4 de junho de 2026

O que será da música?, por Nadejda Marques

Tem poder de cura. É terapêutica. A música ativa a nossa memória coletiva ou nos integra a ela - “hey hey, dee dee, take me back to Piauí.”
Victor Jara

O que será da música?

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por Nadejda Marques

Não se pode subestimar o poder da música. A música nos encontra, nos conhece e nos revela, tal como cantava Roberta Flack. Sem pedir licença muda nossa vida. Nos afeta a nível físico-emocional, a nível psicológico e intelectual. Tem poder de cura. É terapêutica. A música ativa a nossa memória coletiva ou nos integra a ela – “hey hey, dee dee, take me back to Piauí.” Reforça nossa identidade e o nosso senso de moral. Música educa, mobiliza, comanda as massas. Quase sem querer, a música também é política.

Seu poder político pode estar na melodia, como na música La Paloma, que cantada com a letra de Eugenia León reforça sua universalidade. Seu poder pode estar na interpretação do artista. Um salve aqui à eterna  Mercedes Sosa quando canta Como la Cigarra mas, na verdade, em todas as suas canções. Seu poder pode ser deliberado e intencional como quando Caetano canta É Proibido Proibir. Ou, pode parecer um acordo entre artista e público como acontece quando Elis Regina se rende a O bêbado e a equilibrista.

Há tempos governos entendem isso e tentam canalizar esse poder político da música. A “diplomacia” do Jazz, tema de um dos documentários nomeados ao Oscar deste ano, Soundtrack to a Coup d’Etat, era uma estratégia propagandista dos Estados Unidos que usava o jazz e seus intépretes para ganhar as “mentes e corações” das pessoas pelo mundo afora e facilitar o avanço da política externa americana, muitas vezes pela violência, como foi no Congo, caso retratado no filme. Louis Armstrong chegou até mesmo a ameaçar renunciar a cidadania americana por desgosto de ter sido inadvertidamente explorado por seu governo para fim tão vil.

Guardadas as devidas proporções, a Nueva Trova cubana concebida de forma espontânea também tinha grande força e poder. O governo cubano entendeu esse potencial e passou a investir na música criando escolas e centros de cultura gratuitos e de apoio aos músicos e artistas. Pablo Milanés, Silvio Rodríguez e tantos cubanos cantavam os ideais e aspirações da revolução assim como também sobre o amor ao próximo e sobre a solidariedade entre os povos. A música era motivo de orgulho nacional e também um soft power para Cuba.

Sem quase nenhum apoio do governo, a música no Brasil não foi ou é muito diferente. Certa vez, um diplomata brasileiro quando perguntado sobre a influência do Brasil no mundo não titubeou com palavras que aqui parafraseio: – Somos muito queridos mundo afora pela nossa cultura e pela nossa música. O que seria do Brasil sem a música?

A mensagem hegemônica tá diferenteestá (nos) passando pra trás… Não temos mais o Public Enemy cantando Fight the Power. Temos o 50 Cent se apoderando do discurso de Malcolm X  “By Any Means Necessary” não para falar de liberdade, justiça e igualdade, mas para falar sobre como se enriquecer. É como se o sistema opressor não podendo destruir o poder da música se infiltra para neutralizá-la ou cooptá-la. Linhas Tortas e Pedrada não são maistream e brasileiro não conhece This is Not America do cantor porto-riquenho, Residente.E, quando o público não encontra inspiração política nas canções passa a buscar orientação e respostas em seus intérpretes. É assim por toda a parte. E, por isso, em tempos de eleição, cria-se uma expectativa sobre qual candidato/a receberá o apoio da Taylor Swift ou da Anitta. Será só imaginação? Será que nada vai acontecer?

É justamente por seu poder político que as músicas são temidas por governos autoritários. Se não tivessem esse poder, músicas não seriam censuradas. Cantores não seriam perseguidos, presos, torturados, mortos. Na semana passada, em pleno ano de 2025, Mehdi Yarrahi, preso desde 2023, foi chicoteado 74 vezes no Irã por cantar músicas supostamente de protesto. Em um verso de uma de suas canções mais famosas, “Nafa” (Respirações), Mehdi canta: “O que quer que tenha construído aqui com você/Você sabe bem, não está lá/Vou me apaixonando por você de novo/Apaixonando por quem não está lá”.

Ambos Chico Buarque e Victor Jara não gostavam de que suas músicas fossem rotuladas como música de protesto. Suas músicas descrevem a vida em seus respectivos contextos latino-americanos numa certa época. Falam de acontecimentos e sentimentos. Inequivocamente falam das injustiças sofridas pelos homens e mulheres no Brasil e no Chile. É uma música que retratando a experiência humana ultrapassa fronteiras, supera diferenças de línguas e vence a barreira do tempo. É justamente nessa dimensão que suas músicas se tornaram parte ou inspiraram uma resistência política e, com sorte, uma transformação social.

