Dona Olímpia, Dona China e Tia Cleuzi: Três matriarcas e um pavilhão
por Daniel Costa
Ao falar de carnaval e samba, é impossível pensar no singular. Com características e origens variadas, o mais adequado é buscar compreendê-los no plural. Ainda assim, algo que une a história do samba em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador (somente para citar três exemplos) é, antes de tudo, a trajetória da resistência negra urbana. Surgido nas comunidades formadas majoritariamente por ex-escravizados e seus descendentes no início do século XX, o samba foi alicerçado sobre os escombros de um país ainda escravocrata, consolidando-se como manifestação popular coletiva, que serviu de base para a construção da memória e do sentimento de pertencimento dessa população. Contudo, essa história, frequentemente contada sob a ótica de fundadores homens, não teria se sustentado sem a presença ativa e constante das mulheres, basta lembrar, por exemplo, da figura de Tia Ciata. No campo do samba e do carnaval, elas atuaram como costureiras, compositoras, balizas, porta-estandartes e fundadoras de agremiações. Dessa forma, a contribuição feminina foi, desde o início, central e vital. No entanto, essa atuação foi (e ainda é) muitas vezes invisibilizada pelas lógicas patriarcais que continuam a estruturar esse meio.
Nas primeiras décadas do século XX, o samba de São Paulo emergiu em territórios marcadamente negros como o Bixiga, Barra Funda e Glicério, regiões moldadas por laços comunitários de solidariedade, religiosidade e cultura. Ainda hoje considerados espaços de resistência, esses bairros abrigaram terreiros de candomblé, campos de futebol de várzea e cordões carnavalescos que contribuíram decisivamente para a forja de uma territorialidade afro-paulistana, voltada principalmente ao enfrentamento da exclusão urbana e do racismo. É nesse contexto que surgem figuras femininas fundamentais, muitas delas anônimas, que costuraram fantasias, buscaram apoio financeiro para colocar o desfile ou cortejo na rua, ensaiaram alas mirins e coordenaram atividades em suas próprias casas, transformando seus lares em extensões vivas das agremiações. Como lembra Olga von Simson, foi graças às “oficinas de costura” organizadas por essas mulheres que muitos cordões e escolas de samba conseguiram sobreviver à dispersão territorial provocada pelas políticas de expulsão da população negra dos centros urbanos.
Ainda assim, o acesso das mulheres ao próprio desfile e ao protagonismo nas agremiações foi, no início, restrito e condicionado publicamente a posições coadjuvantes. No cordão da Barra Funda, fundado em 1914, as mulheres ficaram inicialmente relegadas à organização interna, só passando a desfilar em 1921. Já no Vai-Vai, fundado em 1930 no coração do Bixiga, também não houve participação feminina no primeiro desfile. No entanto, já no segundo ano, elas estavam presentes, ainda que de forma tímida e simbólica. É o caso de Dona Sinhá, que desfilou como baliza, empunhando o bastão de madeira, jogando a capa ao vento e abrindo caminho para o cordão. Uma ousadia que, à época, desafiava não apenas a norma carnavalesca, mas aos olhos de hoje a própria ordem de gênero.
Dessa forma, a inserção feminina nos cordões foi se ampliando ao longo dos anos, com as mulheres passando a ocupar funções mais visíveis: assim, tornaram-se balizas, rainhas, porta-estandartes, destaques e pastoras. Mesmo grávidas ou amamentando, como relataram Dona Odete e Dona Iracema em entrevista concedida a Olga von Simson, elas não deixavam de desfilar, adaptando-se às exigências físicas com inventividade. Além disso, muitas também participavam dos tradicionais Blocos dos Esfarrapados, por vezes irreverentemente e quando necessário partindo para o confronto físico, o que contrariava o discurso dominante sobre uma suposta fragilidade feminina. Essa presença intensa no corpo da festa, entretanto, contrastava com o lugar que lhes era (e, em muitos casos, ainda é) reservado nos bastidores do poder carnavalesco.
