfatizam a extrema sensibilidade de tudo isso. Um profissional de inteligência, no entanto, ofereceu o que pode ser interpretado como uma pista preciosa: “É bastante surpreendente ver que tal concentração de força não foi notada pela vigilância por satélite e drone em Kursk, mas eu não exageraria sua importância.”

Outro profissional de inteligência prefere enfatizar que “a seção de inteligência estrangeira é fraca, pois foi muito mal administrada.” Esta é uma referência direta ao estado de coisas depois que o ex-supervisor de segurança Nikolai “Yoda” Patrushev, durante a remodelação pós-inauguração de Putin, foi transferido de seu posto de secretário do Conselho de Segurança para servir como assessor presidencial especial.

As fontes, cautelosamente, parecem convergir para uma possibilidade muito séria: “Parece ter havido um colapso na inteligência; eles não parecem ter notado o acúmulo de tropas na fronteira de Kursk”.

Outro analista, no entanto, ofereceu um cenário muito mais específico, segundo o qual uma facção militar agressiva, espalhada pelo Ministério da Defesa e pelo aparato de inteligência – e antagônica ao novo Ministro da Defesa Belousov, um economista – deixou a invasão ucraniana prosseguir com dois objetivos em mente: armar uma armadilha para os principais comandantes e tropas inimigas de Kiev, que foram desviados da frente de Donbass – em colapso; e colocar pressão extra sobre Putin para finalmente ir para a cabeça da cobra e acabar com a guerra.

Esta facção belicista, aliás, considera o Chefe do Estado-Maior Geral Gerasimov como “totalmente incompetente”, nas palavras de um profissional de inteligência. Não há provas concretas, mas Gerasimov supostamente ignorou vários avisos sobre um acúmulo ucraniano perto da fronteira de Kursk.

Um profissional de inteligência aposentado é ainda mais controverso. Ele reclama que “traidores da Rússia” na verdade “despojaram três regiões de tropas para entregá-las aos ucranianos”. Agora, esses “traidores da Rússia” poderão “‘trocar’ a cidade de Suzha por deixar o falso país da Ucrânia e promovê-la como uma solução inevitável”.

Aliás, somente nesta quinta-feira Belousov começou a presidir uma série de reuniões para melhorar a segurança nas “três regiões” – Kursk, Belgorod e Bryansk.

Os falcões no aparato siloviki não fazem segredo de que Gerasimov deveria ser demitido – e substituído pelo lendário General Sergey “Armagedom” Surovikin. Eles também apoiam entusiasticamente Alexander Bortnikov do FSB — que de fato resolveu o extremamente obscuro caso Prigozhin — como o homem que agora realmente supervisiona o The Big Picture em Kursk.

E o próximo é Belgorod

Bem, é complicado.

A reação do presidente Putin à invasão de Kursk era visível em sua linguagem corporal. Ele estava furioso: pela flagrante falha militar/de inteligência; pela óbvia perda de prestígio; e pelo fato de que isso enterra qualquer possibilidade de diálogo racional sobre o fim da guerra.

No entanto, ele conseguiu reverter a virada em pouco tempo, ao designar Kursk como uma operação antiterrorista (CTO); supervisionada por Bortnikov do FSB; e com uma lógica embutida de “não fazer prisioneiros”. Todo ucraniano em Kursk que não esteja disposto a se render é um alvo potencial — definido para eliminação. Agora ou mais tarde, não importa quanto tempo leve.

Bortnikov é o especialista prático. Depois, há o Supervisor de toda a resposta militar/civil: Alexey Dyumin, o novo secretário do Conselho de Estado, que entre outros cargos anteriores foi o vice-chefe da divisão de operações especiais do GRU (inteligência militar). Dyumin não responde diretamente ao Ministério da Defesa nem ao FSB: ele se reporta diretamente ao Presidente.

Tradução: Gerasimov agora parece ser, na melhor das hipóteses, uma figura de proa em todo o drama de Kursk. Os homens no comando são Bortnikov e Dyumin.