Será que (foi) tudo isso em vão?

Nadejda Marques é escritora e autora de vários livros dentre eles Nevertheless, They Persist: how women survive, resist and engage to succeed in Silicon Valley sobre a história do sexismo e a dinâmica de gênero atual no Vale do Silício e a autobiografia Nasci Subversiva.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. Antonio Uchoa Neto

    10 de março de 2025 3:57 pm

    Prezada Nadejda, uma das coisas que estão matando, não a música, mas a sua capacidade comunicacional mais profunda, é a Imagem. O produto áudiovisual. Não há mais música; há clipes. Escrevi isso, em um livro ainda inédito, chamado “Um Adeus às Palavras?”: “Creio – e essa convicção só se reforça, a cada novidade tecnológica que surge – que estamos a caminho de uma sociedade cujas necessidades e desejos serão todas satisfeitas virtualmente, acabando por transformar-se, elas também, necessidades e desejos, em itens virtuais de prateleiras virtuais.
    Estamos deixando de ser pais, filhos, irmãos, colegas, amigos, para nos transformarmos em seres virtuais, amigos e estudantes virtuais, consumidores virtuais, dados estatísticos virtuais.

    Pegue a trama, digamos, de “Orgulho e Preconceito” e transponha-a para os dias atuais; o que Jane Austen descreve em cerca de 300 páginas, reduziria-se a algumas cenas e situações que se resolvem, hoje, sem sair do lugar e sem nenhuma interação física, em alguns minutos diante da tela de celular. O Barão Frankenstein não necessitaria de nenhuma parafernália para criar seu ‘monstro’, nem de pedaços de cadáveres; a parafernália seria toda virtual, e os pedaços de cadáveres também; ele os recolheria nas redes sociais, sob a forma de perfis, com os detalhes de intimidade que todos fornecem gratuitamente, além de outros aspectos menos votados da personalidade de cada um, ou seja, vícios, preconceitos, recalques, etc.

    Nós mesmos fornecemos a esses doutores Frankenstein – zuckerbergs, bezos, musks – os nossos pedaços virtuais, que eles usam para criar esse monstro chamado Mundo Virtual. (…) Estamos na era do Tiktok, do Kwai; apenas alguns segundos são o bastante para comunicar o nada, o vazio absoluto em que as mentes das pessoas estão sendo transformadas. Tudo isso devido, em grande parte, ao primado do visual na vida moderna.

    Adeus Dostoievski, adeus Graciliano, Machado e Rosa. Abram passagem para si mesmos, no tiktok, no kwai, no Meta. Vocês não tem nada a dizer, ou o que se tem a dizer (e cabe) nesses meios tem a profundidade de uma tampinha de garrafa e validade de apenas alguns segundos, mas e daí? O ‘nada’ é fácil de entender, não requer esforço nem concentração. A vida é muito rápida, e paquidermes intelectuais, como eu, ainda preso ao mundo das palavras, vão ficando pelo caminho. Vamos morrendo como elefantes, mesmo, com direito apenas a alguns instantes de luto, por parte dos outros. É preciso seguir em frente, para não perder a próxima sensação do Mundo Virtual. Não importa mais o bem, não importa mais o mal. Desde que se ganhem likes e compartilhamentos, com o respectivo tilintar da caixa registradora, nada mais importa.