Com o final dos cordões e o posterior crescimento e profissionalização das escolas de samba, o papel da mulher passou a ser institucionalizado nos chamados “departamentos femininos”, espaços que, em geral, reafirmavam funções tradicionalmente atribuídas às mulheres. Nesses setores, elas assumem responsabilidades como cuidar da ala das baianas, costurar fantasias, organizar eventos ao longo do ano e, sobretudo, preparar as refeições. As tarefas administrativas, artísticas e políticas, tais como os cargos de direção, o comando da bateria e a participação na ala dos compositores, continuam, em sua maioria, sob o controle masculino. Quando mulheres conseguem ocupar esses espaços, enfrentam frequentemente resistências e precisam lidar com preconceitos, tanto explícitos quanto sutis. No entanto, é importante destacar que o carnaval de São Paulo apresenta exemplos que rompem com essa lógica. A história da fundação da Lavapés por Madrinha Eunice é um deles, assim como a atuação de Angelina Basílio e Solange Cruz, respectivamente presidentas das escolas Rosas de Ouro e Mocidade Alegre. Contudo, o samba, assim como outras esferas da sociedade brasileira, continua a reproduzir estruturas que afastam as mulheres do centro decisório e criativo da festa.
Mesmo diante desse cenário, as mulheres fizeram e continuam fazendo história, não somente como alegorias ou adereços sensuais no espetáculo televisivo que hoje se sobrepõe até mesmo à dinâmica das agremiações. São, sobretudo, guardiãs da memória, pilares de continuidade e fontes de criatividade. Como aponta a literatura sobre os territórios negros urbanos, é por meio da memória e da reorganização espacial que a cultura negra urbana sobreviveu às transformações da cidade. Nesse sentido, as personagens homenageadas neste texto atuaram como verdadeiras agentes culturais e políticas, mantendo vivas as tradições da escola alvinegra do Bixiga. Dona Olímpia, Dona China e Tia Cleuzi Penteado, cujas trajetórias serão apresentadas a seguir, sintetizaram a força feminina do samba paulistano. Foram matriarcas, verdadeiras baluartes, lideranças, referências e mães do povo preto do Bixiga. São figuras cuja presença atravessou décadas de carnaval, enfrentando o machismo, o racismo e posteriormente as tentativas de apagamento. Ao revisitarmos suas histórias, não apenas prestamos homenagem às três, mas também reconstituímos uma narrativa coletiva que reconhece o papel insubstituível das mulheres no samba de São Paulo.

A participação feminina nos primórdios do Vai-Vai
Como dito acima, a presença feminina no então Cordão Vai-Vai, nos seus primórdios, era limitada e marcada por papéis específicos na agremiação. Fundado em 1930, o Cordão surgiu como um espaço de resistência cultural e sociabilidade para a comunidade negra do Bixiga. Inicialmente, as mulheres não faziam parte do núcleo central da agremiação, composto majoritariamente por homens, mas sua participação foi se consolidando gradualmente em funções como porta-estandarte, balizas e integrantes de alas.
Com o passar do tempo, a atuação feminina tornou-se uma expressão viva de resistência, ancestralidade e protagonismo negro. Ao longo das décadas, mulheres desempenharam papéis fundamentais na constituição simbólica, religiosa, cultural e política da escola, ainda que suas contribuições nem sempre tenham sido reconhecidas pelas narrativas oficiais do carnaval paulistano. Seja como matriarcas do samba, passistas, costureiras, compositoras, baianas ou mães de santo, essas mulheres sustentaram ao longo do tempo os alicerces do mais premiado pavilhão do carnaval de São Paulo, bordando a história da escola com fios de luta, fé e pertencimento ao território do Bixiga.
No primeiro desfile do Vai-Vai, ainda em 1930, destaca-se, por exemplo, a presença de Dona Iracema como porta-estandarte, figura emblemática que carregava o símbolo da agremiação. Outro exemplo marcante é o de Sinhá, já mencionada anteriormente, que, com somente doze anos, foi a única mulher a integrar o grupo de balizas, tradicionalmente composto por homens. Sua inclusão, embora isolada, representou um marco na história da escola. Com o passar dos anos, as mulheres passaram a assumir funções como porta-estandarte e balizas, posições que exigiam destreza e elegância, mas que não envolviam decisões estratégicas na estrutura da agremiação. Um exemplo notável é Dona Olímpia, que iniciou sua trajetória destacando-se como a “dama de negro”, figura simbólica que se tornaria referência nos desfiles do Vai-Vai e em outros cordões paulistanos da época.
