17 de junho de 2026

BRICS: de clube econômico a escudo político do Sul Global?, por Mohammed Hadjab

Até quando o Sul Global continuará a assistir, impotente, às agressões contra seus povos, seus aliados, seus símbolos?
Foto: Getty Images

Por Mohammed Hadjab

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Num momento em que o Oriente Médio arde novamente sob os golpes de uma geopolítica do desprezo, impõe-se uma pergunta: até quando o Sul Global continuará a assistir, impotente, às agressões contra seus povos, seus aliados, seus símbolos? A agressão contra o Irã e o palestinocídio cometido por Israel são as expressões mais recentes dessa barbárie. Dois eventos que não podem mais ser ignorados nem relativizados.

Diante desse cenário, os BRICS — esse bloco que durante muito tempo foi visto como uma alternativa econômica à ordem neoliberal ocidental — precisam se transformar. Não apenas em um espaço de coordenação, mas em uma força de dissuasão, uma estrutura de defesa solidária, uma aliança estratégica dos povos oprimidos.

Uma força armada dos BRICS: o nascimento da F.I.R.E.

É chegada a hora de os BRICS criarem uma força militar de intervenção comum, batizada de F.I.R.E. — Força de Intervenção Revolucionária Estratégica. Não para atacar, mas para proteger. Proteger seus membros em caso de agressão. Afastar qualquer tentativa de intimidação ou chantagem. Apoiar os povos cercados, bombardeados, ocupados.

A F.I.R.E. simboliza a urgência de uma defesa coletiva real. Ela representaria uma virada histórica: o momento em que o Sul Global se organiza, se arma, e assume a responsabilidade de proteger seus próprios destinos.

Não se trata de provocação. Trata-se de responder a um mundo em que o direito internacional virou letra morta, onde os Estados Unidos e parte do Ocidente senil — não apenas envelhecido, mas preso a uma visão imperial ultrapassada — se arrogam o direito de decidir quem vive e quem morre.

O Estado da Palestina como membro pleno dos BRICS

Neste contexto, a admissão do Estado da Palestina como membro pleno dos BRICS seria um passo fundamental. Não se trata de um gesto simbólico, mas de uma afirmação política potente: o reconhecimento de um povo que há décadas é negado, bombardeado, silenciado, exilado.

Essa adesão seria também um ato de soberania coletiva. Uma forma de afirmar, sem rodeios, que o Sul Global não aceita mais ser refém de uma ordem mundial hipócrita e seletiva.

A Palestina não precisa de piedade. Precisa de alianças reais, de reconhecimento político e de instrumentos concretos de proteção. A sua entrada nos BRICS, com o respaldo da F.I.R.E., mostraria que este bloco deixou de ser apenas uma alternativa econômica e passou a ser uma potência política com visão de mundo.

Da retórica à ação

O tempo das cúpulas sem consequências precisa ficar para trás. Se os BRICS realmente desejam fazer frente às estruturas obsoletas do Ocidente (OTAN, G7, UE), devem deixar de ser gigantes econômicos com pés diplomáticos de barro.

Os povos do Sul — da África, da Ásia, da América Latina e da Oceania — não esperam apenas discursos. Eles esperam ação, coragem, solidariedade e visão estratégica.

Diante da agressão ao Irã, da destruição de Gaza, das constantes ameaças a todos que ousam se posicionar de forma independente… a neutralidade tornou-se cumplicidade. Se amanhã um dos membros dos BRICS for atacado, quem reagirá? Quem ousará romper com a espiral da covardia?

Um apelo à coerência

Este texto é um apelo. Um grito de lucidez. Um chamado à coerência política. Os BRICS precisam deixar de ser apenas um clube de reuniões e se transformar em uma comunidade de destino, capaz de defender seus povos, seus princípios e sua soberania.

Com a criação da F.I.R.E., os BRICS dariam um passo firme para proteger não só os seus interesses, mas também a dignidade dos povos que representam.

Num mundo onde o Império não hesita em destruir tudo que o contraria, o Sul Global não pode mais se dar ao luxo de estar desarmado.

Mohammed Hadjab, analista em geopolítica e Relações Internacionais

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