10 de junho de 2026

As tarifas de Trump nas cadeias produtivas dos EUA, por Luís Nassif

Essa dupla alíquota - de 50% nas exportações, mais 10% por ser dos BRICS - será um tiro no pé, afetando muitos setores influentes dos EUA.
John Pemble - Flickr

É regra básica de comércio internacional: quando as tarifas são tão elevadas e aplicadas de maneira generalizada, a intenção não é defesa comercial nem gerar receita, mas inviabilizar completamente as exportações de um país. É a instrumentalização da política comercial para fins políticos.

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É curiosa a análise dos efeitos dessa manobra na economia norte-americana.

Suco de laranja

Tome-se o caso do suco de laranja. Em  2024 o Brasil exportou US$ 1,31 bilhão, correspondendo a 305.898 toneladas. Esse suco é fornececido para os seguintes setores:

  • Indústria de bebidas (sucos e refrigerantes). Só o suco de laranja movimenta cerca de US$ 14 bilhões anualmente no mercado norte-americano. Entre as maiores marcas que dependem do suco de laranja brasileiro estão a Tropicana (PepsiCo), que gerou US$ 4,2 bilhões em vendas no ano passado, e a Minute Maid (Coca-Cola). Mais de 50% do suco é adquirido do Brasil.
  • Indústria de alimentos processados. Empresas como Kraft Heinz e General Mills tem fatia significativa desse mercado. O setor como um todo fatura US$ 1,6 trilhões anualmente.
  • Indústria de cosméticos e cuidados pessoais. O suco de laranja e derivados (como óleo essencial de laranja) são matéria prima desse mercado, que fatura anualmente US$ 93,4 bilhões.
  • Indústria de aromatizantes e essenciais. O setor fatura US$ 6 bilhões por ano e utiliza o suco de laranja brasileiro

Café

Avalie, agora, o mercado de café. Em 2024, as exportações de café para os Estados Unidos foram de US$ 7,5 bilhões. O país não produz café. Apenas a Indústria de Torrefação e Moagem faturou US$ 28,4 bilhões. A indústria de bebidas (cafeteiras e restaurantes) outros US$ 47 bilhões.

CategoriaExportações de Café do Brasil para os EUA (2024)Valor da Cadeia Produtiva Dependente do Café nos EUA (2024)
Exportações de CaféUS$ 7,5 bilhões
Indústria de Torrefação e Moagem de CaféNão aplicávelUS$ 28,4 bilhões
Indústria de Bebidas (Cafeterias e Restaurantes)Não aplicávelUS$ 47 bilhões
Indústria de Café InstantâneoNão aplicávelUS$ 2,4 bilhões
Mercado de Produtos Derivados do CaféNão aplicávelUS$ 6 bilhões (Cápsulas e Café Premium)
Mercado de Varejo de CaféNão aplicávelUS$ 10 bilhões

Minério de ferro

Já o minério de ferro rendeu exportações de US$ 4,9 bilhões para os Estados Unidos. O Brasil exportou 15 milhões de toneladas, por aproximadamente US$ 4,9 bilhões. O consumo total dos EUA é de 60 milhões de toneladas. Portanto, o Brasil responde por 25% do consumo norte-americano.

A cadeia produtiva do minério de ferro é:

  • Indústria siderúrgica: US$ 100 milhões.
  • Indústria automotiva: US$ 60 bilhões.
  • Indústria da construção: US$ 1,6 trilhão.
  • Indústria de máquinas e equipamentos: US$ 200 bilhões.

Celulose

O Brasil é fornecedor estratégico de celulose para os Estados Unidos, especialmente celulose de fibra curta (eucalipto), essencial para papéis tissue e produtos de maior qualidade. Apesar de representar apenas 4% do consumo, em volume, a celulose brasileira atende a segmentos premiums.

Nos EUA, o consumo de tissue (papel higiênico e guardanapo) é cerca de 3 vezes maior do que na Europa, com o mercado nomeado através da AF&PA .

Fabricantes como Kimberly‑Clark, Procter & Gamble e Georgia-Pacific lideram esse segmento, sobre o qual se estima um faturamento de mais de US$ 100 bilhões (papel + produtos finais).

Nióbio

O Brasil é o único fornecedor de nióbio para os Estados Unidos. Em 2024, o Brasil exportou US$ 2,38 bilhões de ferroládio, principal forma comercializada de nióbio.