Além da atuação nas frentes visíveis da escola, muitas dessas mulheres contribuíram decisivamente nos bastidores: confeccionando fantasias, preparando os alimentos para os eventos (como as tradicionais feijoadas), organizando os ensaios e oferecendo suporte logístico durante os desfiles. Tais atividades, embora essenciais para o funcionamento da agremiação, muitas vezes eram invisibilizadas ou minimizadas. Assim, o machismo predominante no meio carnavalesco acabava relegando às mulheres funções secundárias, ainda que fossem fundamentais para o desenvolvimento da agremiação e do desfile carnavalesco. A própria historiografia e os registros de memória, por vezes, reproduzem essa lógica, destacando majoritariamente os homens como fundadores e líderes, enquanto as mulheres aparecem em segundo plano, mesmo quando suas contribuições foram significativas.
Assim, se a presença feminina nos primeiros anos do Vai-Vai foi discreta, ao mesmo tempo, foi essencial. As mulheres atuavam em funções tradicionalmente associadas ao universo feminino, como porta-estandarte, balizas e apoio logístico, enquanto os homens ocupavam os cargos de comando e criação musical. Infelizmente, tal dinâmica apenas refletia as estruturas mais amplas da sociedade brasileira, profundamente marcadas por desigualdades de gênero. Com o tempo, entretanto, personagens como Dona Olímpia, Dona China e Tia Cleuzi revelaram o potencial de protagonismo feminino no carnaval paulistano e no próprio Vai-Vai, abrindo caminho para uma presença mais afirmativa das mulheres nos espaços decisórios e criativos da escola, especialmente a partir dos anos 1970.
Se o Vai-Vai, por um lado, foi forjado como um verdadeiro terreiro de samba, por outro, também deve ser compreendido como um espaço sagrado. Sua antiga sede, localizada na Rua São Vicente, abrigava um quarto de santo, com assentamentos de orixás e práticas litúrgicas que mantinham vivas as tradições do candomblé e da umbanda. Esse espaço era, majoritariamente, cuidado por mulheres. Eram elas que organizavam as festas de São Cosme e Damião, de Ogum, de São Benedito; que preparavam os alimentos votivos, conduziam os xirês e cuidavam das oferendas. Como mostrou Claudia Alexandre em seu trabalho, essas práticas fizeram da escola um território sagrado, onde o samba se entrelaçava ao sagrado, reafirmando o axé ancestral que rege a escola.
A Ala das Baianas, por sua vez, é um dos segmentos mais simbólicos das escolas de samba e do Vai-Vai. Mais do que um “agrupamento coreográfico”, trata-se de um núcleo de força espiritual, onde mulheres mais velhas, muitas delas ligadas a terreiros, carregam saberes ancestrais. Elas giram suas saias como quem gira o tempo, invocando, com seus corpos e cantos, a memória de inúmeros ancestrais que fizeram de forma compulsória a travessia atlântica. No entanto, a atuação dessas mulheres não se restringe ao campo simbólico ou ritualístico, elas também protagonizam lutas concretas em defesa do bairro, da história e da memória. Exemplo concreto pode ser observado por meio da remoção da sede do Vai-Vai, por conta das obras da Linha 6-Laranja do metrô. Desde que tal fato ocorreu, parte considerável da comunidade do Bixiga tem se mobilizado, evidenciando os conflitos entre os interesses do capital e a preservação do patrimônio imaterial da cidade. Nessa luta, muitas mulheres da escola vêm se destacando, denunciando o racismo institucional e ambiental que ameaça soterrar, junto ao leito do Rio Saracura, as histórias do Quilombo do Bixiga e das tradições afro-brasileiras cultivadas por décadas naquele solo através do Vai-Vai. A disputa pelo território, nesse contexto, não é somente física: é também simbólica, espiritual e política.