A jogada de relações públicas de Kursk está prestes a falhar maciçamente. Essencialmente, as forças ucranianas estão se afastando de suas linhas de comunicação e suprimentos para o território russo. Um paralelo pode ser feito com o que aconteceu com o Marechal de Campo von Paulus em Stalingrado quando o Exército Alemão ficou sobrecarregado.

Os russos já estão no processo de cortar os ucranianos em Kursk – rompendo suas linhas de suprimento. O que sobrou dos soldados de elite lançados em Kursk teria que voltar, enfrentando os russos tanto na frente quanto atrás. O desastre se aproxima.

O comandante irreprimível das forças especiais de Akhmat, Major General Apti Alaudinov, confirmou na TV Rossiya-1 que pelo menos 12.000 Forças Armadas Ucranianas (UAF) entraram em Kursk, incluindo muitos estrangeiros (britânicos, franceses, poloneses). Isso acabará sendo um “não faça prisioneiros” em grande escala.

Qualquer pessoa com um QI acima da temperatura ambiente sabe que Kursk é uma operação da OTAN — concebida com alto grau de probabilidade por uma combinação anglo-americana supervisionando a bucha de canhão Ukronazi.

Qualquer coisa que Kiev faça depende do ISR americano (inteligência, vigilância, reconhecimento) e dos sistemas de armas da OTAN, é claro, operados por pessoal da OTAN.

Mikhail Podolyak, conselheiro do ator de camiseta verde suado em Kiev, admitiu que Kiev “discutiu” o ataque “com parceiros ocidentais”. Os “parceiros ocidentais” — Washington, Londres, Berlim — em plena indumentária covarde, negam.

Bortnikov não será enganado. Ele declarou sucintamente, oficialmente, que este foi um ataque terrorista a Kiev apoiado pelo Ocidente.

Estamos agora entrando no estágio de combate de posicionamento hardcore destinado a destruir vilas e cidades. Vai ser feio. Analistas militares russos observam que se uma zona de amortecimento tivesse sido preservada em março de 2022, a atividade de artilharia de médio alcance teria sido restrita ao território ucraniano. Mais uma decisão controversa do Estado-Maior Russo.

A Rússia acabará resolvendo o drama de Kursk – eliminando pequenos grupos ucranianos de forma metodicamente letal. No entanto, questões muito sensíveis sobre como isso aconteceu – e quem deixou acontecer – simplesmente não desaparecerão. Cabeças terão que – figurativamente – rolar. Porque isso é apenas o começo. A próxima incursão será em Belgorod. Prepare-se para mais sangue nos trilhos.

Pepe Escobar – Analista geopolítico independente, escritor e jornalista

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn

Observatorio de Geopolitica

O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

8 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Marcio Rodrigues

    19 de agosto de 2024 9:34 pm

    Em sua análise quando do
    começo desta guerra li a opinião do Sr. Pepe Escobar sobre o conflito que se iniciava. Em 10 dias as forças russas teriam eliminado totalmente as resistências ucranianas, e os tanques russos teriam dominado Kiev. Hoje não temos mais a conta do número de dias gastos.
    Então prefiro não ter como referência, a sua análise.

    1. Rui Ribeiro

      20 de agosto de 2024 8:58 am

      Não fosse a Otan, Kiev não teria resistido 10 dias. Essa guerra é do Ocidente contra a Rússia.

  2. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    20 de agosto de 2024 8:40 am

    Será que o Zerenski quis repetir o fracasso das tropas alemãs na batalha de Kursk no ano de 1943?

  3. Fábio de Oliveira Ribeiro

    20 de agosto de 2024 11:49 am

    Essa é uma boa conversa, mas os comentaristas não perceberam algo importante. Quando Israel invadiu e começou a destroçar Gaza, ninguém mais queria falar da Guerra da Ucrânia. E agora que a Ucrânia atacou Kursk, invadindo o território russo, ninguém mais quer falar do Oriente Médio. Existe um efeito gangorra, criando oportunidades para a diplomacia primeiro na Europa e agora no Oriente Médio. O problema é que essas janelas que permitiriam a pacificação de uma região ou de outra estão sendo desperdiçadas, porque Netanyahu e Zelensky não querem ou não podem aceitar qualquer tipo de paz. Os negócios como de costume da guerra criam a gangorra jogando a atenção da percepção de um lado para outro, mas não encontram solução permanente para o problema ucraniano e sionisa.