O nióbio é utilizado nas seguintes cadeias produtivas:

  • Superligas – o mercado mundial faturou US$ 6,99 bilhões em 2024 e os Estados Unidos responderam por US$ 2,45 bilhões.
  • Aeroespacial e Defesa – é usado em turbinas de aviões comerciais e militares.
  • Setor automotivo e de infraestrutura – usado para conferir resistência ao aço em, pontes, dutos e automóveis.
  • Tecnologia avançada e energia – usado em supercondutores, aceleradores, fusão nuclear.

Conclusão

A primeira conclusão é que essa dupla alíquota – de 50% nas exportações brasileiras, mais 10% por ser país dos BRICS – será um tiro no pé, afetando muitos setores influentes dos Estados Unidos.

A segunda conclusão é o quanto o Brasil perde por não utilizar sua matéria prima em produtos acabados.

Bem que a arroubo de Trump poderia estimular um plano de desenvolvimento visando a industrialização das nossas matérias primas.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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7 Comentários
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  1. ANTONIO DAS GRAÇAS FONTES DEIRÓ

    11 de julho de 2025 8:56 am

    Os fascistas vestiram a camisa da seleção brasileira, enrolaram-se na Bandeira do Brasil, auto proclamaram-se patriotas e bateram continência para a bandeira americana.
    Ajoelham-se diante de Trump, o “arroto de fanta”, na taxação dos produtos brasileiros e nos ataques à Suprema Corte do Brasil.
    Vão ser patriotas assim, lá na casa do car do alho, ou melhor, da América.
    São hipócritas, traidores da Pátria, excrementos ideológicos da extrema direita.
    Os fascistas nos mandaram ir para Cuba. Não os mando ir para os Estados Unidos da América. Ficando no Brasil, eles vão aprender o que é ser patriota e o que é viver em uma Democracia.
    Peço apenas que não esqueçam:
    “O Brasil é dos brasileiros”

  2. Rui Ribeiro

    11 de julho de 2025 9:25 am

    De acordo com a mídia murdochiana:

    “Quem paga a conta da nova tarifa de Trump? Brasil perde mercado, e preços podem subir nos EUA
    Tarifa de 50% contra produtos brasileiros preocupa empresas nacionais, pelo risco de prejuízos e da perda de empregos. Medida também pressiona os consumidores nos EUA, já que pode encarecer alimentos importantes, como o café e a carne bovina”.

    O risco de perda de emprego no setor produtivo de commodities é mínimo pois a produção de commodities é altamente mecanizada. Prejuízos para os latifundiários é real. Mas eles terão menos dinheiro para financiar golpes. Os consumidores estadunidenses sairão perdendo. Alguém sairá ganhando. Quem seriam os ganhadores, Hermanas et Fratelli?

  3. Jotapontoj.marcelo

    11 de julho de 2025 9:48 am

    Lula vai defender ainda estes empresários q o queriam morro???AFF,NÃO CONCORDO !!!Vai savar quem SÓ QUER EXPLORAR O PAIS E METER P DINHEIRO NO BOLSO sem pagar um real ao povão e ao Brasil???AFF,NÃO CONCORDO!!!Eles não são os GOSTOSÕES?Merecem um Bolso.naro “nacionalista “,Lula vao fazer o serviço pra essa gente endinheirada mimada e depois vão meter o pé na bunda dele CPMO SEMPRE FOI,q desespero é esse de ajudalos?Só vão deixar de ganhar uns milhões a mais e SEREM OBRIGADOS a se voltar ao mercado nacional aff q INSENSIBILIDADE !!!

  4. Stalingrado

    11 de julho de 2025 4:29 pm

    Os 1% estão felizes em serem exportadores de bens primários e bater continências para a bandeira dos EUA.

  5. AMBAR

    11 de julho de 2025 6:57 pm

    Diante disso na segunda feira, sem falta, o Trump faz um pronunciamento e posta uma mensagem dizendo: “Er, não era bem isso que eu queria dizer, desculpe alguma coisa”
    Já os nossos exportadores já estão escovando os dentes para beijarem a mão do Lula pedindo pelamordedeus para não utilizarem a reciprocidade no Trump.

  6. fabricio coyote

    11 de julho de 2025 8:19 pm

    o Brasil tem de investir robustamente em supercomputadores quanticos…

  7. ALEXEI ADALBERETO MARTINS

    12 de julho de 2025 4:45 pm

    O artigo de Luís Nassif deu a dica: Bloqueie-se a exportação de nióbio do Brasil para as terras de Trumpete. O nazifascista vai ter de se explicar com os destinatários do valioso metal.

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