Desse modo, pensar a presença feminina no Vai-Vai é reconhecer que o samba foi e continua sendo uma das mais fortes expressões da resistência negra no Brasil. E que, sem as mulheres, não haveria escola, não haveria desfile, e principalmente, não haveria axé. São elas que garantem a continuidade da tradição, que formam as novas gerações, que cuidam da escola como se cuida de um terreiro, mantendo acesa a chama do pertencimento ao Bixiga. Mesmo diante do apagamento histórico, da desigualdade de gênero e das tentativas de embranquecimento e mercantilização do carnaval, essas mulheres seguem firmes: cantando, girando e sambando. A história do Vai-Vai é, portanto, indissociável da história dessas mulheres. Escrever sobre a escola sem as mencionar é repetir as violências do silenciamento, é por elas que o samba vive. É com elas que o carnaval resiste, e são nelas que o futuro da escola encontra sua força mais profunda. Porque o carnaval não é somente música e fantasia: é memória, território e fé. E, no Vai-Vai, ele tem o nome, o corpo e a alma de muitas mulheres.
Dona Olímpia, Dona China e Tia Cleuzi representam dezenas de mulheres que sustentaram e sustentam, com coragem e sabedoria, o legado do Vai-Vai. Cada uma, à sua maneira, contribuiu para costurar o estandarte e depois o pavilhão alvinegro com fios de memória, tradição e resistência. E quando falamos de pavilhão, a referência não é só a bandeira que tremula ao desfilar no Anhembi. Falo do pavilhão que, ao desfilar pela Rui Barbosa nos ensaios de rua, evoca o nosso passado, a coletividade forjada no Bixiga; marcada pela ancestralidade africana e pela luta contra o apagamento histórico, mas também o futuro, pois se o Vai-Vai, tem seu lugar, não é em qualquer região da cidade, é no solo do Bixiga. Ao reconhecer essas três personagens como matriarcas e verdadeiras baluartes, afirmo que o samba feito no Bixiga e no Vai-Vai só existe porque foi, e continua sendo, sustentado pelas mãos, pelos corpos e pelas vozes de inúmeras mulheres como as três.

Dona Olímpia
Nascida em 1914, Olímpia dos Santos Vaz, a nossa Dona Olímpia, foi uma das primeiras mulheres a contribuir concretamente para a consolidação do samba como espaço de sociabilidade negra na cidade de São Paulo, ao lado de outras figuras históricas como Madrinha Eunice. Oriunda da região da Barra Funda, Dona Olímpia percorreu um caminho oposto ao de Dona Sinhá, esta última saiu do Bixiga para reinar na Barra Funda, enquanto Dona Olímpia migrou no sentido inverso. Na juventude, integrou os cordões Campos Elíseos e Flor da Mocidade, agremiações que antecederam o nascimento do Vai-Vai. Assim sua trajetória no carnaval remonta à década de 1930, quando os sambistas ainda desfilavam pelas ruas sob constante vigilância policial e marcados pelo estigma imposto pelas elites paulistanas que enxergavam como verdadeiro carnaval aquele que ocorria na Avenida Paulista ou nos salões frequentados pela alta sociedade.
Embora tenha dado seus primeiros passos no carnaval ainda na Barra Funda, foi na Bela Vista que Dona Olímpia se tornaria uma verdadeira referência comunitária. Esmerada costureira, confeccionava fantasias impecáveis, porém seu papel ia muito além da agulha e da linha. Enquanto liderança nata, atuava na organização de festas e na preservação das tradições afro-brasileiras. O mesmo zelo que demonstrava pelas festividades também se refletia na sua relação com a agremiação. Segundo relatos de membros da velha guarda da escola, dificilmente um tema de carnaval ou samba-enredo era aprovado sem o aval da matriarca. Um exemplo marcante ocorreu na virada da década de 1970 para 1980, quando ela impôs a escolha dos sambas compostos por Almir Guineto e Luverci Ernesto, mesmo contrariando a preferência de compositores influentes dentro da escola.
Filha de português, Dona Olímpia construiu, no decorrer do século XX, uma trajetória marcada pela dedicação à cultura popular, ao carnaval e à comunidade do Bixiga. Foi casada com Diógenes Carlos Vaz, pianista conhecido na noite paulistana. Mesmo diante da oposição do marido, que não via com bons olhos sua participação no carnaval, ela insistia em frequentar os ensaios com seus filhos e filhas, inicialmente às escondidas. Gradualmente, com o apoio de Sebastião Eduardo Amaral, o “Pé Rachado”, então presidente do Vai-Vai, Dona Olímpia e sua família foram integrados oficialmente aos desfiles da escola.
