Em entrevista exclusiva à revista norte-americana The New Yorker, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes teceu duras críticas ao que classificou como o “novo populismo digital extremista“. Na reportagem, assinada pelo jornalista Jon Lee Anderson, conhecido por seus perfis de líderes políticos, o magistrado expôs sua visão sobre a ascensão da extrema-direita e os desafios que as mídias sociais impõem à estabilidade democrática.
De acordo com o texto de Anderson, Moraes iniciou sua análise traçando um paralelo histórico, remetendo à Primavera Árabe para ilustrar o momento em que a extrema-direita percebeu o poder de mobilização direta das mídias sociais, “sem intermediários“. Ele lamentou que algoritmos inicialmente pensados para fins econômicos tenham sido facilmente “redirecionados para o poder político“, elevando as mídias sociais ao patamar de “força definidora do nosso tempo“.
A comparação estabelecida com Joseph Goebbels, o infame ministro da propaganda nazista, é impactante: “Se Goebbels estivesse vivo e tivesse acesso a X, estaríamos condenados. Os nazistas teriam conquistado o mundo.”
Moraes também comentou a estratégia da extrema-direita, que almeja o poder “não dizendo que se opõe à democracia, porque isso não obteria apoio público, mas alegando que as instituições democráticas são manipuladas”. Para o ministro, essa tática configura um “populismo altamente estruturado e altamente inteligente”, que “infelizmente, no Brasil e nos EUA, ainda não aprendemos a reagir”.
Segundo ele, essa manipulação de discursos pela extrema-direita é um “feito impressionante de lavagem cerebral” em um “nível inimaginável”.
A tentativa de Golpe de Estado
Conforme o relato de Anderson, Moraes lhe concedeu mais de uma entrevista, sendo uma delas feita no fim do ano passado e outra mais recente. Em uma dessas conversas, ao refletir sobre os eventos recentes no Brasil, particularmente a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, Moraes expressou surpresa sobre os riscos que corria o Estado Democrático de Direito: “Nem meus colegas nem eu poderíamos ter previsto que a democracia brasileira estaria em risco”, confidenciou.
O ministro do STF detalhou a tensão dos momentos cruciais após a invasão da sede dos Três Poderes, em Brasília, orquestrada por apoiadores do então ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), inconformados com sua derrota eleitoral para o presidente Lula (PT). As investigações posteriores revelaram que a ação representou um dos últimos atos de uma tentativa de golpe de Estado, supostamente arquitetada pelo governo Bolsonaro e seus aliados.
“O maior risco era a possibilidade de um efeito dominó. As forças policiais militares de outros estados — algumas das quais apoiavam Bolsonaro — também se rebelariam? Certos governadores apoiariam a tentativa de golpe?”, questionou Moraes. Diante da iminente ameaça, o ministro descreveu sua ação imediata: “Eu tive que agir imediatamente, no meio da noite.” A resposta, segundo ele, enviou uma mensagem clara: “Não toleraremos o caos no Brasil“.
Já ao ser questionado pelo repórter sobre a real dimensão do perigo, Moraes foi categórico: “Definitivamente havia um risco. E ainda há”.
O ministro também abordou o plano, parte da trama golpista, que visava sua “neutralização”. “Eu brinco com a minha equipe de segurança que eu não poderia morrer. O herói do filme tem que continuar“, afirmou.
Bolsonaro no poder?
Ao discorrer sobre as investigações em andamento acerca da tentativa de golpe, Moraes desconstruiu a narrativa bolsonarista de perseguição política, enfatizando que a recente acusação contra Bolsonaro e seus aliados não partiu apenas da Polícia Federal (PF), mas também da própria Procuradoria-Geral da República (PGR).
Sobre o futuro político de Bolsonaro, o ministro reconheceu a possibilidade de absolvição na esfera penal, mas foi categórico quanto à sua inelegibilidade: “Ele tem duas condenações do Tribunal Superior Eleitoral por inelegibilidade. Então, não há possibilidade de seu retorno — porque ambos os casos já foram apelados e agora estão no Supremo Tribunal Federal. Somente o Supremo Tribunal Federal poderia revertê-los, e não vejo a menor possibilidade de isso acontecer“.
O ministro ainda minimizou a influência da família Bolsonaro sem a liderança do ex-presidente: “nenhum deles — sejam seus filhos ou sua esposa — tem a mesma relação com as Forças Armadas que ele tinha“.
