Tarifas não são dogmas e relógio não anda para trás
por Gilberto Maringoni
Ainda não está claro qual é exatamente o projeto de Donald Trump com a guerra de tarifas, tanto externa quanto internamente. Os EUA foram o país mais protecionista do mundo entre o final do século XVIII e o início do século XX. A Guerra Civil (1861-65) teve como motivo principal a unificação tarifária entre Norte e Sul, tendo em mente um processo industrializante. O grande projeto nessa época era consolidar um gigantesco mercado interno de massas. A participação do país na cena global não era equivalente à sua força industrial, em fins do século XIX.
É impossível voltar a um desenvolvimento autárquico nos dias de hoje. Isso não apenas porque o país necessita de commodities, insumos e produtos industrializados do exterior, como várias empresas estadunideneses buscaram instalar suas plantas em países nos quais os custos de produção são mais baixos. É o caso das montadoras de automóveis no México e no Canadá, assim como indústrias de alta tecnologia na China, casos da Apple e da Tesla.
A tarifação não é um dogma. Cada país, a cada tempo, usa ou abre mão de taxações de acordo com sua política industrial e de ramos que deseja proteger. Em geral, essas políticas protecionistas vêm acompanhadas de outras, como subsídios, financiamentos a baixo custo, isenções tributárias, reservas de mercado etc. A crise da Organização Mundial do Comércio (OMC) se dá em grande parte por divergências nas dinâmicas protecionistas entre diversos países.
Trump pode querer repatriar empresas de seu país agindo no exterior. Para isso, além da tarifação, terá de oferecer outras vantagens para que as operações valham a pena. Que empresas o governo planeja repatriar? Que interesse aquelas de altíssima produtividade terão com a volta? Ou, em oposição a isso, o presidente planeja internalizar manufaturas de uso intensivo de força de trabalho e baixa produtividade, como a produção têxtil e de material esportivo, localizada nos países mais pobres do leste asiático? Qual o projeto? Que tipo de emprego será gerado? Isso atende a que setores da burguesia industrial estadunidense?
É provável que haja um uso múltiplo da tarifação como ameaça constante em negociações bilaterais. Ou como chantagem de variados tipos. Cobranças seriam implementadas em controvérsias políticas, como forma de pressão.
O livre-mercado também não é um dogma. É modalidade de troca imposta por quem tem monopólios ou força, como a Grã-Bretanha em sua era imperial, ou os EUA no pós-II Guerra e entre os anos 1990-2010.
Por fim, por fim, Donald Trump faz do uso amplo, geral e irrestrito das tarifas uma forma de, mais uma vez, tomar conta da agenda Global. No entanto, por mexer de forma incisiva não apenas com o mundo ao redor, mas com o capital industrial de seu próprio país, colhe forte oposição interna, como estamos vendo.
Os últimos dias têm sido para lá de tensos. O capital especulativo foge da volatilidade das bolsas de valores ao redor do mundo diante da imprevisibilidade dos mercados. Operadores buscam a segurança do mercado mobiliário estadunidense. Ações desabam e o dólar se valoriza, num efeito contrário ao desejado por Washington. Trump agitao mundo para testar seus movimentos imediatos.
As tarifas são ferramentas políticas. Hoje estão nas mãos de quem julga poder impô-las e retirá-las a qualquer momento e de forma unilateral. A Casa Branca testa a todo momento as condições para avançar ou recuar. Até onde se sabe, isso não coloca um projeto de desenvolvimento em pé.
Gilberto Maringoni de Oliveira é um jornalista, cartunista e professor universitário brasileiro. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, tendo lecionado também na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Federal de São Paulo.
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Sergio Miletto
8 de abril de 2025 8:07 amLii alguma coisa sobre a capacidade dos EUA honrar sua divida e que as taxações serviria para trazer os países a negociarem os prazos dos títulos do tesouro americano.
Será?