Dessa forma, sua atuação ultrapassou a condição de simples componente da agremiação. Dona Olímpia tornou-se organizadora de alas e uma das lideranças femininas mais importantes dentro do Vai-Vai, reconhecida por sua capacidade de articulação, sua presença constante e pelo zelo com que cuidava da escola. Sua casa era ponto de referência na organização do carnaval: um espaço de convivência e ensaio, servindo ainda como abrigo para práticas culturais e sociais ligadas à agremiação. Nessa função, Dona Olímpia anteciparia movimentos que mais tarde seriam institucionalizados por outras mulheres no carnaval paulistano.
Ao lado de Madrinha Eunice e Dona Sinhá, Dona Olímpia é lembrada ainda hoje como uma das grandes matriarcas do samba paulistano, ou seja, uma guardiã da memória, da tradição e da força coletiva das mulheres negras nas escolas de samba. Sua presença é evocada em composições, como a clássica Batuque de Pirapora, do mestre Geraldo Filme, como no verso que a eterniza: “Cresci na roda de bamba / No meio da alegria/ Eunice puxava o ponto/ Dona Olímpia respondia/ Sinhá caía na roda/ Gastando sua sandália/ E a poeira levantava/ Com o vento das sete saias.”
Sua liderança foi marcada pelo compromisso com os valores fundamentais do samba: respeito aos mais velhos, a religiosidade e a devoção ao samba e ao Vai-Vai. Esses princípios foram destacados pelo compositor Osvaldinho da Cuíca, que a reconheceu como uma das figuras mais respeitadas da Velha Guarda da escola. Dona Olímpia era presença constante nos ensaios e eventos do Vai-Vai, sempre com semblante sereno, sorriso acolhedor e, quando necessário, a firmeza própria de quem exerce uma liderança legítima. Sua figura tornou-se símbolo de resistência cultural e preservação das raízes do samba paulistano.
Em reconhecimento à sua contribuição inestimável para o samba e para o carnaval, ao longo de sua vida foi homenageada em diversas ocasiões, desde escolas coirmãs, incluindo cerimônia na Assembleia Legislativa de São Paulo, por iniciativa da deputada Leci Brandão, que celebrou sua trajetória e legado. Dona Olímpia faleceu em 2015, aos 100 anos, deixando uma marca duradoura no carnaval paulistano. Sua trajetória é exemplo de dedicação, respeito e amor ao samba, ao carnaval e especialmente ao Vai-Vai. Sua memória permanece viva na história da agremiação e no coração de todos que celebram o samba em São Paulo.

Dona China
Emília Feliciano Ferreira, a Dona China, assim como Dona Olímpia, pode ser considerada uma das figuras mais emblemáticas do samba paulistano e do Vai-Vai. Nascida em 4 de agosto de 1929, sua história também se confunde com a própria trajetória da escola. Mulher negra, operária, comerciante, sambista e liderança comunitária, Dona China construiu uma trajetória marcada pela resistência, criatividade e profundo amor pelo samba. Desde muito pequena, sua vida esteve entrelaçada ao universo do carnaval. Começou no samba aos seis anos, acompanhada pelo avô, que era folião e organizador de blocos. Foi ele quem lhe deu o apelido “Chininha”, comparando seu cabelo farto à cauda de um guaxinim. Desde então, a pequena China participava de blocos carnavalescos, festas religiosas e rodas de samba nas fazendas do interior de São Paulo, carregando ramos de café à frente dos desfiles como símbolo de abertura. Essa formação precoce no universo do samba e das tradições populares a marcaria para sempre.
Com a mudança para a capital, indo morar no bairro do Ipiranga, China passou a integrar o cordão Juventude, atuando como contrabaliza. Com o tempo, engajou-se também nos festejos religiosos, como as festas da igreja e procissões, revelando uma atuação comunitária que iria ultrapassar os limites do samba. Seu pai era músico de orquestra, de tal modo que a música também estava presente em sua vida por todas as frentes. Com o passar dos anos, ocorreu o deslocamento do Ipiranga para o Bixiga, onde Dona China se consolidaria como uma das grandes referências do Vai-Vai. Foi, por exemplo, a primeira porta-bandeira da agremiação após sua transição de cordão para escola de samba, nos anos 1970. Sua importância é tamanha que ela é considerada, por muitos integrantes, uma das almas da agremiação. Fundou ainda a escolinha de mestre-sala e porta-bandeira dentro do Vai-Vai, contribuindo para a formação de gerações de sambistas.