EUA só fará efeito se “porta-aviões chegar até o Lago Paranoá”
Ao longo da entrevista, Moraes reafirmou diversas vezes sua preocupação para o poder avassalador das mídias sociais, que se tornaram “agora o maior poder de todos”, influenciando eleições com sua vasta receita de publicidade.
Ao comentar o enfrentamento digital que incluiu o bloqueio de redes sociais como Telegram, X e, mais recentemente, Rumble, ele criticou a postura das plataformas que “não querem respeitar a jurisdição de nenhum país, porque, na realidade, eles buscam ser imunes às nações“.
Apesar de ser alvo de ações nos EUA movidas pela empresa de mídia de Trump, a Trump Media, e o Rumble, o ministro demonstrou despreocupação com a pressão internacional, especialmente dos Estados Unidos: “Eles podem entrar com ações judiciais, podem fazer Trump falar. Se mandarem um porta-aviões, aí veremos. Se o porta-aviões não chegar ao Lago Paranoá, não vai influenciar na decisão aqui no Brasil“.
A reportagem ainda contou com entrevistas do presidente Lula, deputada Tabata Amaral (PSB-SP), do senador Alessandro Vieira (MDB-SE), além de relatos da jornalista Patrícia Campos Mello. O perfil também será publicado na edição impressa da revista da próxima segunda-feira (14) da revista, com o título “Homens Fortes”.
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Paulo Dantas
9 de abril de 2025 4:58 pmUm ministro de Corte Suprema não deveria dar uma entrevista destas.
Virou ator político.
Não importa o conteúdo.
ERNESTO
10 de abril de 2025 1:35 pmJá foi pior: “Cala a boca já morreu”, “O escárnio venceu o esperança”, “o juiz tem que estar em sintonia com o clamor popular”, palestras pagas pro mercado financeiro, boneco de juiz fantasiado de super homem, palestras no Wilson Center, TV justiça e por aí vai. Coisas que fariam Judge Judy corar. Pelo menos agora a causa é justa. Serve pra desfazer o mal entendido…
Lênin and The Ulianovs
9 de abril de 2025 6:23 pmEu sou de um tempo que juiz tinha decoro, não falava fora dos autos.
É, e o pior é que o GGN repercute essas patacoada.
Depois reclama do lawfare.
Aí não dá né?
Paulo Dantas
10 de abril de 2025 6:54 amA entrevista foi dada, o papel da imprensa é noticiar.
Lênin and The Ulianovs
10 de abril de 2025 4:31 pmAh, sim, então a Globo está perdoada, então…
Entendi…
O jornalismo isento ou independente…
Sei, minino, é o mesmo argumento que eles usam, Veja só se Isto É possível?
Paulo Dantas
11 de abril de 2025 8:33 amDisse que este site pode publicar o fato da entrevista do Ministro.
Não falei em Globo.
Lênin and The Ulianovs
11 de abril de 2025 2:57 pmClaro que pode.
Não deveria, mas pode.
Todo fato publicado, Paulo, é antes uma escolha editorial.
Se é escolha, é escolha política, se é política, tem objetivo…
Logo…
Frederico Firmo
10 de abril de 2025 10:00 amMe incomoda os que normalizam as falas, agressões, mentiras e centenas de entrevistas de atores políticos, mas são contra as falas de pessoas que estão em campos opostos. Me incomoda que estes são censores que dizem o que um pode dizer e o outro não. Vivem dizendo o que um presidente pode dizer ou não, ( sendo que um ex pode falar tudo, mentir sobre tudo e agredir todos que se opõe) . Agora temos os que dizem que um juiz não pode falar A ou B, apenas ouvir. Quanto ao que fala de um tempo atrás, sobre decoro, eu quero que lembre que há um tempo atrás se tinha juiz, procuradores, e delegados da PF que não saiam da mídia.
Paulo Dantas
11 de abril de 2025 8:38 amO caldo entornou quando o STF virou programa de Tv.
Virou show.
A gente sabe o nome dos ministros do Supremo, em países civilizados um cidadão comum sabe o nome de um ou dois.
Mas virou normal deixa quieto.
Lênin and The Ulianovs
11 de abril de 2025 2:58 pmOpa, dois erros somam, então, um acerto?
Que beleza de “lógica”.
Tá aí, gostei.
João
11 de abril de 2025 1:05 pmglobo Dia 11 de Abril de 2025 feira
A feira é ilegal.
A feira ofende a Razão.
É uma ofensa a ordem tributária.
O estado é exacerbadamente corrupto.
Você sabe que a pessoa reside no local.
Você sabe que a polícia militar cometeu um crime.
Existe um bloqueio.