Pesquisadores, cientistas e autoridades brasileiras denunciam os crimes humanos nos incêndios brasileiros, durante a Semana do Clima, que ocorre até este domingo (29), em Nova York, Estados Unidos. No evento, que busca trazer soluções para a crise climática mundial, estão presentes os ministros da Fazenda, Fernando Haddad, a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, e o climatologista brasileiro Carlos Nobre.
Em sua participação no evento, Nobre trouxe, juntamente com diversos pesquisadores brasileiros, o documento intitulado “Saúde Planetária”, que traça a única saída para o que o estudioso intitula como “ecocídio”: todos atuarem, como “guardiões”. “A doença do planeta Terra somos nós”, resumiu o climatologista.
“[Temos que ser] guardiões combatendo o crime, combatendo o risco de nós gerarmos o ‘ecocídio’, um suicídio planetário”, alertou Carlos Nobre, em entrevista à EBC e à Fundação Oswaldo Cruz.
“Nós entramos no outro antropoceno, uma nova era do planeta, no sentido de que não foram vulcões ou terremotos ou outras coisas que liberaram grandes quantidades de gás que provocam efeito estufa. Fomos nós mesmos! Já aumentamos a concentração de gás carbônico, para o principal gás do aquecimento global em 50%. (…) Nós estamos em um nível que só existia nos últimos períodos interglaciais, há 1 milhão de anos, 10 mil, 20 mil anos atrás, que tinha essa temperatura de hoje. Se a gente chegar a 3 graus mais quente, nós temos que ir numa faixa de 4 a 5 milhões de anos atrás. O nosso antepassado, o homo erectus, um primata que ficou ereto, caminhando com as pernas, foi há 3 milhões de anos atrás, e nós o homo sapiens, 200 a 250 mil anos atrás, nunca o clima do planeta passou desses limites que nós já estamos passando agora.”
Junto com outros especialistas, o colaborador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo e co-presidente do Painel Científico para a Amazônia integra o grupo intitulado Guardiões Planetários, que apresentou o documento em Nova York, nesta semana.
“Quão perto nós estamos aí de uma doença fatal pro planeta Terra, se continuar aquecendo o planeta, no meio do próximo século, a gente vai estar fazendo a sexta maior extinção de espécies do planeta, e a missão despreza a morte do planeta. Nós vamos lançar exatamente isso no documento, mostrando a importância e urgência de buscar soluções da saúde do planeta”, explicou.
Também presente na abertura do evento, a ministra Sonia Guajajara alertou para a atuação criminosa nos incêndios e degradação ambiental na natureza.
“Os fenômenos climáticos que eram esperados para daqui a dez anos já estão acontecendo hoje. O que a natureza está nos falando, pelo menos desde o ano passado, com o crescimento dos eventos extremos, é que, talvez, 1,5º já esteja defasado”, anunciou a ministra, durante o seu discurso.
Reportagem da Folha de S.Paulo desta terça (25) mostra dos 224 mil km² de incêndio no Brasil neste ano, 204 mil km² foram desde maio, a pior seca enfrentada da história do país, e sua grande maioria tem causa humana, incêndios provocados.
“Uma parte disto é reação da natureza, mas a maior parte é ação criminosa dos setores que não querem ver o Brasil do presidente Lula assumindo seu papel de protagonismo no enfrentamento à emergência climática”, pontuou Guajajara em Nova York.
“Infelizmente, no Brasil, na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal, vivemos uma seca histórica com calor também. Mais de 97% dos incêndios são humanos. É crime! Lógico, uma onda de calor, uma seca dessa, torna a vegetação muito mais inflamável. Quando se tem um incêndio, ele cobre e vai numa área muito maior se não tivesse uma onda de calor e uma seca dessa magnitude, foi recorde. Mas infelizmente no Brasil, o crime está colocando fogo, e o Brasil tem que rapidamente caminhar para proibir que a agricultura e a pecuária usem fogo. A agricultura e pecuária sustentáveis e modernas, produtivas, não usam fogo”, expôs Nobre, na entrevista.
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