10 de junho de 2026

A limpeza étnica por trás dos campos humanitários de Netanyahu

Governo e militares discordam sobre questão, que ex-ministro israelense comparou com campos de concentração
Rafah, na Palestina. Foto: Wikipedia

Texto atualizado às 17h32 de 16/07/2025 para acréscimo de informações

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O governo de Israel entrou em confronto com as forças militares do país em torno da criação de um “campo humanitário” para alocar os palestinos na região sul de Gaza, iniciativa que foi comparada como um campo de concentração pelo ex-primeiro-ministro israelense Ehud Olmert.

Segundo o jornal britânico The Guardian, a denominada “cidade humanitária” tornou-se ponto de discórdia nas conversas sobre o cessar-fogo: Israel quer manter tropas nas regiões mais significativas de Gaza, incluindo as ruínas de Rafah, onde o campo será construído segundo o ministro da Defesa israelense, Israel Katz.

Porém, o grupo palestino Hamas pressiona por uma retirada mais abrangente, destacando que os planos do campo eram uma “demanda deliberadamente obstrutiva”.

Em mensagem enviada ao jornal The New York Times, Husam Badran, membro sênior do grupo, destacou que a cidade isolada “se assemelha a um gueto”, o que é algo “totalmente inaceitável e nenhum palestino concordaria com isso”.

Apagar os rastros dos palestinos

O tópico foi abordado na última edição do programa Observatório de Geopolítica – Oriente Médio, transmitido pela TV GGN nesta terça-feira, quando se discutiu o projeto de cessar-fogo com limpeza étnica em Gaza.

“O que espanta é que, assim o próprio Ehud Olmert, teve reações muito fortes em relação a isso, a própria ONU também”, explica a cientista política Natália Calfat. “Isso faz parte de fato de uma limpeza étnica, e que essa deportação, esse empurrão dos palestinos é basicamente um esforço de descarte dos palestinos”.

“O que eu queria chamar a atenção, assim, para além das ideias que são aventadas e que naturalmente são absurdas (…) O que me choca ainda é, digamos, a boa recepção, a receptividade ou ainda alguma abertura para pensar que isso pode ser uma solução, para que isso de repente pode então separar palestinos (…) Então isso ainda não cansa de me de me surpreender”, destaca Natália.

Na visão do analista em geopolítica Mohammed Hadjab, o mundo está acompanhando a finalização da limpeza étnica implementada por Tel Aviv no final de 1947, quando os líderes sionistas se reuniram para colocar em prática o plano de desarabização da Palestina, a limpeza étnica da população palestina.

Porém, o caso não envolve apenas a limpeza da população, mas também a destruição urbanística, em um chamado palestinocídio – segundo Mohammed, esse conceito não envolve apenas exterminar a população palestina, mas apagar qualquer traço civilizacional da Palestina da humanidade.

”O palestinocídio no meu conceito, ele leva em consideração o genocídio e o urbicídio -que é uma definição que foi dada na geopolítica pelo ex-prefeito de Belgrado, na ex-Iugoslávia, Bogdan Bogdanovic, que falava que o urbicídio era um plano que consistia a destruir o urbanismo, né?”.

“O que que pode testemunhar da consciência da cultura palestina, não no intuito de alcançar o objetivo estratégico, objetivo identitário. Então, tudo que esteja relacionado com a identidade palestina, mesquitas, igrejas”, destaca, citando como exemplo a destruição de um cemitério histórico na região da Cisjordânia ocupada.

“Então, a gente tá assistindo pouco a pouco a finalização, infelizmente, dessa limpeza étnica ou desse palestinocídio que foi implementado 78 anos atrás”, reafirma Mohammad Hadjab.

Esse e outros temas ligados à Palestina foram abordados na última edição do programa Observatório de Geopolítica, que pode ser acompanhado na íntegra a seguir.

Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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