    Mas, com tudo isso, eu peço: reajam à morte das palavras. Rejeitem a própria noção de que elas estejam à morte. Creio que elas serão – se já não forem – a última forma visível, tangível, da Luz. Luz de Goethe, Luz de Dylan Thomas, ou mesmo a Luz do Espírito Santo, qualquer luz que possa nos ensinar e alargar nosso conhecimento e consciência, e que, podendo ser vista e ouvida, deve ser, principalmente, compreendida, criticada, e, finalmente, aceita ou rejeitada. Se a face de Deus não pode ser encarada, e a do Sol não pode ser suportada sem um filtro, usemos as palavras para encarar e suportar a Luz que é a própria vida, em si. Pois aquilo que é visto, e ouvido, é inelutável, não tem retorno, e nem outros contornos senão os que nossas pupilas captam, instantânea e irremediavelmente, e nossos ouvidos ouvem, inequivocamente. Mas que, no entanto, podem ser ilusórias, ou, simplesmente, falsas, direcionadas a confundir-nos, ou nos condicionar – fatores de que são pródigos, diga-se, as duas fontes de luz acima mencionadas. A forma visível da Luz, como se sabe, é difusa, prestando-se, portanto, a toda sorte de deformações ou representações falsas; e sendo a Luz a própria portadora da imagem, ela dissolve-se naturalmente em seu próprio conteúdo, e em derivações naturais ou artificiais, mais ou menos aceitas universalmente, e outras de caráter francamente deturpado. Todas essas falsificações são extremamente poderosas, e dificilmente rastreáveis, uma vez que compartilham com aqueles que as percebem, tudo, do formato ao conceito que delas se tem; ao contrário das palavras, cujo consumo é indireto e depende de vontade própria, por parte daquele que as lê – e isso nem sempre se percebe, ou se dá dessa forma. Mas, se, e quando, a emissão dos feixes de luz passa pelo prisma das palavras, dificilmente algo conseguirá se fazer passar por outra coisa – ao menos não por muito tempo, e apenas quando é seu intento precípuo enganar ou falsificar. As palavras servem aos seus manipuladores tanto quanto àqueles que delas fazem uso para a verdade e a justiça; mas elas não são iludíveis, e o discurso mentiroso, uma vez esmiuçado em sua essência verbal, desmascara-se a si mesmo. O mau uso das palavras é um suicida contumaz cuja verdade e natureza real muitas vezes dispensam bilhetes ou confissões, pois estas são esmagadas pela própria consciência de que é parte, e cujo raciocínio (não escrito, mas, mentalmente, verbal, sob a forma de palavras pensadas) desmascara a verdade fabricada pelo mau uso, e desvenda uma natureza suposta; e o tentado suicídio não se consuma, e inicia-se esse ciclo novamente. Mas esses suicidas têm o salvo-conduto das imagens e da manipulação física, de si e dos outros. E, nesse terreno, deixam de ser frágeis e falsos. A imagem, mesmo evidente e única, mente. Usada para o mal, torna-se imbatível. E o mal nada mais é que a imposição da vontade e domínio de um sobre o outro. A palavra, ainda que sujeita à manipulação, não mente; aceita-se, em alguns casos, a mentira pelas palavras, por autossugestão ou fraqueza de caráter: a mentira pela imagem é aceita fazendo-se passar por verdade, uma verdade conveniente para alguns, e opressora para outros.

    Contar histórias, desde o início dos tempos, foi uma atividade oral, desde o coro grego; a palavra escrita apenas lhe acrescentou uma dimensão para comunicar-se – ela é a memória da fala. Mas a imagem, a par de sua instantaneidade, sua inevitabilidade, uma vez compartilhada, é, ao mesmo tempo, meio e fim, meio e mensagem, seu próprio meio e seu próprio fim, seu próprio meio e sua própria mensagem; ela não necessita de intérprete, ou de alguém que a descreva, resuma, e qualifique. Ela é abrupta, definitiva em seu impacto inicial, e anestesiante, após; (…) A complexidade da execução artística perdeu o sentido nesses dias; trata-se de uma comunicação artística de outra natureza estética que está, graças ao ritmo aceleradíssimo da vida moderna, ameaçando tornar-se obsoleta, por expressar-se através de certas formas de percepção e fruição que necessitam de outra dimensão espaço-temporal para se concretizar. A palavra e a imagem, como veículos para essa comunicação, compõem uma antinomia fecunda, uma parceria milenar; mas essa antinomia está a se transformar, rapidamente, numa dicotomia excludente, em que uma (a imagem) está se sobrepondo de tal forma à outra (a palavra), e impondo seu império de forma monopolista (como convém a seus veículos atuais, as famigeradas plataformas de internet e as redes sociais), impondo o recorte de realidade (unilateral, reducionista) sobre a própria realidade complexa e multifacetada, como forma de chegar, rapidamente, não só a um pensamento único (o das plataformas e redes sociais) no campo do conhecimento e da informação, mas também de uma estética e expressão artística única, em que a realidade é simples e maniqueísta.

    Não seja, prezado leitor, submisso e gentil, para com essa boa (sic) noite. Não sejais submisso e gentil para com nada, nem ninguém. Não vos deixei seduzir pelo algoritmo, dessemelhante e invisível, não autogerado mas criatura de uma dominação benévola porém implacável. Tudo isso é tão enganoso quanto a morte, com sua opressora lenda de inevitabilidade. A barbárie, com quem a humanidade está constantemente a flertar, abomina as palavras, e ama as imagens; eliminando as primeiras, mata o que pode haver de crítico na mente, e manipulando as segundas, incute nessa mesma mente o amor ao ódio, ao desprezo, à ambição individual. Mortas as palavras, morta a generosidade, a solidariedade, a compaixão, que somente se exprimem por atos e palavras, e não podem ser falsificadas pelas imagens. Quando somente a Imagem vencer, reinar, e imperar, quando somente ela comunicar, não haverá voz discordante, nem alerta possível. No início, era o Verbo; e no final será…atrevei-vos a imaginá-lo, prezado leitor? Fico por aqui. Reajam, reajam contra a morte das palavras.”
    E, pelo visto, da música, também.

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