A memória de Dona China também carrega a história da luta das mulheres negras no carnaval. Em entrevista concedida ao historiador Bruno Baronetti recordou os tempos difíceis em que, por falta de recursos, confeccionava suas fantasias com tecidos baratos, improvisando plásticos no lugar de lantejoulas. Segundo a própria, uma de suas fantasias mais marcantes foi feita com cetim preto e ornada com plástico recortado na forma da bandeira do Vai-Vai. Ao entrar na avenida, lembra: “Esplandeceu!”. Além de sambista, China também foi presidente da escola Unidos da Vila Carrão, demonstrando sua capacidade de liderança e organização. Chegou a investir recursos próprios para garantir o desfile da escola, mas se afastou após conflitos com dirigentes. Sua decisão de se retirar refletiu não somente um gesto de protesto, mas também de coerência com seus princípios.
Mesmo com idade avançada e enfrentando problemas de saúde, como um AVC sofrido pouco antes da citada entrevista concedida a Baronetti, em 2011, Dona China seguia ativa, vendendo cuscuz nos ensaios do Vai-Vai. É difícil, para quem viveu os tempos áureos dos ensaios na Rua São Vicente, não se lembrar da barraca da China, seguia assim, mantendo viva sua ligação com a escola. Ao longo de sua trajetória, também recebeu diversas homenagens, entre elas a de “Mulher do Ano” do Vai-Vai e o título de primeira Embaixatriz-Mestra da Associação de Mestres-Sala, Porta-Bandeiras e Estandartes do Estado de São Paulo.
China sempre fez questão de afirmar sua fidelidade ao Vai-Vai, mesmo auxiliando outras escolas, jamais desfilou contra seu pavilhão. Guardava como relíquia o primeiro estandarte que conduziu, desejando que um dia fosse exposto em um museu. Sua memória e sua história são testemunhos de um carnaval que, segundo ela própria, estaria em risco. Trata-se de um carnaval que, no passado, era gratuito, coletivo, popular e vibrante, mas que hoje, em suas palavras em 2011, virou “carnaval para rico”.
Dona China faleceu em São Paulo em 2014, deixando um legado marcante no carnaval. Sua memória segue viva nas homenagens promovidas pelo Vai-Vai, que reconhece nela uma de suas grandes. Além disso, a eterna Chininha permanece presente na lembrança dos sambistas e na história da escola, simbolizando a resistência, a tradição e a força da mulher no samba paulistano.
Para além do Vai-Vai, Dona China teve papel central em uma prática de profundo valor simbólico no universo das escolas de samba: o batismo de agremiações. Ao lado de nomes como Fernando Penteado, Eduardo Nascimento, Buiú e mestre Gabi, foi uma das principais responsáveis por conduzir essa cerimônia de passagem, que marcava o ingresso de novas escolas no universo do samba. Esses ritos ocorrem, tradicionalmente, quando uma nova agremiação é fundada e busca o reconhecimento das escolas mais antigas, especialmente das chamadas matrizes do samba, como o Vai-Vai. O batismo envolve o encontro de pavilhões, palavras de bênção, gestos simbólicos e o compromisso dos padrinhos em acompanhar e orientar a escola afilhada.
Cabe ainda destacar que Dona China foi uma das “batizeiras” mais ativas de São Paulo, segundo a própria, batizou “quase todas as escolas” de São Paulo, como o Paulistano da Glória, fundada por Geraldo Filme, sempre chamada por sua autoridade moral e ligação com as tradições do carnaval. Era frequentemente convidada por Fernando Penteado, que fazia questão de buscá-la pessoalmente. “O batismo é igual quando você batiza uma criança. Você assume que vai cuidar. E a gente cuidava mesmo”, afirmou. Mais do que um ato cerimonial, o batismo é um gesto de legitimação simbólica, política e afetiva da nascente agremiação. No entanto, com a profissionalização e mercantilização do carnaval, esse ritual vem sendo progressivamente deixado de lado. Hoje, ainda sobrevive principalmente nas “escolas de bairro” e naquelas ligadas à UESP, como forma de resistência cultural.

