19 de junho de 2026

Terras-raras: repetiremos os erros do passado?, por Daniel Tygel e Sylvio Costa

O mundo todo disputa minerais essenciais. Uma oportunidade de ouro para gerar riqueza e desenvolvimento, certo? Senão, vejamos.
Foto Agência Brasil

PL 2780/2024 aprovado libera mineração de terras-raras no Brasil sem licenciamento ambiental do Ibama.
Projeto incentiva exportação de minérios brutos e mineração predatória, sem garantir industrialização nacional.
Autores pedem participação da sociedade, transferência tecnológica e proteção ambiental para evitar erros passados.

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Terras-raras: repetiremos os erros do passado?

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por Daniel Tygel e Sylvio Costa

O cenário é tentador. O mundo todo disputa minerais essenciais para produzir carros elétricos, painéis solares, eletroeletrônicos e manufaturados que vão de mísseis a equipamentos de saúde. Entre tais minerais, terras-raras e também nióbio, grafite, níquel, manganês, lítio e outros dos quais o Brasil tem grandes reservas. Uma oportunidade de ouro para gerar riqueza e desenvolvimento, certo?

Sim, se buscarmos as soluções mais adequadas, o que não aconteceu até agora.

Prevalecendo o texto substitutivo do Projeto de Lei (PL) 2780/2024, aprovado pela Câmara dos Deputados mês passado, o Brasil deixará livre o caminho para novas tragédias ambientais, agora substituindo barragens por contaminação radioativa. Nesse caso, repetirá a tradição das decisões tomadas sem participação da sociedade civil, sem a escuta dos territórios afetados, sem cuidados básicos com o meio ambiente e descoladas de diretrizes nacionais coerentes, sem garantia de transformação industrial e de desenvolvimento tecnológico no país.

Jogaríamos fora mais uma oportunidade de deixarmos a posição de exportadores de minérios brutos vendidos a preço de banana e depois transformados em bens industrializados que compramos pagando caro.

Em teoria, o projeto adota como princípios da nova política mineral coisas como “soberania”, “agregação de valor em território nacional” e “desenvolvimento sustentável”. Na prática, nega os meios capazes de concretizá-los. Com o agravante de irrigar com incentivos fiscais a mineração predatória que leva a riqueza embora deixando para a população apenas os problemas.

Costurado às pressas, na véspera da reunião entre os presidentes Lula e Trump, o substitutivo precisará mais do que um simples banho de tinta se o Senado optar por lhe dar um rumo amparado no que ensinam a ciência e a experiência internacional.

Uma providência inicial deve ser a exigência de licenciamento ambiental por parte do Ibama, uma obviedade ignorada pelos deputados. É preciso ainda, entre outros pontos:

  • Vedar a exportação de minerais in natura, forçando o beneficiamento dentro do país;
  • Promover estudos independentes para garantir o uso de metodologias e tecnologias menos destrutivas, evitando a exploração mineral em locais de alta sensibilidade ambiental;
  • Assegurar transferência de tecnologia para o Brasil;
  • Garantir a representação da sociedade civil no Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, órgão colegiado vinculado à Presidência da República ao qual o texto atribui o poder de vetar projetos e operações lesivas ao interesse público;
  • Ouvir a população das áreas a serem atingidas;
  • Prover recursos técnicos, orçamentários e estratégicos para a Agência Nacional de Mineração (ANM) cumprir o seu papel, algo distante da sua realidade atual de mero “cartório” de concessões minerarias.

Qualquer outro itinerário representaria uma violação ao primeiro artigo da Constituição, que estabelece a soberania, a cidadania e o respeito da dignidade humana como fundamentos da República brasileira. Nesse caso, nos conformaríamos, mais uma vez, à função de simples fornecedores de matérias primas para a indústria de defesa dos Estados Unidos. Estaríamos assim dizendo não à chance de pensar e tornar possível uma nova nação, preparada para explorar seus recursos, mas levando em conta seus interesses estratégicos, a promoção da paz e a necessidade de preservar o diálogo soberano com todas as nações do planeta.

  • Daniel Tygel, mestre em Física pela Unicamp, preside a Aliança em Prol da APA da Pedra Branca (MG);
  • Sylvio Costa, jornalista e mestre em Estudos de Comunicação pela Universidade de Westminster (Londres), é o presidente da Rede Pela Soberania.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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