  4. Joao

    20 de agosto de 2024 12:57 pm

    A Russia errou ao não dominar Kiev em 30 dias.

    Mudou para uma guerra de saturação, equivocada e segundo a quase totalidade dos analistas de guerra, muito suave, muito pouco agressiva.
    Permite a Otan sobrevoar a zona de guerra e a própria Rússia, sem derrubar nenhuma aeronave da Otan.
    A Otan diariamente estica a corda, sem a devida resposta da Rússia.

    Se a Rússia mantiver essa postura soft e leve, pode sim perder a guerra para um exercito que atualmente é superior a qualquer unidade da Otan.

    Se a Rússia quer ganhar, deve colocar o General Surovikin no comando

  5. AMBAR

    20 de agosto de 2024 3:18 pm

    TRÊS ocasiões limite me fizeram observar a capacidade de leniência e transformação de Putin em fazer de limnões deliciosas caipirinha. Quando as circunstâncias o forçaram a entrar na Ucrânia, depois de suas fronteiras estarem rodeadas pelas tropas da OTAN, Putin calculou que em breve tempo convenceria Zelensky a aceitar um acordo e encerrar a peleja. Negociadores a postos, conversar iniciados e Zelensly tira o pé, os negociadores são eliminados e a guerra começa. Putin adoeceu. Seu estado de espírito combalido era visível. Ele mal compareceu ao desfile militar que aconteceu na época. Estava doente. Resistiu, manteve de malgrado as contendas e começou a enfrentar o real problema: as sanções. Percebeu o objetivo das provocações e se fortaleceu lentamente. Depois de superar esse contratempo, veio o PRIZOGIN. Como um remédio amargo, Putin aceitou o Perigosinho por sua utilidade prática mesmo sabendo-o altamente perigoso. Prigozin fez o que fez e Putin balançou de novo. Contrariado até a medula teria que administrar os perigos de golpe, não poder mais contar com o perigosinho e ainda vencer o combate com a Ucrânia. Putin “resolveu” Prigozin com vantagens e mãos limpas. E então, quando já estava próximo de um alívio, sofre um ataque em seu próprio território. Quem besta suficiente para cercar território russo e atacar a população? Mais que um deboche, é a ousadia do Zelensky e a cochilada da defesa russa ao permitir a instalação de tropas em território tão vasto. Putin se emputece de novo, está, de novo, no limite e, ao tempo, mais próximo de vitória ainda maior. Agora Putin já tem um motivo para adentrar a Ucrânia e toma-la de vez. Quando explodiram seu estádio num ataque terrorista matando parte de seu povo, ele só podia alegar terrorismo ucraniano mesmo, e responder com moderação. Invasão já é outra história. Os russos, imortalizados nos gibis do Walt Disney como “o povo feliz da brutópia” não sabem lutar com armas psicológicas ou midiáticas como os americanos. Eles são mais materialistas, mais diretos e menos mentirosos, de sorte que esperam o desenrolar dos acontecimentos para agirem, enquanto os ocidentais criam acontecimentos para fazerem com que os outros reajam.

    1. Rui Ribeiro

      21 de agosto de 2024 9:36 am

      Ou seja, você acha que, ao adentrar a Rússia, a Ucrânia deu um tiro no próprio pé? Essa invasão no pode ser considerada terrorismo de grupos ucranianos, então…

  6. Paulo F.

    20 de agosto de 2024 6:53 pm

    Quem tem zape nuclear não perde guerra. Pode perder um tento ou dois, mas se chama nove ficam só os cachorros grandes…

Recomendados para você

Recomendados