Tia Cleuzi
Nossa terceira personagem, Cleuzi Hermínia Rodrigues Penteado, ou simplesmente Tia Cleuzi, foi outra grande matriarca do carnaval paulistano e do Vai-Vai. Neta de Frederico Penteado, conhecido como Fredericão, um dos fundadores da agremiação, assim como nossas personagens anteriores, teve sua vida entrelaçada à história da escola praticamente desde o nascimento. Começou a desfilar ainda criança, aos cinco anos, em 1942, vestida de pajem, e nunca mais deixou o chão da escola. Desde cedo esteve imersa na cultura do cordão, atuando como passista, no coro de canto e na corte carnavalesca. Com o passar dos anos, ocupou diversos papéis, sempre com enorme dedicação e profundo vínculo com a comunidade.
Em 1968, em meio às transformações que ocorriam no carnaval e na sociedade, Tia Cleuzi fundou, ao lado de Dona Paula, o Vai-Vai do Amanhã, a ala infantil da escola. Criada para iniciar as crianças no universo do samba, essa ala se consolidou como um espaço formativo, onde os pequenos aprendem não só a sambar, mas também a respeitar, amar e preservar a tradição do Vai-Vai. Essa iniciativa demonstrava seu compromisso com a formação das novas gerações, exatamente no momento em que as escolas passavam a se estruturar como organizações culturais mais complexas. Até os últimos anos de vida, Tia Cleuzi continuou à frente dessa ala, comandando aquelas crianças com firmeza e carinho. Para desfilar sob seus olhos atentos, as crianças precisavam apresentar bom desempenho escolar. “Quem não passasse de ano, não desfilava”, dizia com firmeza. Suas palavras não eram meras advertências, mas princípios orientadores.
Com voz doce e, ao mesmo tempo, firme, transmitia a essa nova geração de sambistas ensinamentos com afeto. Cleuzi costumava dizer aos jovens que: “A bateria é o coração da escola, vocês são o sangue, e a veia artéria vai jorrar na bateria”. Para muitas das atuais passistas, mestres-sala, ritmistas, intérpretes da escola e até integrantes já pertencentes à velha guarda, foi pelas mãos de Tia Cleuzi que aprenderam a amar e respeitar o samba. Ao longo da história do Vai-Vai, muitos dos sambistas que ajudaram a conquistar os quinze títulos da escola passaram pelas mãos de Tia Cleuzi. Seu compromisso era pedagógico e emocional, e sua figura tornou-se símbolo de continuidade no carnaval, ano após ano. Em reconhecimento à sua trajetória, foi eleita Cidadã Samba em 2002 e também recebeu o título de Embaixatriz do Samba Paulistano, assim como Dona Olímpia. Como afirmou seu irmão, Fernando Penteado sobre a presença feminina na escola: “Quem mandava mesmo no Bixiga eram as mulheres. A mulher é quem sustentava a casa. A mulher negra sempre trabalhou. A Vai-Vai tem um mundo de negão e mais a mulher! Tem a esposa do Tobias, Dona Joana, Odete, Dona Olímpia, precursoras”.
Além do Vai-Vai, Tia Cleuzi também era apaixonada por futebol. Torcedora fanática do São Paulo, mantinha grande afeição pela comunidade do Bixiga, onde atuava nas festas de rua, nas reuniões comunitárias e nas atividades da escola. Sua presença constante em todos os eventos da agremiação fazia dela uma ponte viva entre o passado e o presente. Cleuzi representava a memória da agremiação, respeitada por todas as alas e gerações, mesmo durante a pandemia de Covid-19, quando o carnaval foi suspenso. Seu comprometimento com o Vai-Vai não diminuiu. Permaneceu atenta à comunidade, coordenando as atividades com as crianças e sonhando com o retorno dos desfiles.
Tia Cleuzi faleceu em abril de 2022, cercada de reconhecimento e carinho. Deixou uma filha, três netos, três bisnetos e centenas de “filhos do samba”, criados sob sua orientação e zelo. No dia de seu velório, realizado no Cemitério do Araçá, a comunidade do samba retribuiu seu legado com lágrimas e batucada. Seu legado permanece vivo em cada verso cantado, em cada ritmo ecoado e em cada criança que desfila com brilho nos olhos e respeito no coração.
