10 de junho de 2026

O Datafolha e a eleição de Tancredo, por Luís Nassif

A Folha já fazia pesquisas eleitorais, tocados para Mara Kotscho. Mas Otávio Frias percebera o potencial de uma agência de pesquisas
Agência Senado

Quando pedi demissão da Secretaria de Redação da Folha, fui convidado a me tornar uma espécie de diretor de conteúdo do recém criado Datafolha. 

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Até então, o jornal já fazia pesquisas eleitorais, tocados para Mara Kotscho. Mas Otávio Frias percebera o potencial de uma agência de pesquisas, ainda mais tendo a retaguarda da Folha. 

Continuei com a seção Dinheiro Vivo, e despejando ideias para o novo Datafolha para o engenheiro Pedro Pincirolli, o diretor administrativo do jornal. 

Indiquei o novo diretor da agência e preparei um memorando com cópia para o Frias com todas as ideias que me brotavam. O Datafolha poderia levantar preços de computadores, fazer pesquisas em supermercados, montar estatísticas sobre esportes e tudo o que a nova maravilha tecnológica – o microcomputador – permitiria fazer. O único investimento necessário seria a Folha adquirir dois microcomputadores Prológica, um para o Datafolha, outra para a seção Dinheiro Vivo. 

Pedro me ligou assustado. 

  • Nassif, antes de enviar qualquer coisa ao Frias, me consulte. Ele me ligou assustado com as exigências que você fez de compra de microcomputadores. 

Era risível. A Folha poderia fazer permutas com algum fabricante, não precisando desembolsar nada. Mas, provavelmente, Frias pensava em computadores grandes. O único que a Folha tinha era um velho mastodonte, que foi presentado por Amador Aguiar quando o Bradesco renovou seu parque de computação. 

Mas a pesquisa de maior impacto que fizemos foi quando a Câmara se preparava para votar no próximo presidente, em regime de eleição indireta. 

Preparei um questionário para ser preenchido por repórteres políticos, não por pesquisadores comuns. Eles deveriam consultar deputado por deputado e, depois do voto dado, colocar sua avaliação sobre o político: 

(. ) Confiável 

(. ) Não confiável. 

Com os votos, dividi a apuração em grupos. 

  1. Resultado nominal. 
  2. Tancredo: votos confiáveis em Tancredo, e não confiáveis em Maluf. 
  3. Maluf: votos confiáveis em Maluf e não confiáveis em Tancredo. 

No cenário menos desfavorável, Tancredo vencia. 

Preparei a análise para a edição de domingo. Sabia que haveria alguma resistência, já que Frias tinha boa afinidade com Maluf. 

Antes de sair a matéria, Otavinho me telefonou. Perguntou se eu tinha certeza do resultado. Disse-lhe que sim. Então queria que eu assinasse a matéria, para tirar a responsabilidade da Folha. 

A matéria saiu como manchete principal do jornal, com ampla repercussão. 

Na semana seguinte, o jornal repercutiu por vários dias o furo dado pela Folha. 

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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2 Comentários
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  1. Alexandre de Melo

    2 de maio de 2025 8:24 pm

    Três cp500 ou três s700?

  2. Lênin and The Ulianovs

    2 de maio de 2025 8:34 pm

    Tancredo, Tancredo…

    Se dizia pelas Diretas, mas articulava o colégio eleitoral com os militares.

    Sua obsessão pela presidência nos custou dois anos de parlamentarismo.

    E depois, a tragicômica transição, onde um prócer da ditadura virou o primeiro presidente civil.

    É como se um Himmler fosse eleito líder da Alemanha pós 45.

    Exagero? Sim, um pouco, porque Sarney era um lacaio da ditadura, mas era um tipo que se imaginava um esclarecido, como o outro da mesma estirpe, Marco Maciel.

    Lambiam as botas dos generais, democraticamente.

    Himmler, ao menos, tinha coragem e vestiu a farda.

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