8 de junho de 2026

É a realidade, estúpido!, por Luís Nassif

A defesa intransigente que analistas fazem do sistema de "metas inflacionárias" entrou no terreno religioso

Em uma prova que a burrice econômica brasileira é trabalho de uma geração, ai vai artigo meu publicado na Folha de S. Paulo em 27 de junho de 2006.

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A defesa intransigente que analistas fazem do sistema de “metas inflacionárias” entrou no terreno religioso

UMA FERRAMENTA de política econômica é ela, suas circunstâncias e sua implementação. A defesa intransigente que alguns analistas fazem do sistema de “metas inflacionárias” entrou no terreno religioso, a ponto de considerar estúpida toda crítica ao bezerrão de tetas de ouro da política monetária.

Vamos conferir essa fé cega dos sábios. Dizem eles:

1) Entre os emergentes, o Brasil é o país com mais altas taxas de inflação do mundo. Ao mesmo tempo, não pode crescer porque a economia bateu na capacidade instalada.

2) A inflação é fruto da falta de investimentos. E é isso que obriga o Copom a aumentar os juros quando a economia aquece.

3) O Brasil não cresce porque tem baixa taxa de poupança privada de longo prazo e o setor público investe pouco por culpa da Previdência. A economia é uma relação intrincada de fatores, influenciando mutuamente uns aos outros. Não são departamentos estanques que demandam soluções independentes. A solução de um fator pode afetar os demais. Decisões de investimento dependem de previsibilidade dos seguintes fatores: a) inflação, b) câmbio e c) crescimento.

Taxas de juros elevadas podem tornar mais previsível a inflação. Porém lançam instabilidade sobre a taxa de câmbio (provocando a apreciação do real) e sobre o crescimento. É por isso que um dos pais do sistema de “metas inflacionárias”, Armínio Fraga, na entrevista dada a Vera Brandimarte e Cláudia Safatle, no “Valor” de sexta-feira passada (com o significativo título “Juros eram e continuam a ser aberração”), critica metas muito ambiciosas de redução da inflação, pelos inevitáveis impactos sobre os demais fatores.

Vamos a outras observações sobre essa estilização estonteante da realidade econômica por parte dos sábios de pensamento simples:

1) O empresário decide seu investimento pelos fatores que levam ao aumento da produção: crescimento interno (para as vendas internas), câmbio (para as vendas externas). O consumo vai crescendo, o empresário vai aumentando a produção com o uso de horas extras, do terceiro turno. Sentindo firmeza no crescimento, começa a investir.

2) Qualquer sinal de aquecimento da economia leva o BC a aumentar os juros. A decisão de investir do empresário é imediatamente abortada. Sem investimento, obviamente não tem aumento de capacidade instalada. E o governo não investe porque aumento de juros obriga ao aumento do superávit fiscal.

3) É mito essa história de que o país não tem poupança interna. Na indústria de fundos, há um volume de recursos similar ao de uma economia como a espanhola. Por que não se conseguiu aumentar o volume de poupança de longo prazo? Como os ilustres analistas sabem, curvas de juros significam taxas maiores para prazos maiores. Se a taxa de partida é elevada, as de longo prazo têm que ser tão superiores que não há tomadores para elas.

Sei que a realidade é uma estupidez criada para prejudicar as teorias. Mas o que se vai fazer? Só mudar o bordão: “É a realidade, estúpido!”.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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7 Comentários
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  1. Milton

    4 de outubro de 2024 7:38 am

    Parece-me impossível aceitar que cobras nascidas, criadas e engordadas no/pelo mercado não conheçam o enredo da escola.
    Como os comentaristas globais, trazem hipóteses de futuros problemas que podem advir sem o sagrado contingenciamento de verbas públicas – estas restritas ao orçamento social jamais aos 40 e tantos por cento na conta do BC.
    O bodegueiro da esquina sabe muito bem disso menos os sábios do tal “mercado”.
    Ignorância conscientemente assumida pelos “sábios”?

  2. AMBAR

    4 de outubro de 2024 2:09 pm

    A economia é uma pseudociência que admite qualquer afirmação negativa sendo seu ramo, a macroeconomia, um meio “gentil” e seguro de subtrair o dinheiro do próximo ou fazer do próximo um rentável objeto de extração de modo a prover a riqueza de poucos.

    1. Stalingrado

      5 de outubro de 2024 2:43 pm

      Perfeito!

    2. carlos roberto de souza marques

      6 de outubro de 2024 7:45 pm

      Tanta sabedoria em poucas palavras. Pseudociência. Ciência que só acerta depois que a banda passou.

  3. Antonio Rego Barros

    4 de outubro de 2024 4:32 pm

    Impressionado com a lucidez e força dos teus artigos. Parabéns meu irmão! Sem comentários…

  4. fabricio coyote

    4 de outubro de 2024 7:44 pm

    Esse quadro do René Magritte (A reprodução proibida) é fenomenal! Ao lado direito da cômoda trata-se do livro “As aventuras de Arthur Gordon Pym”, do Mestre Edgar Allan Poe. Poe, aliás tem um texto sobre criptografia, que é a tecnologia do mundo de hoje, escrito no final do século XIX.

  5. Francisco Santos

    4 de outubro de 2024 10:42 pm

    Um país riquíssimo como o nosso com uma mão de obra ociosa e um parque industrial subutilizado, o que faltava pra dar certo?

    Acreditar no país, simples? e Lula acreditou e acreditamos nele e como consequência temos crescimento

    Esperança é a desgraça do economista e é também a economia do pobre

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