19 de junho de 2026

Seguindo em frente (I), por Izaías Almada

Meu pai gostava de falar da participação que teve na Revolução de 1924 e sobre ouvir o zunir de balas a passarem de raspão pelo seu capacete.
Heitor dos Prazeres

Seguindo em frente (I)

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por Izaías Almada

Dando sequência às minhas memórias, cujo primeiro volume desejo publicar em meados de 2025, vai aqui um “aperitivo” do que vou escrevendo, com grande carinho, revolta e saudades do que me foi dado viver até os dias presentes… “Travessia” será o título dessa caminhada.

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Anos de 1946/1948

Do antigo bairro do Progresso em Belo Horizonte, eu guardava apenas uma recordação: a foto em que tinha a idade de quatro anos, descalço, ao lado de minha tia Alice, irmã mais nova do meu pai, e que vez por outra vinha da cidade de Juiz de Fora para visitar parte da família.

Alice Almada, uma tia querida, nascida na primeira metade do século XX era a filha caçula dos Almadas e que viria a falecer aos quase cem anos de idade no primeiro quarto do século XXI e na mesma Juiz de Fora, onde durante alguns anos da adolescência do sobrinho dividiu com ele boa parte das férias escolares dos meses de janeiro e julho com o lado maior da família, na pequena Itamarati de Minas, perto de Cataguazes, cidade natal do nosso pioneiro cineasta Humberto Mauro.

Itamarati, uma pequenina cidade do interior mineiro, na época com pouco mais de dois mil e quinhentos habitantes, dos quais, sem medo de errar, posso afirmar que duzentos deles ou ate mais eram parentes em primeiro ou segundo grau.

Meus tios-avós, Manoel e Alberico Ferraz eram dois dos “coronéis” da cidadezinha. Alberico, dono de fazenda e o outro, Manoel, dono também de um pequenino cinema, onde o diminuto público dos finais de semana divertia-se assistindo a filmes da Atlântida, grande produtora do cinema brasileiro, localizada no Rio de Janeiro, bem como da paulista Vera Cruz que, nos anos 40 e 50 tiveram uma produção que chegou a rivalizar em matéria de público com alguns dos clássicos faroestes e musicais de Hollywood.

Meus avós paternos, Herculano Almada e Izarina Almada, tiveram oito filhos, Iza, Arthur, João, Adair, Maria (Cotinha), José (Zezinho), Dulce e Alice e uma penca de netos, primos por parte de pai.

Herdeiros que eram dos costumes e preconceitos daqueles que viviam pelos interiores brasileiros, vindos da colonização portuguesa, dos donos de terras e também dos conflitos sociais que surgiram com a libertação dos escravos na assinatura da Lei Áurea (1888), com a proclamação da república (1889), das revoluções de 1924 e 1930,meus antepassados, tiveram muitas histórias para contar da vida que levaram em algumas das principais cidades da zona da mata em Minas Gerais onde nasceram e se criaram, como Juiz de Fora, Cataguases, Muriaé, Barbacena e a minúscula e querida Itamarati de Minas.

Meu pai, por exemplo, que por várias vezes gostava de falar da participação que teve na Revolução de 1924 e o fato de ouvir o zunir de balas a passarem de raspão pelo seu capacete. Experiência que o deixou abalado para o resto de sua vida, onde acordava vez por outra no meio da noite aos gritos.

Posso dizer hoje, ao começar escrever essas memórias já com 82 anos de idade, que tive uma infância normal, desde que se considere, é claro, que nascer em Belo Horizonte ainda durante a Segunda Grande Guerra, ser filho de um policial e uma costureira, criado numa igreja metodista e de família humilde, possam ser consideradas coisas normais.

Sim, porque cada uma dessas características implicam em dados culturais muito diferentes uns dos outros, que acontecem – é verdade – a todos nós seres humanos, mas que nos tornam únicos.

A sobrevivência deve ser uma luta coletiva e não apenas individual. O caro leitor, por acaso, já se fez essa pergunta? Entregou-se a essa reflexão?

(Continua)

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

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Izaias Almada

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

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