As trajetórias de Dona Olímpia, Dona China e Tia Cleuzi compõem um mosaico de resistência, ancestralidade e protagonismo negro no carnaval paulistano. Cada uma, à sua maneira, seja costurando fantasias, conduzindo o pavilhão, formando novas gerações ou coordenando variadas alas, ajudaram a cimentar os alicerces simbólicos, espirituais e comunitários do Vai-Vai. Unidas pela devoção ao samba e pelo compromisso com o Bixiga, essas mulheres imprimiram suas marcas na memória coletiva da escola alvinegra, não somente como figuras de bastidores, mas como verdadeiras arquitetas de uma cultura que resiste ao tempo, à mercantilização e as tentativas de apagamento histórico. Nossas donas e tias foram e são guardiãs de um saber que não se aprende nos manuais do carnaval; e sim na convivência cotidiana pelas ruas do Bixiga, nos ensaios de rua, na cadência da bateria, no girar da saia das baianas e na firmeza do olhar dessas baluartes que seguem olhando por nós.
Ao recontar a trajetória dessas três grandes mulheres que dedicaram suas vidas ao pavilhão alvinegro, honrando e fazendo dele o orgulho da Saracura, homenageio também todas as donas, tias e avós que seguem firmes na defesa desse símbolo. Para citar somente algumas delas, relembro figuras como: Dona Castorina, Dona Iracema, Maria Preta, Ana Penteado, Dona Florinda, Dona Iría, Iara, Vó Anacleta, Dona Maria, Tia Dita, Dona Odete, Lucíola, Pitica, Clarinda, Ondina, Nizete, Vitorina, Olga, Sinhá, Dona Nina, Odila, Dirce, Antonieta Penteado, Tininha, Tica, Cida Pato, Cassimira, Regina Maura, Maria do Carmo, Carmem, Fátima, Eliana, Sandrinha, Dona Paula, Mafalda, Rosely, Cleuza Amarante, Cidinha Tergal e Dona Penha.
Essas mulheres foram, e continuam sendo, os principais pilares do Vai-Vai.
P.S.: No momento em que finalizava a escrita deste texto, chegou a notícia do falecimento de mais uma de nossas baluartes. Tia Dina, além de ser exímia cozinheira, era uma das responsáveis por conduzir o estandarte da Velha Guarda da escola. Seu sorriso e seus ensinamentos ficarão para sempre na memória da comunidade do Vai-Vai.
*Daniel Costa é historiador, pesquisador, compositor e integrante do G.R.R.C. Kolombolo Diá Piratininga
Para saber mais:
ALEXANDRE, Cláudia. Orixás no Terreiro Sagrado do Samba: Exu e Ogum no Candomblé da Vai-Vai. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Aruanda, 2021.
ALEXANDRE, Claudia; MASSAFUMI YAMATO, Newton; AVERSA, Marcelo. A memória negra do Quilombo Saracura: lutas pelos comuns frente às práticas de planejamento territorial da cidade de São Paulo. Diálogos Socioambientais. Disponível em: https://periodicos.ufabc.edu.br/index.php/dialogossocioambientais/article/view/1128
BARONETTI, Bruno Sanches. Transformações na avenida: história das escolas de samba da cidade de São Paulo. 1. ed. São Paulo: Liber Ars, 2015.
COSTA, Daniel. Samba, Raízes e Identidade: a Trajetória do Vai-Vai. Disponível em: https://jornalggn.com.br/cultura/samba-raizes-e-identidade-o-vai-vai-por-daniel-costa/
COSTA, Daniel. O passado da população negra. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/o-passado-da-populacao-negra/
COSTA, Daniel. Vai-Vai: 95 anos de samba. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/vai-vai-95-anos-de-samba/
PICCIRILLO, Nathalia Fogliati. As baianas no carnaval paulistano: um estudo etnográfico sobre a ala das baianas na Escola de Samba Unidos do Peruche. 2018. 118 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Universidade Federal de São Paulo, Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Guarulhos, 2018.
SILVA, Zélia Lopes da. A Agremiação Vai-Vai: Os batuqueiros do Bixiga nos carnavais da cidade de São Paulo (1930-1972). Territórios e Fronteiras (UFMT. Online), v. 12, p. 250-271, 2019.
SIMSON, Olga von. Carnaval em branco e negro: Carnaval popular paulistano 1914-1988. Campinas: Editora da UNICAMP; São Paulo: /EDUSP, 2007
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