19 de junho de 2026

Lembo e os massacres de maio de 2006, por Luís Nassif

Percebendo o risco que Saulo representava para São Paulo, fui até o Palácio dos Bandeirantes falar com Lembo. O clima era extremamente tenso.
Faculdade de Direito da USP

Morto ontem, Cláudio Lembo era um liberal sério. Assumiu o governo de São Paulo quando Geraldo Alckmin saiu para a presidência.

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Nos últimos meses, a segurança pública do Estado estava às moscas, depois das brigas do Secretário de Segurança, Saulo de Castro Abreu Filho, com o Secretário de Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa. A sintonização entre ambos era fundamental para as políticas de segurança. Mas Saulo provocava tanta discussão nas reuniões com o governador, que Alckmin suspendeu os encontros.

Quando Alckmin saiu, Lembo assumiu e, imediatamente, reforçou o papel de Saulo. Minha área era a economia. Mas, percebendo o risco que trazia, fui até o Palácio dos Bandeirantes para falar com Lembo. O clima era extremamente tenso, após uma invasão do PCC que aterrorizou a cidade. Se não houvesse equilibrio, estava-se sujeito a massacres.

Alertei-o de que Saulo era desequilibrado. Uma vez, invadiu a Assembleia Legislativa com uma legião de PMs em pose ameaçadora. Em outra ocasião, decretou a prisão do dono de um restaurante, porque ele teria obstruído um pedaço da rua. Finalmente, havia suspeitas de sua participação no Massacre do Castelinho. Durante transferência de presos da Cadeia Pública de Guarulhos para Presidente Prudente, um ônibus com 52 presos foi interceptado por policiais miulitares. Dezenove presos foram mortos a tiros. A operação foi realizada por policiais do Batalhão de Operações Especiais, o sanguinário BOPE.

Mas Lembo preferiu fiar-se na avaliação de Alckmin, de que Saulo era eficiente. Na verdade, Saulo era homem de confiança de Alckmin e participante ativo da organização do financiamento eleitoral.

O que se viu meses depois foi o pior massacre da história de São Paulo, os massacres de maio de 2006. Viaturas da Policia Militar desligaram os rádios, para não serem ouvidos por terceiros. Houve execuções sumárias, inclusive de mulheres grávidas. O ritmo de mortes era de mais de cem pessoas por dia no Instituto Médico Legal. Só reduziram o ritmo quando procuradores da República entraram em contato com o Conselho Regional de Medicina, que topou enviar médicos legistas para o IML. Como a autópsia é o passo inicial para a investigação criminal, as mortes se reduziram drasticamente.

Foram mortas mais de 500 pessoas, entre elas mulheres grávidas, jovens negros indo para suas escolas. E nada foi apurado.

Depois disso, caiu a ficha de Lembo sobre o que ele chamava de “elite branca”. Mas os massacres de 2006 mancharam sua biografia.

Até hoje Saulo de Castro Abreu segue impune, uma mancha na história da justiça paulista.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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4 Comentários
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  1. Tadeu Silva

    19 de março de 2025 12:35 pm

    Lembro!

  2. Evandro Condé

    19 de março de 2025 12:40 pm

    Com a palavra nosso vice.

  3. Robert Red

    19 de março de 2025 7:14 pm

    Al-guimim, nosso amado vice-presidente…

  4. Leonardo

    19 de março de 2025 10:41 pm

    Oi, Nassif! Não teria sido uma emboscada a partir de uma pista falsa para um roubo? 2 presos foram usados como infiltrados, mas os mortos estavam a caminho do aeroporto de viracopos para realizar um assalto (o que era uma farsa para atrair o grupo).

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