4 de junho de 2026

Os desafios de Galípolo no Banco Central, por Luís Nassif

Sua diferença de Roberto Campos Neto é que ele irá explorar todas as possibilidades de redução dos juros, sem afrontar as regras do mercado
Fabio Rodrigues-Pozzebom - Agência Brasil

Não se espere atos heróicos de Gabriel Galípolo, na presidência do Banco Central. Sua diferença de Roberto Campos Neto é que ele irá explorar todas as possibilidades de redução dos juros, sem afrontar as regras do mercado. Campos Neto boicotava. Deu declarações, em Nova York, que reverteu o movimento de expectativa de queda na Selic. Atropelou todas as normas de atuação do banco, por uma questão política.

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Por outro lado, os governos Lula sempre padeceram de desconfiança do mercado, levando a um grau de radicalização maior do que nos períodos anteriores, de orientação liberal. Dia desses publiquei artigo meu, de 2006, mostrando o espanto de Armínio Fraga com uma meta inflacionária extremamente rígida da parte de Lula.

O mesmo se repetiu agora, com a meta fixada em 3%. Qualquer suspiro acima de 3% já dispara as pressões por aumento da Selic. Aliás, a quantidade de besteirol sobre a suposta gastança – especialmente nos editoriais dos jornalões – lança dúvidas sobre a inteligência da mídia corporaitva.

Ontem, o editorialista da Folha celebrava o bom desempenho da balança comercial. Mas dizia que tudo poderia ser comprometido pela gastança de Lula, que poderia estimular o aumento das importações. As importações aumentam quando a economia está aquecida. Quando se tem reservas cambiais da ordem de US$ 350 bilhões, o aumento das importações deveria ser celebrado, especialmente de insumos para a indústria.

Para tentar supor a lógica de Galipolo, é importante entender quais os principais vícios do mercado atualmente:

  1. O relatório Focus.

O relatório abarca as expectativas exclusivas do sistema financeiro em relação à inflação. Muitas vezes ocorrem jogadas visando aumentar as expectativas. Provavelmente Galipolo vai criar novas medidas de expectativas, captando o sentimento de outros setores da economia.

  1. O método de estimar a inflação.

A tal planilha do Ilan Goldfajn consiste em um conjunto de fórmulas que serve como corrida de galgo. Se aponta em uma determinada direção, imediatamente todo o mercado se articula todo na mesma direção. Ou seja, a planilha serve para homogeneizar a atuação dos agentes financeiros, ampliando as possibilidades de cartelização. 

Provavelmente, Galípolo introduzirá novos métodos de estimar a inflação.

  1. O mercado de títulos públicos.

Hoje em dia, a Faria Lima domina amplamente o mercado de Letras do Tesouro Nacional – que serve de parâmetro para as taxas de juros longas. É onde se dá a especulação brava, através de operações de arbitragem.

A idéia é melhorar o grau de avaliação do país, pelas agências de risco, e convencer fundos soberanos a adquirirem pacotes de LTNs, mas para levar até o vencimento. Isso reduziria o poder de fogo do mercado para especular com o papel.

O grande desafio de Galípolo será, pouco a pouco, cumprir a missão didática de convencer parte do mercado que taxas de juros elevadas não serão a única maneira de reduzir inflação.

Mas, antes, terá que administrar a armadilha deixada por Campos Neto, quando radicalizou as projeções sobre a Selic, amarrando seu sucessor a esse modelo, para não se enfraquecer perante o mercado.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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7 Comentários
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  1. Francisco Santos

    9 de outubro de 2024 12:10 pm

    BC vai ter de entrar nesse cabo de guerra econômico que é (sempre foi) a diferença entre gastar o orçamento público no bem estar da população ou alimentar um sistema financeiro predatório e arrogante

    Nossa alta taxa de subdesenvolvimento (a selic) não serve ao trabalhador, não serve à população, serve somente aos ricos empreendedores financeiros é preciso mudar esse quadro e não adianta usar a fake news de dívida pública

    Se querem que o Brasil honre divida porque não cobram dos EUA? Que devem mais de 33 trilhões? O discurso só vale pra gente?

  2. Antonio Uchoa Neto

    9 de outubro de 2024 3:33 pm

    A Mídia Corporativa tem pouca, ou nenhuma, preocupação, Nassif, com a inteligência de seus prepostos. É o bastante que saibam usar o ponto e a vírgula (e nem todos sabem, diga-se de passagem, mas as pedradas sempre poderão ser atribuídas ao estagiários), e fazer contas, nem que sejam de chegada. Inteligência não é um ativo rentável; a sabujice é, ainda que nem tão bem remunerada assim, creio eu. E a parte do Mercado que Galipolo poderá convencer, Nassif, é justamente aquela parte do Mercado que pode até comportar um certo grau de inteligência, e, sonhemos um pouco, visão pública, mas a outra parte – que fará ouvidos moucos à missão didática do jovem economista – é a que efetivamente manda. No mais, Galipolo será, no BC, o que Lula é no Planalto: um catador das migalhas que caem da mesa dos senhores. Marcos, 7, 29-29. Eis o modus operandi dos progressistas do Brasil.

  3. grevista

    9 de outubro de 2024 3:44 pm

    O Governo Dilma, em 2012, através do BC ainda não-autônomo, promoveu um ciclo de quedas da SELIC que levou-a ao seu menor nível histórico, fora o ciclo da pandemia. Isso termina às vésperas de junho de 2013. De lá para cá, a banca imprensou Dilma em fins de 2014 (pós-eleição) e 2015, impondo Joaquim Levy, deu o golpe de 2016 e elegeu, na falta de outro, Bolsonaro em 2018. Galípolo pode fazer história, de tiver como meta, de fato, aquilo que disse no Senado, que o BC tem que estar a serviço dos interesses do povo brasileiro.

  4. Daniel

    9 de outubro de 2024 9:12 pm

    Vamos cair na realidade Nassif.

    PROVAVELMENTE, o Sr Galipolo não fará nada disso.

    E o governo ERRA ao manter essa meta esdrúxula e inalcansavel de inflação.

    Saudades do saudoso André Araújo para discorrer sobre o tema.

  5. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    10 de outubro de 2024 8:00 am

    A regra de ouro de mercado é: Cobrar uma taxa de juros que compense a aplicação do capital improdutivo. Feito isso, pode-se negociar um aumento de juros que recupere eventuais perdas por erro de cálculo da inflação projetada..

  6. Alcides

    10 de outubro de 2024 10:36 am

    Como sempre, brilhante a consideração de Luís Nassif.
    Alcides,
    Vitória, ES, 10/10/2024.

  7. Anônimo

    10 de outubro de 2024 6:08 pm

    Obrigada Campos Neto… guardião da moeda. A missão de afastar a inflação está lançada.

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